16 de novembro de 2011

As oportunidades de cooperação econômica entre o Brasil e a África foram discutidas nesta quarta-feira (16) em um encontro promovido em São Paulo pelo Instituto Lula em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O foco da reunião foi como os investimentos e setores fortes da economia brasileira – como engenharia, energia e agronegócio – podem ter oportunidades integradas ao desenvolvimento do continente africano.

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Crescimento
A um público formado por empresários que atuam ou têm interesse em investir no continente, o vice-presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Bobby Pittman, destacou que os países africanos têm mantido um ritmo forte de crescimento na última década, e que os governos têm se tornado mais democráticos e institucionalizados.

Ele afirmou que a crise econômica mundial pode ajudar a África em médio prazo, já que houve queda da confiança em países considerados seguros pelos investidores, favorecendo os locais onde a taxa de risco permaneceu constante. “Relativamente, as oportunidades de investimento na África mudaram de escala”, disse.

Pittman relatou que o crescimento trouxe aumento de renda para os africanos, e estimulou o surgimento de uma classe média onde ela não existia. “Há muitas oportunidades nessa classe média”, afirmou. “Há um boom no setor de infraestrutura, e ele está só no começo”.

O vice-presidente do BAD citou casos em que negócios usam energia de termelétricas cujo combustível é transportado de avião, gerando custo de mais de um dólar por quilowatt hora. Isso, segundo ele, mostra como há espaço para investimento em energia limpa.

Responsabilidade
Para Jay Naidoo, presidente da Gain (Global Alliance for Improved Nutrition ou Aliança Global para a Melhoria da Alimentação) e ex-ministro do governo Mandela, é importante que as empresas que estejam interessadas em investir na África façam isso de forma que beneficie a população local. “Não vemos impedimento em as pessoas irem para lá para usar nossa terra, mas como isso vai ajudar a resolver nossos problemas?”, questionou.

Naidoo ressaltou que o continente tem grandes reservas de metais preciosos, mas a população não se beneficia disso. Ele também afirmou que há muita evasão fiscal no continente, mas que empresas que não adotarem métodos transparentes de trabalho “podem se dar mal”.

Ele lembrou que, ainda que a maior parte dos países africanos seja pobre, há disposição para o consumo de produtos de alta tecnologia. A prova disso seria a disseminação da telefonia celular pelo continente, rapidamente assimilada pela população.

Oportunidades
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, afirmou que a instituição tem disponibilidade em financiar projetos que tenham a África como destino, e há interesse em trabalhar em cooperação com o BAD.

Segundo Coutinho, uma das maiores oportunidades está na área agrícola, em especial na área dos biocombustíveis. “Grande parte da África tem solo e clima muito semelhantes aos do Brasil”, afirmou.

Com o surgimento de uma pequena base industrial, ressaltou o presidente do BNDES, também é grande a demanda por energia elétrica – hídrica e eólica – assim como por obras de infraestrutura como estradas, portos, saneamento básico e habitação. “Isso representa uma grande oportunidade para as nossas empresas de engenharia e construção”, afirmou, acrescentando que também há espaço para investimentos brasileiros nas áreas de comércio, turismo e no setor bancário.

Além de empresários, estiveram no encontro embaixadores de diversos países africanos e autoridades como o governador do Acre, Tião Viana e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence. Também compareceram presidentes de estatais que têm ligação com a África, como Sergio Gabrielli, da Petrobras, Pedro Arraes Pereira, da Embrapa, e Mauricio Tolmasquim, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O ex-presidente Lula não foi à reunião, que ocorreu na sede da Fiesp, porque faz tratamento contra um câncer na laringe.

Desafios
Diversos empresários presentes na reunião apontaram a falta de infraestrutura logística e de transportes entre Brasil e África e dentro do próprio continente como uma das maiores barreiras para a cooperação econômica.

“São dezenas de países fracionados em termos de logística, de portos. Estamos estudando como criar um ‘hub’ afro-brasileiro para facilitar o acesso do Brasil para a África e de lá para cá. Se não resolvermos esse problema, vamos ter um obstáculo a mais na competição dos investimentos na África”, afirmou o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca.

“Irmão mais velho”
Para o ex-ministro Franklin Martins, que é um dos fundadores do Instituto Lula, um outro desafio das empresas brasileiras será atuar de forma integrada aos interesses das populações locais. “A África vive um momento de pacificação, de afirmação da democracia. O Brasil entra nessa situação em uma posição muito positiva. Somos vistos como um irmão mais velho que deu certo. Esse é o clima de uma parceria que precisa ser cuidadosamente preservada pelas empresas brasileiras que vão atuar lá.”

Martins enfatizou que a cooperação com a África também implica em trocas culturais, e esse papel deve ser exercido pela imprensa e pelas universidades. “Nós conhecemos muito pouco a África e eles nos conhecem muito pouco. O que os brasileiros conhecem sobre a Nigéria? Conhecemos mais sore o Japão. A batalha da informação e do conhecimento nós estamos perdendo. Reverter isso é fundamental”, disse.