23 de abril de 2013

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou o conceito que define o que é solução de conflitos. No lugar de resolvê-lo militarmente, ele escolheu enfrentar as raízes sociais e econômicas, que estão por trás de todos os conflitos. A avaliação é de Javier Ciurlizza, diretor do programa do International Crisis Group para a América Latina. Para Javier, liderar um país envolve encarar riscos, o que Lula fez com coragem. “Por isso as coisas mudaram”, sentencia.

Minutos antes, no discurso em que agradeceu o recebimento do prêmio “Em busca da paz”, conferido pelo International Crisis Group, Lula propôs que o combate à fome e à miséria fosse adotado em escala global como “o passo mais importante que podemos dar” no caminho da paz (leia o discurso completo abaixo).

Numa entrevista após o jantar em que Lula recebeu o prêmio, o peruano Javier Ciurlizza destacou ainda que Lula teve o mérito de ser o melhor exemplo na indução do desenvolvimento com democracia, uma combinação que, há alguns anos, “não acreditávamos” que seria possível.

Javier, que no Peru já foi diretor executivo da Comissão da Verdade e Reconciliação, chefe de gabinete do Ministério da Justiça, e conselheiro especial do Ministério das Relações Exteriores, ressaltou ainda a coragem que Lula teve por assumir os riscos e a responsabilidade por suas decisões. “Liderar um país implica em assumir também riscos pessoais, o que o presidente Lula assumiu. E por isso as coisas mudaram”. E concluiu sem rodeios: “quem não assume riscos, não muda nada”.

Leia abaixo a transcrição da entrevista:
Javier, por que Lula foi escolhido para este prêmio?

Crisis Group é uma organização dedicada à prevenção e solução dos conflitos e achamos que o presidente Lula, durante seu mandato e depois dele, transformou o conceito do que é resolver um conflito. No lugar de resolvê-lo militarmente, é enfrentar as raízes sociais e econômicas, que estão por trás de todos os conflitos. A aposta do presidente Lula, que foi pelo desenvolvimento e pela luta pela pobreza como os dois objetivos principais de sua luta e de sua visão de mundo coincide com o que nós entendemos que deve ser uma prevenção e resolução dos conflitos que afetam milhões de pessoas.

Qual a marca dos líderes em prevenção de conflitos?
Nós acreditamos que a prevenção dos conflitos depende do caráter dos líderes e da coragem que tenham para assumir descisões. Hoje [durante o jantar, dia 22] o presidente Lula disse algo muito certo. Os bons líderes são aqueles que tomam decisões pensando não na eleição de amanhã, mas sim na próxima geração. E essa é uma mensagem muito importante. Na nossa América Latina, onde ainda governamos muito de olho nas eleições, essa é uma mensagem muito muito importante. Trata-se, portanto, de adotar políticas de estado, e não políticas pessoais, trata-se de transcender os interesses pessoais e partidários. E assumir que liderar um país implica em assumir também riscos pessoais, que o presidente Lula assumiu. E por isso as coisas mudaram. Quem não assume riscos, não muda nada.

Vocês citam também que a diplomacia brasileira transformou o país num ator crucial global. Qual a importância que o mundo tenha mais desses atores?
Sem dúvida, um mundo multipolar e um mundo diverso é muito melhor que um mundo bipolar e o que um mundo unipolar. Porque a única coisa que a bipolaridade ou a unipolaridade asseguram é uma atitude imperial em relação aos demais, que foi o que vivemos no mundo durante muitos anos. O mundo está cheio de problemas e há muitos países que ainda não são de todo democráticos, mas sem dúvida, o surgimento de novos poderes, como Índia, como China, mas principalmente como o Brasil asseguram que a combinação entre democracia e desenvolvimento tenha mais exemplos para os outros países do mundo. E então, para os países da África, da América Central, os países pobres da Ásia, países como o Brasil são um exemplo de que é possível mudar as condições dos mais pobres, e fazê-lo com democracia, e fortalecendo as instituições. Essa combinação, em que até alguns anos não acreditávamos, porque era “ou” desenvolvimento “ou” democracia, creio que encontra no Brasil, e no caso do presidente Lula, seu melhor exemplo.

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