02 de março de 2022
Foto: Ricardo Stuckert

O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, participou nesta quarta-feira (2), da Segunda Assembleia de Legisladores do Morena (Movimiento de la Renegeración Nacional), o partido do presidente do México, Andrés Manoel López Obrador. Em seu discurso, Lula lembrou conquistas históricas de seu governo, falou dos investimentos em tecnologia na Petrobras e criticou a queda na produção e aumento das importações de combustíveis.

“No Brasil estão destruindo tudo o que nós construímos”, afirmou, destacando que uma das razões para o golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff da presidência do Brasil foi a descoberta do Pré-sal, da maior jazida de petróleo do século 21, em 2007, a sete mil metros de profundidade no oceano. Para Lula, os atuais problemas do Brasil estão ligados a uma tentativa de apagar o legado de seus mandatos e fazer com que o país volte a ser dependente de outras nações, especialmente no setor petrolífero.

 “Diziam que nós não teríamos condições de explorar porque estava muito profundo, abaixo da camada de sal. E hoje colocamos o barril de petróleo na terra pelo mesmo preço que a Arábia Saudita porque fizemos investimento em tecnologia e o Brasil, que deveria ser exportador de derivado de petróleo, está importando petróleo dos Estados Unidos, dolarizado, quando o Brasil é autossuficiente. As nossas refinarias estão com a produção 30% menor porque o Brasil não quer produzir mais para poder comprar a gasolina importada. Por isso fiquei feliz quando o López Obrador falou que quer fazer a refinaria porque quer refinar o petróleo do México dentro do México. Estávamos fazendo 5 refinarias, completamos uma e as outras pararam”, criticou. 

O ex-presidente lembrou que, além da descoberta do pré-sal e dos investimentos em tecnologia, seu governo fez a maior política de inclusão social da história do Brasil. “O que nós fizemos no Brasil em apenas 13 anos possivelmente não teríamos feito em uma revolução. Sem um único tiro, da forma mais democrática possível, fizemos a maior política de inclusão social que se tem notícia na história do país. Foram 30 milhões de pessoas que deixaram a pobreza absoluta. Foram 22 milhões de empregos criados, 74% de aumento do salário mínimo acima da inflação, a maior política de inclusão universitária do Brasil”, disse o ex-presidente.

Ele relembrou que o Bolsa Família não servia apenas para “dar dinheiro para as pessoas. A primeira qualidade era que o dinheiro ia para a mulher. A segunda coisa é que tinha os condicionantes. Para que a mulher recebesse o dinheiro, os filhos tinham que estar na escola. Se ela estivesse grávida, ela tinha que passar pelo médico em todos os meses necessários e as crianças tinham que tomar as vacinas em dia. O programa atendia 14 milhões de famílias, quase 54 milhões de pessoas”.

As trajetórias do PT e do Morena

“Nós perdemos três eleições, mas não desistimos. Nós queríamos provar que a classe trabalhadora tinha mais competência para governar o Brasil do que a elite empresarial que governou durante séculos. Foi por isso que eu disse de maneira bem simples que, se no fim do meu governo cada homem, mulher e criança fosse dormir depois de tomar café, almoçar e jantar, eu teria cumprido a função da minha vida. Comer é uma coisa sagrada e nós temos hoje no mundo 900 milhões de seres humanos que vão dormir todos os dias sem ter o que comer”, afirmou.

O ex-presidente relembrou os governos progressistas que foram eleitos na maioria dos países da América do Sul na primeira década do século 21 e a parceria que pôde ser estabelecida com figuras como Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, presidentes do Chile, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Tabaré Vasquez e Pepe Mujica no Uruguai e Fernando Lugo no Paraguai. 

“Foi o mais importante momento histórico de governantes progressistas na América do Sul. Foi a década mais importante de ascensão social do povo pobre da América do Sul, em todos os países houve uma evolução extraordinária. Foi por isso que todos os países sofreram golpe, com exceção do Chile onde a Michele Bachelet perdeu numa eleição democrática. Por que houve esses golpes? Porque a gente não queria mais o domínio hegemônico do Norte sobre o Sul, queria relações mais justas. Quase conseguimos”, recordou.

Para renovar essas alianças, os líderes do Morena e do PT anunciaram no evento a assinatura de um convênio de cooperação entre os dois partidos.

“É um dia muito especial para mim. Primeiro, tive o prazer de conversar com um presidente da República que tem como sentimento principal cuidar de seu povo mais pobre, cuidar dos que mais necessitam e defender com unhas e dentes a soberania e a dignidade do povo mexicano. Foi uma honra muito grande tomar o café da manhã com o presidente López Obrador e conversar com ele sobre os problemas e o futuro do México”, disse Lula em seu discurso.

Para o ex-presidente, a trajetória do Morena, criado em 2011 e vencedor das eleições nacionais apenas oito anos depois, é algo “impressionante”, e “um fenômeno que precisa ser debatido nas universidades”.

“Posso dizer a vocês que hoje eu vim ao México para aprender com vocês como é possível, com muita disposição de luta, com muita tenacidade, como é possível mudar a história de um país. O que vocês estão fazendo em tão pouco tempo é de uma grandeza tão extraordinária que é possível que ainda leve um tempo para entenderem o que está acontecendo no México, uma revolução pacífica”, declarou.

“Saio daqui com a certeza de que finalmente o México se reencontrou com a tradição revolucionária do seu povo e será um país extremamente importante e decisivo para as mudanças que o mundo precisa que aconteçam no futuro. Tenho o privilégio de participar deste encontro de um movimento político que em apenas oito anos se organizou e ganhou uma eleição para presidente da República”, afirmou Lula.

A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffman, afirmou que uma aliança progressista pode ser novamente alcançada na América Latina. “Temos a oportunidade, temos o México, Argentina, Bolívia, Chile, Honduras, é a chance de construir uma rede de governos progressistas, democráticos, populares”, ressaltou.