19 de setembro de 2013

Matéria originalmente publicada pela revista Brasileiros

Nos dias 31 de junho e 1º de julho, o ex-presidente Lula viajou a Adis Abeba, na Etiópia, onde participou do encontro de alto nível de líderes africanos e internacionais “Novas abordagens unificadas para erradicar a fome na África até 2025“, organizado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), pela União Africana e pelo Instituto Lula. A revista Brasileiros publicou três matérias sobre o encontro. A primeira, uma entrevista com o ex-presidente, foi reproduzida ontem. Hoje vai ao ar a conversa com o diretor-geral da FAO, José Graziano.

por HÉLIO CAMPOS MELLO e LUIZA VILLAMÉA, enviados especiais a ADIS ABEBA, na ETIÓPIA

Diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), José Graziano da Silva foi um dos organizadores do encontro realizado em Adis Abeba, na Etiópia, em busca de novas estratégias para erradicar a fome na África. Eleito há dois anos para o comando da organização, Graziano tomou posse em janeiro de 2012. Logo na sequência, promoveu uma faxina na estrutura da FAO, na sede que fica em Roma, na Itália. Ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi responsável pelo Fome Zero, programa que tirou 28 milhões de brasileiros da pobreza extrema. No cenário internacional, o diretor-geral quer mais. Insatisfeito com o fato de a FAO ser o organismo mundial que melhor faz recomendações técnicas, Graziano quer agora criar uma forma de controlar e cobrar dos governos as promessas feitas nos encontros de cúpula. “Estou implantando um mecanismo que vai nos permitir monitorar essas declarações”, afirma. “O resultado não é a conferência. É a implementação das decisões dessa conferência.”

Brasileiros – Sua eleição para a FAO acaba de completar dois anos. Qual o balanço que o senhor faz da organização nesse período?

Graziano – Hoje, temos já uma FAO bastante diferente. Contabilizo duas mudanças importantes. Quando eu assumi, havia uma total e completa divisão entre o que queriam os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Eram dois blocos que não se conversavam. Não se chegava a nenhum acordo. Depois de dois anos, tenho o orgulho de dizer que essa divisão está superada. Conseguimos aprovar por consenso um programa de trabalho e um orçamento.

Brasileiros – Qual foi o pulo do gato?

Graziano – Muita política, muito diálogo. E uma recuperação da credibilidade. Em política, vale muito os sinais que você emite. Procurei demonstrar compromisso com as coisas que tinha prometido e não gastar a não ser o que fosse necessário.

Brasileiros – E a casa alugada para o diretor-geral na elegante Via Appia, em Roma?

Graziano – Eu não fui morar lá. Moro em um apartamento onde não gasto nem 30% do valor que me foi autorizado gastar. Esse foi um dos sinais da nova gestão.

Brasileiros – Qual a segunda mudança da FAO no período?

Graziano – Demonstrei que é possível renovar a nossa direção interna, trazer pessoas competentes e eficientes. Fiz uma limpeza geral nas nomeações de favores, naqueles postos que estavam há muitos anos ocupados por pessoas sem a necessária competência técnica. No escalão superior, troquei umas 20 pessoas. No campo, outras 30. Essa renovação trouxe sangue novo, vida nova para a organização.

Brasileiros – Foi feita a descentralização que o senhor planejava?

Graziano – Esse é o terceiro ponto que eu acredito ter alcançado. Havia uma divisão muito grande entre a atividade no campo e o trabalho normativo, que a FAO faz em sua sede, em Roma.

Brasileiros – Como é esse trabalho normativo?

Graziano – A FAO é depositária de uma série de tratados e convenções, como a Convenção de Roterdã, que especifica qual tipo de inseticida pode ser usado, e o Codex Alimentarius, que indica os produtos conservantes permitidos nos alimentos. Somos depositários de todas as normas e standards que dizem respeito à produção agrícola, pesqueira e animal; ao uso das florestas, das águas e dos alimentos. A FAO tem muita responsabilidade na organização mundial das cadeias alimentares. Os países desenvolvidos queriam uma FAO que só fizesse isso. Os países em desenvolvimento queriam uma FAO que também proporcionasse assistência técnica, ajudasse os mais pobres a atingir a sua autossuficiência alimentar.

Brasileiros – O que está sendo feito?

Graziano – Conseguimos encontrar um mecanismo para fazer as duas coisas, que foi a descentralização. Fortalecemos a nossa presença no campo e, com o feedback dessa atuação mais forte no campo, melhoramos o lado normativo. Falamos com o pé no chão. O trabalho no terreno, eu consegui mostrar, ajuda e não atrapalha, como temiam os países desenvolvidos. Essas três conquistas me permitem dizer que hoje nós temos uma FAO mais bem preparada para a luta contra a fome. A partir do próximo biênio, com o novo orçamento, passaremos à fase que é realmente o maior desafio: mudar o jeito de trabalhar. Até hoje, a FAO era o organismo que melhor fazia recomendações técnicas. E parava aí. Em uma conferência como essa, parávamos na declaração final. Estou implantando um mecanismo que vai nos permitir monitorar essas declarações. O resultado não é a conferência, é a implementação das decisões dessa conferência.

Brasileiros – A FAO tem mecanismos para fazer cobranças?

Graziano – Todos os mecanismos passam pelos consensos que estamos tentando obter. Queremos que os próprios países estabeleçam os mecanismos e os tornem públicos. Estamos trazendo a sociedade civil e o setor privado para dentro da FAO, trabalhando junto com eles. Nessa conferência tem 150 organizações, junto com os representantes dos 54 países africanos. Eles estão tendo que ouvir a voz da sociedade civil. Espero que essa sociedade esteja sempre do nosso lado, ajudando nas cobranças.

Brasileiros – O seu mandato à frente da organização pode ser renovado?

Graziano – Daqui a dois anos, em julho de 2015, haverá uma nova eleição. Eu também mudei as regras da eleição. Antes, o diretor-geral tinha o poder de apontar novos diretores até o dia da eleição. Agora, isso não é mais possível. Seis meses antes da eleição nenhuma nova pessoa pode ser nomeada para nenhum posto de direção. Isso tira parte dos meus poderes, mas acredito que a instituição se beneficia muito da democracia do processo. Se o diretor-geral for candidato, ele não terá como influenciar o processo eleitoral de dentro da FAO.

Brasileiros – O diretor-geral será candidato em 2015?

Graziano – Tem dois anos ainda para resolver. Ainda é cedo.

Brasileiros – E, desde a sua eleição, houve alguma mudança no combate à fome?

Graziano – Nós conseguimos um êxito grande em alguns países onde já havíamos progredido de maneira satisfatória. Temos muita coisa a comemorar no Caribe, na América Central, em relação a dois anos. Também temos muito a comemorar na gestão global dos preços dos alimentos. A FAO botou para funcionar um mecanismo chamado AMIS (Agriculture Marketing Information System).

Brasileiros – Como funciona?

Graziano – É um sistema de monitoramento de preços de mercado das commodities, que permite antecipar as subidas e baixadas de preços em função da expectativa de colheita. Isso possibilita aos países se programarem melhor e não serem pegos de surpresa se o preço de um produto básico, como o trigo ou o arroz, subir repentinamente. Estamos contribuindo mais para fortalecer os países em seus programas de segurança alimentar. Ao mesmo tempo, estamos compartindo as experiências exitosas em outros lados. A maior perda de tempo é reinventar a roda. Estamos adotando claramente a política de copiar os países que tiveram êxito. Mostrar aos países que não o fizeram como podem rapidamente enfrentar a fome.

Brasileiros – Qual a posição do Brasil nesse ranking de êxito?

Graziano – Nessa conferência, apresentamos três experiências internacionais muito exitosas. A China, que conseguiu tirar 300 milhões de pessoas da pobreza, o que por si só é um feito que precisa ser explicado. O Vietnã, que era um país deficiente, importador de alimentos. Agora consegue exportar alimentos e também acabar com a fome. O terceiro país foi o Brasil, que botou em prática um programa combinando aumento da produção, principalmente da agricultura familiar, com o acesso aos alimentos, através de programas de acesso de ingressos, como foi o Fome Zero e o Bolsa Família. Países como o Níger, explicitaram claramente que baseiam o programa na experiência brasileira. É muito bom para um país poder exportar boas práticas. Mas nós não queremos exportar o modelo brasileiro. Para combater a fome, cada país tem de encontrar os seus ingredientes, fazer seu próprio menu. O que chama a atenção no modelo do Brasil é a combinação de políticas sociais e produtivas. Essa combinação é a atração do caso brasileiro.

Brasileiros – Que tipo de política se destaca na China e no Vietnã?

Graziano – A China é um caso de urbanização do mundo rural. A China tirou, literalmente, pessoas da caverna para irem residir em predinhos de três andares, muito parecidos com os que existem na periferia de São Paulo. Esse mecanismo possibilitou a 300 milhões de chineses acesso a programas educacionais, de saúde e de melhoria da tecnologia agropecuária.

Brasileiros – E o caso do Vietnã?

Graziano – É uma combinação de mecanismos de pesquisa e vontade política. Eles se tornaram autossuficientes na produção de arroz, com variedades próprias, aclimatadas. Ao mesmo tempo, houve uma forte determinação política do governo de dar acesso à população mais pobre a recursos como água e terra, que não estavam disponíveis. Eles se abriram para uma economia de mercado, deram aos pequenos agricultores acesso aos mercados locais, que antes não era permitido.

Brasileiros – Nessa conferência, nota-se um entusiasmo das lideranças africanas com o Brasil. Por quê?

Graziano – O Brasil realmente tem entusiasmado. As intervenções brasileiras têm sido muito positivas nos vários fóruns internacionais. O que entusiasma em particular é a simplicidade das soluções brasileiras. Um exemplo que despertou muito interesse nessa conferência, o das compras locais para a merenda escolar, poderia ser aplicado na África. O agricultor de subsistência africano, que é, em geral, uma mulher, cuida de uma horta doméstica. Se nós conseguirmos que essa mulher aumente um pouco a produção de ovos para vender uma dúzia para a merenda escolar, não só melhoraremos muito o lanche das crianças, como criamos um mercado local. Essa pequena agricultora, que está no nível da subsistência e da pobreza absoluta, também tem uma melhora de renda. Essa solução acendeu os olhos dos ministros da Agricultura.

Brasileiros – Faz diferença o fato de um brasileiro estar à frente da organização?

Graziano – Os africanos em particular se sentem muito próximos do Brasil, por uma aproximação que remonta ao início dos anos 2000, que o presidente Lula começou, mas também por nossas tradições de raízes históricas comuns. É muito fácil falar de agricultura na África. Os produtos deles são mandioca, milho, feijão, arroz. Então, falo com tranquilidade desses programas. Eles também esperam muito a cooperação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), para o Brasil devolver um pouco do que ele levou da África, não só a mão de obra escrava. O Brasil levou, por exemplo, a semente de braquiária, que hoje é a base de nossa criação no Centro-Oeste. A braquiária é da savana africana. E, hoje, se espera a devolução dessa braquiária.

Brasileiros – Não tem mais braquiária na África?

Graziano – Tem, mas não a braquiária melhorada. O Brasil levou, a Embrapa melhorou e hoje o País tem uma braquiária centenas de vezes mais resistente e nutritiva do que a da África.

Brasileiros – A braquiária é mesmo um bom pasto?

Graziano – É um ótimo pasto para expandir a pecuária nas savanas africanas. Eles esperam esse tipo de solução, relativamente simples, como também que ajudemos a reconstruir as estações experimentais, os programas de pesquisa e extensão, que foram destruídas pelas guerras. Todos esses países enfrentaram guerras por independência, de separação, que destruíram o seu background na pesquisa de extensão. Esperam que o Brasil os ajude a recuperar isso.

Brasileiros – O País ganha alguma coisa com isso?

Graziano – O Brasil acaba de eleger o Roberto Azevedo (diretor-geral da Organização Mundial do Comércio) para uma organização tremendamente importante para o futuro do País. Ele não teria sido eleito sem os votos africanos. Eu não teria chance sem os votos africanos. Nós precisamos, temos condições, e custa muito pouco. E, para o contribuinte brasileiro saber, estamos aprendendo muito. Quando vem um técnico da Embrapa para a África, ele não está apenas trazendo uma contribuição. Também está aprendendo e levando de volta as novas braquiárias da nossa pesquisa.

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