26 de dezembro de 2018

“Minha querida Marina,

Foi com profunda tristeza que recebi a notícia da morte de meu grande amigo e seu companheiro de vida Luiz Carlos Sigmaringa Seixas. Nosso Sig teve a delicadeza de nos deixar no dia do Natal, uma data em que a sensibilidade das pessoas está voltada para o amor e para o bem, que foram a marca de sua passagem pela Terra.

É nessas qualidades do Sig que eu e seus incontáveis amigos e amigas estamos pensando neste momento de dor. Quantos defensores da Justiça e da Democracia conhecemos pessoalmente e ao longo da história de nosso país… Mas quantos se dedicaram à causa com abnegação, desprendimento e coragem como ele?

Não consigo me recordar agora de alguém que tenha vivido por estas causas sem perder a ternura, sem abrir mão da alegria de viver, sem faltar com a generosidade e o carinho que o Sig sempre dedicou aos amigos e à humanidade em que sempre acreditou. E foi por este amor à vida e à humanidade que ele lutou até as últimas forças.

Não conheço quem tenha ouvido dele uma palavra de rancor contra os muitos que o atacaram pela coerência que herdou do pai, o Velho Sigmão, e transmitiu aos filhos queridos Guilherme e Luíza. Também desconheço algum momento em que tenha titubeado diante dos riscos e ameaças por advogar em defesa de presos políticos e militantes sindicais durante a ditadura.

Poucos hoje são capazes de avaliar os riscos que ele correu, junto com um punhado de colegas, para levantar os documentos oficiais da Justiça Militar que comprovaram a prática de torturas no Brasil. Foram cinco anos de trabalho quase clandestino que resultaram no livro “Tortura: Nunca Mais”, com provas irrefutáveis contra 444 torturadores. Este livro mudou a historiografia do Brasil.

Eleito deputado constituinte, esteve no PMDB, no PSDB e no PT, sempre coerente com seus compromissos de vida e deixando amigos por onde passou. Como agente político e homem do direito, transitou entre os grandes e foi por eles respeitado e admirado. A cordialidade e o respeito à divergência foram os traços que o marcaram em ambientes onde a vaidade e a arrogância costumam vicejar.

Tive a honra de tê-lo como advogado, mas tive, principalmente, o privilégio de ter o Sig como amigo leal e generoso, convivendo familiarmente com você, Marina, e com nossa querida Marisa. Estes momentos são as melhores lembranças que levarei dele.

O que guardo dele é o exemplo singular da decência, ética, dignidade, independência e honestidade intelectual.

Prova disso é que o convidei duas vezes para a nossa Suprema Corte e ele recusou, com o argumento de que não se sentia preparado para a função, praticando um desprendimento raro, mas não surpreendente vindo dele.

Agora ele entra definitivamente no coração dos que o amavam e o admiravam, onde viverá eternamente.

Receba todo o meu carinho nesse momento de dor e transmita este sentimento, por favor, à família e aos muitos amigos e admiradores do Sig.

A vida segue, companheiro Sigmaringa, com a certeza de que o seu sonho de um Brasil de paz, fraternidade e justiça social ainda se transformará em realidade, por obra do nosso povo maravilhoso e de pessoas especiais como você.

Saudades para sempre e um abraço carinhoso do amigo

Luiz Inácio Lula da Silva”

Curitiba, 26 de dezembro de 2018