26 de outubro de 2018

A ação automatizada de grupos de WhatsApp ligados à campanha de Jair Bolsonaro foi apontada por pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS), centro de pesquisa independente que reúne professores de diversas universidades brasileiras e do laboratório de mídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA.

O estudo monitorou 110 grupos políticos abertos do aplicativo na última semana e verificou que eles apresentam alto grau de interconexão e número elevado de administradores e membros comuns, muitos com atividade dezenas de vezes acima da média dos demais usuários.

O jornal Folha de S.Paulo desta sexta-feira (26/10) publica reportagem sobre o estudo e explica que os achados são peças de um quebra-cabeças que aponta para empresas que compram pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp, conforme já foi denunciado na última semana.

Os contratos para o disparo de mensagens chegariam a R$ 12 milhões, atingindo dezenas de milhares de brasileiros com conteúdo político contrário ao candidato Fernando Haddad (PT).

Prática ilegal
Isso é uma prática ilegal por se tratar de doação não declarada para a campanha do candidato Jair Bolsonaro, configurando crime eleitoral.

No estudo do ITS, uma amostra de grupos abertos de WhatsApp disponíveis em repositórios na internet foi usada para o monitoramento.

A reportagem da Folha de S.Paulo ouviu Caio Machado, um dos autores do estudo, mestrando em Ciências Sociais da Internet pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, que explicou que “os repositórios estão dominados pelos grupos de apoiadores de Bolsonaro. Existem alguns poucos grupos a favor de outros candidatos, mas muitas vezes os links de acesso foram revogados”.

“Ao buscarmos o que está na web, reproduzimos na nossa amostragem a provável proporção de grupos presentes ali”, diz, para justificar a quase onipresença de grupos pró-Bolsonaro na pesquisa.

Uso de robôs
Ainda segundo o pesquisador, o principal achado foi a potencial automação de envio de mensagens. Enquanto alguns usuários fizeram 360 postagens no período estudado, a média dos demais era de dez mensagens. O intervalo entre envios de mensagens de uma mesma série eram mínimos: entre 1 e 20 segundos. Segundo o relatório, boa parte desses perfis não trazia nome próprio nem foto pessoal.

“São indícios muito fortes de automação. Pode ser o que chamamos de bots, ou robôs, que disparam mensagens, ou pode ser um usuário que utiliza algum nível de automação para difundir conteúdo, o que chamamos de ciborgue”, afirma Caio.

Disseminação de fake news
A reportagem aponta ainda que há evidências de algo arquitetado, criando uma malha e uma estrutura de coordenação entre os grupos de modo a orquestrar a disseminação de informações através dos grupos de forma rápida e com o uso de alguma automação, sejam bots, sejam ciborgues.

Esta é a primeira campanha eleitoral após resolução do TSE que autorizou o uso de impulsionamento digital, mas vetou o uso de bots.

Nesta semana, comentários pró-Bolsonaro em posts feitos no Twitter pela Folha que continham palavras como “bolso” e “bolovo levantaram suspeitas do uso de robôs pela campanha de Jair Bolsonaro.

Em um dos posts, que tratava da competição entre joalherias e galerias de arte pelo bolo dos super-ricos, usuária sob suspeita de automação comentou: “Cadê as provas, Folha? Não tem, né? Pq não existem. Vcs estão com medo de perder os milhões que o governo PT banca vcs, né?”.

(com informações da Folha de S.Paulo)