26 de novembro de 2021

Em 25 de novembro de 1946 era publicada a obra Geografia da Fome, de Josué de Castro, pioneira em desmistificar a miséria e tratar a fome não como uma questão natural e biológica – e portanto um destino inexorável-, mas sim como fruto de razões sociológicas, geográficas e escolhas políticas e econômicas. Ou seja: a fome no Brasil poderia ser extinta, como provaram os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome da ONU, consequência direta das políticas de transferência de renda e inclusão social que se tornaram modelo para o mundo. No Brasil de Bolsonaro, a fome volta a assolar a população, que se enfileira em busca de doação de ossos, deixa de consumir arroz, feijão e carne e revira lixo em busca de alimentos. Nesta sexta, que marca a Black Friday – data comercial estadunidense notória por promover promoções de artigos de consumo como eletroeletrônicos e passagens aéreas -, o destaque são as promoções de alimentos. É preciso que os supermercados façam promoção de víveres para que os brasileiros tenham a possibilidade de encher o prato.


A fome faz parte da história do nosso país desde que o Brasil é Brasil. Foi preciso de um metalúrgico nascido da fome ocupasse a presidência, seguido pela primeira mulher presidente do República, para que o Brasil saísse do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez na história, em 2014. Infelizmente, após o golpe contra a presidenta Dilma, voltamos a essa realidade bem depressa. O governo Bolsonaro tem condenado novamente os brasileiros a um ciclo de miséria, pobreza, fome e desespero. Nas palavras de Lula: “A fome não é um fenômeno da Natureza. A fome é falta de vergonha na cara de quem governa esse país”.

Hoje, 26 de Novembro, enquanto o mundo comemora mais uma data hipercapitalista de compras, o Brasil se vê novamente dividido entre aqueles que podem gastar muito dinheiro em produtos da Black Friday e aqueles que reviram lixo para comer. No entanto, vimos um fenômeno observado poucas vezes na história, as grandes redes varejistas fazem Black Friday de produtos alimentícios. A situação está tão feia que a promoção mais aguardada é de comida.

E isso é resultado de uma série de fatores convergentes. É claro que a pandemia tem sua parcela de culpa nessa história, porém a gestão desastrosa da crise encabeçada por Bolsonaro e sua equipe levaram o Brasil ao fundo do poço.


Hoje, temos uma inflação de dois dígitos incidente sobre o preço dos alimentos . Os últimos números divulgados pelo IBGE são do final de outubro e apontam que a alta no preço dos alimentos foi de 14,66% no acumulado de 12 meses e de 21, 39% desde o início da pandemia.


O maior efeito dessa elevação absurda de preços é sobre os mais pobres. De acordo com o IBGE, os gastos com alimentação representam 20,94% da renda dos brasileiros. Se analisado entre as famílias que vivem com 1 a 5 salários mínimos, o peso da alimentação chega a 23,84% dos rendimentos.


Soma-se a isso a alta taxa de desemprego que temos por aqui. Hoje, o Brasil tem a quarta pior taxa num ranking com 44 países, de acordo com um levantamento elaborado pela agência de risco Austin Rating, com 13,7 milhões de pessoas sem trabalho.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o Brasil feche 2021 com uma taxa de desemprego de 13,8%. Isso coloca a economia brasileira na 14ª pior posição no mercado mundial de mercado de trabalho.

O pior é que o futuro próximo não traz grandes esperanças. Para 2022, Bolsonaro deve deixar o salário mínimo pelo terceiro ano sem aumento real pelo 3º ano seguido. O piso deve ficar em R$ 1.147 para o ano que vem, segundo estimativa do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias.


Hoje, o salário mínimo é de R$ 1.100. Em muitos lugares do País, a cesta básica já ultrapassa os R$ 700, o que quer dizer que é possível comprar apenas 1,5 cestas com um salário. A inflação corrói o poder de compra do trabalhador e, sem aumento real do mínimo, a situação fica ainda mais difícil, sobretudo para as famílias mais pobres, que sofrem para pagar as contas do mês e acabam no endividamento. Em 2014, um salário mínimo comprava 2,58 cestas básicas.


Num salário ainda mais desolador, temos mais de 19 milhões de brasileiros vivendo em insegurança alimentar, um contigente que mais que dobrou de 2018 até aqui. Isso significa que mais de 19 milhões de pessoas não sabe se vai se alimentar nas próximas 24 horas. Os dados são da Rede Penssan. As maiores vítimas dessa situação são as crianças, que enfrentam problemas graves de desenvolvimento relacionados à fome.


Para além de todos os graves problemas já apontados, temos um mercado paralelo e perigoso crescendo no Brasil. A alta do preço da carne fez crescer o mercado paralelo de venda de bovinos abatidos de forma ilegal, o que pode ocasionar a proliferação desenfreada de doenças como a tuberculose, a cistircercose, o botulismo, a toxoplasmose e diversas outras, que vão sobrecarregar ainda mais nosso sistema público de saúde. E mais, já existem casos de abatedouros vendendo carne de cavalo a restaurantes do Rio Grande do Sul.


O Brasil passa, hoje, por uma cadeia complexa de problemas relacionados a uma gestão problemática, irresponsável, em que falta humanidade e sobra vaidade. Esses problemas atingem, é claro, as pessoas pobres com muito mais gravidade, pessoas que já são naturalmente invisibilizadas pelo sistema e pela sociedade e para as quais Bolsonaro e sua equipe nunca governaram. São eles que recorrem aos caminhões de lixo e aos matadouros ilegais, são eles que adoecem e morrem à míngua, vítimas do descaso. Na Black Friday Brasil, Bolsonaro tem rifado os pobres.