24 de outubro de 2018

As estratégias da campanha de Jair Bolsonaro pelo aplicativo WhatsApp utilizam chips do exterior, recebimento secreto de listas de números de telefone, disparadores pagos e produção profissional maciça de mensagens falsas (fake news).

Reportagem da revista Época desvendou como funciona essa máquina de WhatsApp utilizada por Bolsonaro, ouvindo pessoas que trabalharam para a campanha da família do candidato e relataram a criação maciça de grupos no WhatsApp e a utilização de listas com números de celular fornecidas diretamente por funcionários do clã Bolsonaro para a multiplicação de células no aplicativo.

O uso ilegal das redes sociais na campanha de Bolsonaro também já ficou conhecida por outra vertente, quando o Facebook removeu 68 páginas e 43 perfis de apoio a Bolsonaro, geridos pela empresa Raposo Fernandes Associados (RFA), e que disseminavam mentiras e notícias falsas sobre Fernando Haddad.  O PRTB, partido do vice de Bolsonaro, General Mourão, repassou R$ 25 mil para páginas mantidas pela RFA. O coordenador da campanha de  Bolsonaro, o deputado Delegado Fernando Francischini (PSL) também pagou R$ 24 mil para a empresa com dinheiro de sua cota parlamentar.

O WhatsApp de Bolsonaro
Um dos entrevistados pela revista Época, que preferiu não se identificar, trabalhou para a família Bolsonaro durante quase dois anos, contratado de uma agência que fazia uso de notícias falsas desde o ano passado.

Segundo ele, para formar os grupos de WhatsApp, diversas listas com números telefônicos foram retiradas pessoalmente de escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo —  para driblar a legislação eleitoral, que só permite o uso de base de dados dos próprios candidatos. Em seguida, por telefone, cada uma das listas era associada ao perfil de um grupo específico: jovens, mulheres, pobres, evangélicos, entre outros. Os grupos eram criados e alimentados manualmente. Um a um, centenas de contatos migravam do papel para a rede, sem a autorização prévia dos usuários.

Os disparadores enviavam mensagens privadas, com referências nominais aos proprietários dos números. “Assim, criávamos um ambiente mais família, menos artificial”, disse o informante.

Maioria dos chips vinham dos EUA
O informante contou que a maioria dos chips usados vinha dos Estados Unidos, mas também havia alguns de Portugal e Argentina. A ideia era dificultar o rastreamento e bloqueio dessas linhas.

A gestão da rede de grupos de WhatsApp acontecia toda no Telegram, aplicativo de mensagens russo, pela sensação de garantir mais segurança. Os gestores seriam os membros da família de Bolsonaro, assessores diretos, representantes das agências contratadas e alguns militantes de confiança.

As células de apoio a Bolsonaro no WhatsApp se dividem em três modalidades:
. grupos de disparo maciço em que os usuários não podem interagir entre si – listas de transmissão. Neles, só existe um administrador, que envia as peças e orienta os passivos a replicar o conteúdo em suas redes;
. “grupos de ataque” – reúne os militantes mais disciplinados, que recebem orientações objetivas e respostas pré-fabricadas para o conteúdo-alvo. O administrador publica um determinado link que deve ser atacado em massa pelos demais – as reportagens contrárias aos Bolsonaros são os alvos preferenciais;
. grupos públicos, de maior organicidade e com mais de um moderador, nos quais é permitido aos integrantes interagir.

Criação de conteúdo
“A mensagem tinha de ser simples, para ficar na cabeça das pessoas”, disse o entrevistado por Época. As principais diretrizes para a criação do conteúdo eram humor e superficialidade.

“Após junho de 2013, a força das redes ficou evidente. Essa linguagem, percebeu-se, funcionava muito bem na Internet e tinha uma eficácia impressionante na política”, explicou o informante, que completou que do contratante vinha a ordem para insistir em temas caros ao capitão reformado, como segurança pública, ataques ao PT e à corrupção, além de explorar sua imagem “autêntica”.

Qualquer polêmica era bem-vinda, fosse ela inicialmente favorável a Bolsonaro ou não. Um exemplo foi a discussão com a deputada Maria do Rosário — que processou Bolsonaro depois de ele ter dito que ela não merecia ser estuprada por ser feia. “Eles pediram para explorar bastante o episódio, e criamos conteúdos em cima da discussão do politicamente incorreto, dizendo que não dá mais para fazer piada, que o Brasil está muito chato”, contou o informante.

A segmentação permitia endereçar mensagens a grupos específicos, nos quais a aceitação seria maior, como imagens apelativas à volta dos militares ao poder. Nos últimos meses da colaboração, foi solicitada maior ênfase na ação junto aos evangélicos.

Influência de diretor da campanha de Trump
Desde 2016, o grupo ligado ao candidato ventilava o desejo de contar com o apoio de Steve Bannon, diretor-executivo da campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e figura-chave no escândalo Cambridge Analytica.

No dia 11 de outubro, Bannon citou o Brasil como um dos possíveis integrantes do grupo chamado “O Movimento”, idealizado por ele. Dois meses antes, Eduardo Bolsonaro postara uma foto com o estrategista em sua conta pessoal no Twitter. Na legenda, afirmava que Bannon estava em contato com a campanha para unir forças, “especialmente contra o marxismo cultural”.