27 de outubro de 2018

O flagrante conflito de interesses entre a suspeita que paira sobre Paulo Guedes e sua atuação num possível governo Bolsonaro é mais um caso da absurda irresponsabilidade do presidenciável que se esconde dos debates e das propostas econômicas alegando conveniente desconhecimento sobre o assunto e dá carta branca a alguém diretamente beneficiado pelas perdas que imporia ao povo brasileiro.

Nome cotado por Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Fazendo em caso de vitória, Paulo Guedes está sendo investigado pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal por supostas irregularidades na gestão de dinheiro de fundos de pensão de estatais. É a segunda apuração aberta contra ele no âmbito da Operação Greenfield.

Uma das investigações contra Guedes é justamente por gerenciar recursos de fundos de pensão de empresas públicas a partir do fundo do qual é sócio, o BR Educacional FIP. Ou seja: são suspeitos os lucros milionários depositados na conta de um dos principais defensores de uma reforma que acabaria com a Previdência Pública.

O que está por trás dessa suspeita é muito mais grave porque explica as verdadeiras intenções das principais propostas que a candidatura do PSL tem para o Brasil. E elas não estão do lado dos trabalhadores e trabalhadoras.

Os fundos, é importante saber, são as figuras mais importantes no mercado financeiro do mundo hoje, maiores até que os bancos – o que pode ser visto, por exemplo, nos reputados relatórios do grupo McKinsey. É comum que seus representantes estejam envolvidos em lobbies e financiamento de campanhas e, com a carta branca de políticos sem índole, controlem, às custas de quem trabalha, as políticas e os investimentos públicos sem ninguém para “atrapalhar”. É uma dinâmica que você já viu, por exemplo, quando Bolsonaro diz não saber e Paulo Guedes dá as fórmulas. E isso é gravíssimo.

Para entender: os representantes dos fundos operam na relação entre os fundos de pensão e os fundos de investimentos em participações. Os primeiros captam e administram recursos de pessoas que gostariam de se aposentar ou de poupar para o futuro. Já os últimos fazem o mesmo para transformar empresas de capital fechado (que não são negociadas na Bolsa) em empresas de capital aberto. Nessa transação, os fundos têm ganho financeiro que vêm da diferença entre o valor real das empresas e o valor captado pelo lançamento das ações na Bolsa. O lucro, muitas vezes, é da casa dos bilhões. É comum que corrupção e fraudes sejam os modos de obtê-lo, algo que está na composição de boa parte das crises das últimas décadas.

No caso do guru de Bolsonaro, o MPF investiga investimentos feitos entre os anos de 2009 e 2014 por fundos de pensão como Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), Funcef (Caixa), Postalis (Correios) e BNDESPar, braço de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), na BR Educacional, que foi fundado por Guedes e é administrada pela Bozano investimentos (da qual ele é presidente). Duas possíveis irregularidades teriam sido cometidas: crimes de gestão fraudulenta ou temerária de instituições financeiras equiparadas e emissão e negociação de títulos mobiliários sem lastros ou garantias.

Isso significa que, por conta das altas taxas impostas, o fundo de Guedes ganhou assombrosos R$ 152 milhões.

Em outras palavras, as poupanças de trabalhadores que desejam se aposentar com segurança foram utilizadas por especuladores para projetos educacionais que podem ter sido aprovados sem análise adequada e gerado ganhos excessivos. Políticas econômicas desse tipo abrem caminho para ações como a do outro autointitulado “caçador de marajás” que já esteve no poder e confiscou a poupança de milhões de brasileiros.

É preocupante pensar, então, nos lucros que as propriedades de Guedes teriam com as perdas da população se ele fosse ministro da Fazenda: bebendo das dívidas dos estudantes, do esforço de trabalhadoras e trabalhadores e da aposentadoria daqueles que merecem descanso.

Até porque, entre os interesses de Paulo Guedes, estão os de seus fundos, envolvidos com o grupo Somos Educacional e o Anima Educação, ambos metidos no ensino a distância – essa mesma modalidade que Bolsonaro propõe para acabar com o ensino básico.

E mais: é de interesse de Paulo Guedes aprofundar o desmonte da Previdência Pública iniciada no projeto de reforma de Temer. Ora, se tiverem de contratar planos privados para poder se aposentar, trabalhadores e trabalhadoras podem ficar a ver navios em caso de fraudes como a que se investiga ou se os riscos assumidos pelos empresários levassem tais fundos à falência e provocassem um colapso financeiro, como visto nas últimas crises.

As notícias das investigações do MPF são alarmantes por tratar-se de alguém que, com a anuência de um presidenciável que insiste em alegar desconhecimento econômico, poderia vir a ser o responsável pelas políticas econômicas e sociais, como as de Previdência e Educação. O conflito de interesses é gritante! Por isso a apuração é essencial, a ser levada com o máximo de seriedade e celeridade, em nome dos interesses do povo brasileiro.

O Brasil não pode ser refém de um governo em que os ganhos sejam privatizados (pelo patrão) e as perdas, distribuídas (para o povo). O combate à corrupção é compromisso sério, e não panfleto de campanha a ser jogado na sarjeta passado o segundo turno.