30 de julho de 2021
Em 2006, Lula, o ministro da Cultura Gilberto Gil e o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim visitavam as obras de revitalização da Cinemateca. Foto de Ricardo Stuckert

Durante os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT, a cultura e o cinema brasileiros receberam investimentos contínuos. A Cinemateca foi ampliada e revitalizada (com investimentos de mais de R$ 15 milhões) e a produção de filmes atingiu níveis recorde. Entre 2003 e 2010, foram produzidos e lançados mais de 500 filmes – a partir de 2006, foram lançados ao menos 70 por filmes por ano. Atualmente, porém, o cenário é de total destruição, e a cultura brasileira amanhece mais uma vez de luto, desta vez pela perda de parte preciosa do arquivo da Cinemateca, que preserva a história do audiovisual latino-americano.

A cultura brasileira arde: na noite desta quinta (29), um incêndio atingiu galpão da cinemateca em São Paulo. O fogo queimou quase 100 anos de produção artística e histórica do Brasil. É mais um capítulo da destruição da memória, da cultura e da ciência pelo governo de Jair Bolsonaro. O risco de incêndio já havia sido reiteradamente exposto pelo Ministério Público, por ex-funcionários e por profissionais do cinema no Brasil e no exterior. A destruição da cinemateca é proposital e se iniciou no começo do mandato de Bolsonaro.

Incêndio na Cinemateca é previsível e evitável

O fogo começou na ala de acervo histórico de filmes realizados entre 1920 e 1940 e de arquivos impressos. O galpão guardava cerca de 1 milhão de documentos da antiga Embrafilme, alguns com mais de 100 anos, incluindo roteiros, artigos em papel, cópias de filmes e documentos antigos. Parte do material seria usado na montagem de um museu sobre cinema brasileiro.

No Festival de Cannes, 20 dias antes de o fogo atingir as cerca de 4 toneladas de documentos e acervo do galpão de Vila Leopoldina, o cineasta Kleber Mendonça Filho havia denunciado para a comunidade cinematográfica internacional o risco de incêndio. Desde julho de 2020, o Ministério Público Federal alertava para o risco de incêndio no acervo, em ação que movia contra a União por abandono da Cinemateca. Apenas 9 dias antes da tragédia, o MPF avisou novamente ao governo federal do perigo iminente de incêndio do acervo em audiência em 20 de julho. Nada foi feito.

Desde o final de 2019, quando terminou o contrato entre o governo federal e a Organização Social (OS) Associação Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), a Cinemateca está sem gestão. Como não houve nova licitação, funcionários da Acerp continuaram cuidando do acervo até julho de 2020, mesmo sem remuneração, quando a Secretaria de Cultura de Mário Frias pediu as chaves dos prédios. O abandono continuou e se aprofundou desde então.

O incêndio da cinemateca brasileira é um crime anunciado. O fogo no Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, que queimou um dos maiores acervos históricos do mundo, inaugurou uma era de destruição sem precedentes. Destruir a memória, a ciência, a cultura e promover um apagão geral de informação é uma das estratégias de Bolsonaro – combinada à fábrica constante de mentiras. A plataforma Lattes segue fora do ar, não houve realização do Censo pelo IBGE, a lei Rouanet, criminalizada amplamente pelos apoiadores do governo, está paralisada. A tentativa de substituir a cultura brasileira por fake news segue a todo vapor, mas não será bem sucedida. O povo tem memória.