28 de julho de 2016

Artigo do professor e engenheiro Roberto Moraes aponta as consequências da crise no setor: metade dos trabalhadores demitidos.

Segundo o Sinaval (Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparo Naval e Offshore) um total de 2,5 mil postos de trabalho foram perdidos nos primeiros cinco meses de ano. Há ameça de mais demissões.

Antes da crise em 2013, o setor de indústria naval chegou a empregar 82 mil trabalhadores e agora eles são 48,5 mil empregos, de acordo com o Sinaval.

Além do ERJ, onde a indústria naval sempre foi forte com estaleiros no Rio, Niterói e Angra dos Reis, o avanço das encomendas, na fase de expansão da economia e do setor de petróleo – que mais demandava embarcações – avançou para outros estados.

Assim, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina também montaram bases para a construção e montagem de embarcações. Outras bases nos estados do Espírito Santo, Bahia e Alagoas estavam sendo instaladas, quando foram atingidas pelo colapso do setor naval como desdobramento da crise no setor de petróleo e na Petrobras.

O município de Niterói talvez tenha sido um dos mais atingidos, por conta da quantidade de estaleiros ali instalados. Em 2014, os estaleiros do município empregavam cerca de 14,5 mil trabalhadores. Em 2015, 10 mil destes postos de trabalho já haviam sido perdidos. No início deste ano, cerca de mais 2 mil empregos foram suprimidos.

Hoje Niterói ainda possui 10 estaleiros com pouca gente e encomenda. O estaleiro norueguês Vard fechou junto com o semestre. A área arrendada voltada para a Baía de Guanabara já foi devolvida. Agora a empresa só mantém trabalho com a encomenda de outras embarcações, em sua unidade junto ao Porto de Suape, em Pernambuco.

Outro estaleiro de Niterói, o Aliança, prevê a suspensão de suas atividades para setembro. Neste período de expansão até uma área junto ao terminal 2, do Porto do Açu, foi usado pelo Consórcio Integra (Mendes Jr. e OSX) para fazer montagens de módulos para plataformas e chegou a ter quase mil trabalhadores.

O setor naval, junto com o sistema portuário foram arrastados pela indústria do petróleo em sua fase de expansão. Juntos eles passaram a constituir o que chamei, num artigo científico (aqui), de uma tríade: petróleo – porto – indústria naval.

A crise do ciclo petro-econômico acabou por reduzir movimentos nos outros dois setores. Isto se manterá até que outra fase de expansão em novo ciclo ocorra. Enquanto isto, a indústria naval e o setor portuário buscam respirar e se manter à espera da passagem desta fase de colapso.

Em meio aos problemas econômicos, o setor também foi fortemente atingido pela participação nos esquemas ilegais de licitação, superfaturamento e desvios identificados pela Operação Lava Jato.

Fato é que em meio a estes processos, os empregados perdem postos de trabalho. É gente especializada em soldagem e montagem, duas das atividades mais demandadas no trabalho de construção e montagem naval. Trabalhadores antes disputados, hoje são dispensados.

Várias encomendas de embarcações, plataformas e navios especiais foram transferidas para o exterior. O governo interino acena para acabar ou restringir as exigência através da Política de Conteúdo Local (PCL). Assim, o setor terá dificuldades para concorrer com os estaleiros do exterior.

Não há dúvida que o iniciar de uma nova fase de expansão do ciclo petro-econômico irá gerar novas demandas de embarcações para a indústria naval. Porém, é difícil prever que aquela fase de auge que fez os empregos no setor saltarem de 2 mil em 2013, para 82 mil postos de trabalho em 2014, possa voltar a se tornar realidade, diante do desprezo com a política industrial nacional.

A quantidade de embarcações que novas explorações de petróleo no litoral vai demandar tenderá a gerar empregos no exterior e não mais no Brasil. A conferir!