17 de novembro de 2018

O presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou, na tarde desta quarta-feira (14), a indicação do diplomata Ernesto Fraga Araújo para o cargo de ministro das Relações Exteriores de seu governo. A indicação vem sendo questionada devido à inexperiência e opiniões polêmicas e conservadoras do chanceler.

Entre os posicionamentos controversos do diplomata, estão uma grande admiração ao antiglobalismo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o rechaço a valores considerados por ele “decadentes”, como “democracia”, “cooperação”, “tolerância” e o “politicamente correto” –opiniões emitidas por Araújo no artigo “Trump e o Ocidente”, publicado numa revista especializada em 2017.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, que atuou durante dois períodos da redemocratização brasileira, por oito anos no governo do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e durante dois anos do governo de Itamar Franco, caso as posições de Araújo e de Bolsonaro sejam colocadas em prática, representariam a “volta à Idade Média”.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Amorim afirma que nomeação é surpreendente e o deixa “muito triste”. “Sei que há muita divergência de opinião no Itamaraty, alguns pensam mais o livre mercado e outros mais como eu penso, mas tudo no domínio da racionalidade, em que o debate é possível. Neste caso o debate se torna impossível, é como ver um filme surrealista com conotações de pesadelo”, afirmou.

A opinião do ex-ministro não é alarmista. Entre os valores já defendidos por Ernesto Fraga Araújo está a defesa da manutenção do ocidentalismo, processo pelo qual as sociedades não-ocidentais seguem a influência da cultura ocidental, e é contrário à globalização. As opiniões foram divulgadas em artigos escritos e publicados tanto nos Cadernos de Política Exterior do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) quanto em um blog pessoal, criado em setembro deste ano pelo diplomata, chamado“Metapolítica 17 – Contra o Globalismo”.

Nos textos, Araújo chega a afirmar que é contra um suposto “marxismo cultural” que acomete as relações exteriores, que o nazismo foi uma experiência socialista e que o climatismo, a preocupação com as mudanças climáticas, é uma “tática globalista de instilar medo para obter mais poder”.

Segundo Amorim, um posicionamento anti-globalização e subserviente ao governo dos EUA seria prejudicial para as relações brasileiras com a grande maioria dos países do mundo. “Acho que o problema disso tudo não é só o que vai acontecer agora, mas que a credibilidade do Brasil ficará afetada por muito tempo, por décadas. Será muito negativo para a integração latino-americana, que envolve o reconhecimento de outras culturas, será potencialmente muito negativo com as nossas relações com a África, porque a maneira que ele fala tem a ver apenas com o passado europeu”, afirmou.

A nomeação de Araújo foi anunciada por Bolsonaro por meio de sua conta no Twitter. “A política externa brasileira deve ser parte do momento de regeneração que o Brasil vive hoje”, escreveu, classificando o diplomata como “um brilhante intelectual”. Ernesto Araújo tem 51 anos, nasceu em Porto Alegre e é formado em Letras. Mais recentemente, o diplomata serviu na Alemanha, no Canadá e nos Estados Unidos, atuou como subchefe de gabinete do então chanceler Mauro Vieira, de 2015 a 2016.

Confira a entrevista completa no site do Brasil de Fato.