22 de novembro de 2018
Foto: Ricardo Stuckert

A articulação de uma frente ampla em defesa dos direitos sociais e civis, a resistência contra retrocessos no campo democrático e a reaproximação com setores pobres da população cujos votos migraram para a extrema-direita são alguns dos eixos que vão orientar a atuação do Partido dos Trabalhadores no cenário político que emergiu das urnas, em 2018.

Nesta quarta-feira, o ex-candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad, reuniu-se com as bancadas do partido na Câmara e no Senado para avaliar o momento político e debater as linhas de atuação no Parlamento.

Haddad ressaltou que apesar da vitória da extrema-direita em 2018, a centro-esquerda brasileira saiu do processo qualificada e credenciada para liderar a oposição. “E oposições são essenciais em todos os regimes democráticos”, lembrou ele.

O PT, aponta Haddad, deve se somar a esse campo, atuando no Legislativo ao lado das correntes de pensamento mais moderno representadas no Parlamento. “Pretendemos congregar uma ampla frente contra qualquer tipo de retrocesso no campo dos direitos”.

Essa articulação vai se dar “em duas trincheiras”, como define Fernando Haddad, “uma mais restrita, em torno dos direitos sociais, e outra mais ampla, que é a defesa dos direitos civis”.

Direitos sociais

“A pauta dos direitos sociais define um recorte de alianças partidárias, congrega um espectro menos amplo de forças políticas”, explica Haddad, lembrando que a centro-direita tende a se alinhar à agenda neoliberal e, portanto, não se engaja em pautas como a defesa da previdência pública ou do Sistema Único de Saúde, por exemplo.

Ele acredita, porém, que além de partidos como o PT, PSOL, PCdoB, PDT e PSB essa agenda conter com o apoio de parlamentares de centro sensíveis às causas sociais.

Direitos civis

Já a agenda dos direitos civis tende a congregar um leque mais amplo de forças políticas, que pode chegar até a centro-direita, às forças políticas que defendem conquistas da modernidade, como os direitos das mulheres, das populações LGBT e população negra, por exemplo.

Esse segmento mais amplo também tende a se encontrar na defesa de pautas como a preservação do meio ambiente.

No que toca os direitos civis, Haddad destaca a importância da defesa da escola pública laica, que está sob ameaça, e do magistério. “Essa é uma agenda que transcende o campo da centro-esquerda”.

Internacional Progressista

Haddad também ressaltou a importância da retomada de uma agenda internacional. Na semana que vem, ele inicia uma série de viagens com o objetivo de buscar parcerias e interlocução com forças progressistas.

No dia 1º de dezembro, por exemplo, Haddad estará em Nova York (Estados Unidos), no lançamento da Internacional Progressista, uma coalizão que está sendo articulada por lideranças como o senador Bernie Sanders — que concorreu à indicação para disputar a presidência dos EUA no último pleito — e o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis.

Na agenda do ex-candidato do PT à presidência também estão conversas com a centro-esquerda europeia, “também ameaçada pela onda conservadora”. Ele cita o Podemos da Espanha, a Geringonça, de Portugal e partidos progressistas da Itália, França e Alemanha, também preocupados com a ameaça de cortes de direitos sociais em seus países.

Na América Latina, prosseguem as conversas com forças historicamente próximas do PT e da centro-esquerda brasileira, como a Frente Ampla do Uruguai e os setores que se aglutinavam em torno da Concertación, no Chile.

Romper a falsa polarização

“Estamos com o radar ligado para mobilizar as forças progressistas de outros países, uma vez que essa onda conservadora tem um caráter internacional”, destacou o ex-candidato.

Haddad lembrou que a centro-esquerda e os setores democráticos em diversas partes do mundo estão enfrentando desafios parecidos. Diante do desgaste do neoliberalismo, apontado como o grande responsável pela crise econômica, criou-se uma falsa polarização entre essa vertente e o “nacionalismo tosco” representado pela extrema-direita.

Para Haddad, a centro-esquerda precisa reverter essa polarização, reafirmando projetos inclusivos e socialmente justos.

Ameaça à democracia

Um tema que deve estar presente nesses diálogos é a ameaça à democracia contida no mau uso das tecnologias e redes sócias, uma prática que não ficou restrita à última disputa eleitoral no Brasil.

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e o plebiscito que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit, foram fortemente impactados pela disseminação massiva das chamadas fake news.

“Essa é uma prática que ameaça solapar as bases da própria democracia”, alertou Haddad.

Processo contra WhatsApp

Haddad anunciou que na viagem que fará aos Estados Unidos na próxima semana ele vai consultar especialistas para avaliar a possibilidade de o PT ingressar com uma ação judicial contra o WhatsApp naquele país, que é a sede da empresa.

O objetivo é obrigar o WhatsApp a prestar contas de sua participação no processo eleitoral brasileiro, já que a empresa está se recusando, aqui no Brasil, a revelar quem pagou pela disseminação do tsunami de notícias falsas que favoreceram a candidatura de Jair Bolsonaro.

No brasil, a empresa tem ignorado a jurisdição das autoridades brasileiras, recusando-se a revelar os macrodados relativos aos contratos milionários para disparos de calúnias e fake news.

O jornal Folha de S. Paulo revelou em reportagem que esses disparos foram bancados por empresas privadas, o que também fere a legislação eleitoral, já que pessoas jurídicas não podem contribuir com partidos, coligações ou candidaturas.

“Nosso intuito é que isso não se repita. Nem no Brasil, nem em qualquer outro lugar do mundo. As forças progressistas dos mais diversos países são unânimes em denunciar que está havendo na política o mau uso da tecnologia da informação, prestando um desserviço à causa democrática ”, ressaltou Haddad.

Do PT no Senado