03 de maio de 2022
Foto: Ricardo Stuckert

Na última terça-feira, 26 de abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista coletiva para 12 youtubers e representantes da mídia independente, em São Paulo. Durante mais de 3 horas, ele falou sobre diversos assuntos de interesse nacional, participação dos jovens na política e propostas para retomar o crescimento e a geração de empregos no Brasil.

Participaram do encontro os jornalistas Pedro Borges (da Agência de Notícias Alma Preta), Nina Fideles (Brasil de Fato), Talita Galli (TVT), Conceição Lemes (Viomundo) e Fernando Brito (Tijolaço) e os youtubers Laura Sabino, Ronny Telles, João Antônio (canal Click Político), José Fernandes Jr (canal Portal do José), Carlito Neto (canal O Historiador), Mariana Torquato (canal Vai Uma Mãozinha Aí?) e Luide Matos (canal Luideverso).

Confira a seguir a íntegra da coletiva:

Luiz Inácio Lula da Silva: Bem, eu quero primeiro agradecer a todos vocês que estão participando dessa coletiva, agradecer à equipe do Suckert, a que trabalha comigo, ou seja, a ideia de fazer essa reunião, essa entrevista. E eu queria dizer para vocês que nós estamos vivendo um momento muito delicado na história do Brasil. Eu já tenho uma idade mais ou menos avançada, tenho 76 anos de idade, e faço política há 50 anos, sabe, e eu nunca vi a gente viver uma situação que estamos vivendo hoje. Uma situação de desgovernança total, ou seja, você não tem um presidente da República que governa o país, você tem um governo da República que se preocupa todo dia em tentar criar uma polêmica na sociedade porque ele vive disso, ele vive de desrespeitar as instituições, desrespeitar as autoridades, desrespeitar a relação internacional, desrespeitar a lógica da ciência, no caso das vacinas e do Covid. Eu considero ele responsável pelo menos por metade das pessoas que morreram nesse país, pelo descaso com que ele tratou a Saúde. 

Ele não trata de crescimento econômico, ele não trata de desenvolvimento econômico, ele não trata de aumento de salário, ele efetivamente não trata de economia, não trata de relação com as entidades, sabe? Vai completar quatro anos e nunca se reuniu com movimento sindical, nunca se reuniu com o movimento social, nunca se reuniu com empresários, nunca se reuniu com governadores, nunca se reuniu com prefeitos, nunca se reuniu com ninguém. Ele vive num mundo de fake news, ele vive no mundo da mentira que ele construiu para governar esse país e eu penso que nós estamos tentando construir não uma candidatura, mas um movimento que possa restabelecer a democracia nesse país. 

Ou seja, o Brasil precisa de um governo que ao invés de governar cuide do povo, esse país precisa ser cuidado. A nossa floresta tem que ser cuidada, a nossa água tem que ser cuidada, as nossas riquezas minerais têm que ser cuidadas, o nosso povo tem que ser cuidado, os nossos índios têm que ser cuidados, o nosso povo negro tem que ser cuidado, as nossas mulheres têm que ser respeitadas. Ou seja, um governo com o mínimo de tradição humanista, um governo com o mínimo de tradição democrática, um governo que tenha um sentimento de fraternidade, que tenha um sentimento de solidariedade, palavras que o atual governo não combina, não quer ter nenhuma relação com essas palavras. E nós estamos numa campanha em que nós achamos que será uma campanha de muito baixo nível da parte do governo. 

E nós vamos tentar fazer uma campanha no nível que nós fizemos contra todos os candidatos que nós disputamos as eleições, que não foram poucas, até porque nós temos que ter uma relação de respeito com a sociedade que não está participando diretamente, mas está em casa, está na rua, está no trabalho, ou seja, está transitando entre os estados brasileiros, e quando ela ouvir um dirigente político pedir voto ela precisa no mínimo achar e entender que aquela pessoa está respeitando ela. Acho que o Brasil está numa situação econômica muito difícil, acho que nós vamos encontrar um Brasil mais quebrado do que o Brasil que eu herdei em 2003, nós vamos ter mais inflação, vamos ter mais desemprego, nós vamos ter menos massa salarial, nós vamos ter menos aumento de salário mínimo, nós temos muito menos credibilidade interna e externa. E temos uma coisa mais grave que é o desmonte das coisas que funcionavam no Brasil. Por isso é que nós temos que reconstruir o Brasil, porque se a gente pegar na questão ambiental ele destruiu tudo o que a gente tinha construído para ter uma política ambiental séria nesse país. A começar pelo IBAMA, coisas como o CONAMA ele destruiu porque na cabeça do governo não existe nenhuma perspectiva de participação da sociedade. 

Do ponto de vista econômico a gente vai encontrar o povo mais pobre, vamos encontrar 19 milhões de pessoas com fome, 116 milhões de pessoas com algum problema de segurança alimentar, vamos ver os preços das coisas muito mais altos do que nós já vimos em qualquer outro momento. Ou seja, eu estava percebendo que a carne está proibida para uma grande parcela do povo brasileiro, verdura, como salada, como cebola, está tudo meio caro para a sociedade brasileira, e o salário está cada vez menor, cada vez se ganha menos. Ou seja, uma informalidade muito grande tentando passar a ideia de que entregador de comida é empreendedor, que Uber é empreendedor, quando na verdade foram pessoas que foram levadas a acreditar numa forma de emprego que o torna, ou seja, praticamente escravo de um patrão que ele não conhece. 

Porque ele não sabe quem é o seu patrão, ele não tem descanso semanal remunerado, ele não tem férias, não tem auxílio-doença, não tem auxílio maternidade quando a sua mulher fica grávida, e ser acontecer alguma coisa com o seu instrumento de trabalho, ele não tem para quem reclamar e nem para quem receber. Vocês viram que houve uma certa rebelião de uma parte da sociedade brasileira representada por um grupo de empresários que quando nós falamos em rever a questão da reforma trabalhista ficaram assustados. E nós temos que criar uma reforma trabalhista que seja adaptada à atual realidade do mundo de trabalho, nós não queremos tudo que nós tínhamos conquistado em 43 porque o mundo do trabalho mudou, mas a gente quer uma mudança na estrutura da relação patrão/empregado, da relação capital/trabalho, ou seja, que seja levado em conta os direitos que a sociedade brasileira tem que ter. 

Todo mundo tem que ter direito a um descanso semanal remunerado, todo mundo tem que saber quanto vai ganhar por mês, todo mundo tem que ter seguridade social, e isso nós vamos ter que discutir e vamos ter que fazer uma mesa de negociação que nós já fizemos quando eu fui presidente, uma mesa que envolva os empresários, que envolva os trabalhadores, que envolva o governo e que a gente envolva, inclusive, as universidades brasileiras para participar da construção de um novo modelo de relação capital/trabalho neste país, uma nova relação no mundo do trabalho. Bem, eu penso que nós temos condições de construir uma força política muito grande para que a gente reconstitua a democracia nesse país. 

Eu penso que nós vamos ter que trabalhar muito, vamos ter que fazer como o Juscelino disse que ia fazer a 50 em 5, nós vamos ter que fazer pelo menos uns 50 em 4, porque recuperar o que foi destruído é uma tarefa mais difícil. Quem já reformou uma casa, quem já quis fazer mudança sabe que a tal das mudanças quando você pega uma coisa destruída é muito mais difícil você consertar. E nós estamos preparados para isso. Eu penso que a sociedade brasileira está ávida a participar do processo, não apenas para ganhar uma eleição, mas ela está ávida para participar e ajudar na governança desse país participando das principais decisões que o governo tem que tomar. 

É preciso acabar com a tese de que se pode governar esse Brasil de Brasília sem ouvir o povo brasileiro. É preciso criar mecanismos em que a sociedade organizada através das suas entidades, através das suas organizações, elas possam dizer como quer as coisas e para que quer as coisas, para que não fique o governo governando a partir de Decreto ou só de Medida Provisória. Então, é com essa disposição que eu estou aqui para conversar com vocês, inteiramente à disposição para vocês fazerem as perguntas que vocês quiserem e eu vou dizer aquilo que eu digo em toda entrevista, não tem pergunta proibida, não tem pergunta difícil, não tem pergunta incômoda, aquilo que eu não souber eu pergunto para alguns de vocês me ajudar a responder, ou quem sabe eu vou consultar a bancada de universitários que está ali ou que está ali atrás. No restante vamos começar o jogo, só não vale bater do pescoço para cima, para baixo a gente pode…

Conceição Lemes (site Viomundo):

Presidente, a minha pergunta vai ser em relação a pandemia, e eu vou fazer uma pergunta que na verdade são várias numa só. Segundo os dados oficiais, o Brasil tem mais de 30 milhões de casos confirmados do Covid-19 e mais de 662 mil óbitos. O que o senhor tem a dizer às famílias dos mortos e aos brasileiros que sobreviveram a essa tragédia, e aos profissionais do SUS? E aí eu, nós incluímos os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, os samuzeiros, os maqueiros, quer dizer, todos os trabalhadores do SUS, que mais uma vez comprovaram o compromisso real com a saúde pública, ao contrário do Governo Federal e de muitos gestores estaduais e municipais. Se eleito, o que o senhor pretende fazer para garantir os recursos necessários ao SUS hoje subfinanciado e que vem perdendo cada vez mais recursos? O senhor tem planos de revogar a PEC 95, o teto dos gastos? O que o senhor pretende fazer para evitar que crianças e adultos morram de uma doença evitável como a Covid-19?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Veja, Conceição, primeiro eu comecei dizendo que o Bolsonaro e o seu governo deve ser responsabilizado pelo menos por metade das pessoas que morreram nesse país. Porque ele negou a credibilidade da Organização Mundial da Saúde, ele não respeitou os cientistas brasileiros, não respeitou os médicos brasileiros, não respeitou o SUS, não respeitou os laboratórios brasileiros. Ele passou a teimar contra tudo e contra todos num total desrespeito. Ou seja, na verdade era uma demonstração da ignorância jamais vista por qualquer eleitor brasileiro. Ele tinha um público e ele sempre se dirigia aquele público de forma negacionista, e é só olhar a qualidade dos ministros da saúde que ele escolheu, sobretudo se a gente pegar o general Pazuello, a gente vai notar que ele não tinha nenhuma responsabilidade. Você não viu ele visitar nenhuma pessoa que perdeu um parente, ele não chorou uma lágrima por qualquer pessoa idosa ou criança que morreram. Ele não teve nenhuma atitude de respeito humanista com as pessoas. 

O que foi que aconteceu importante para a sociedade brasileira? Que a gente tinha o SUS, e o SUS que durante muito tempo foi vendido como uma coisa imprestável por uma parte da imprensa brasileira, quando se necessitou o SUS estava pronto para mostrar a sua competência mesmo com a fragilidade dos recursos, e mesmo com o negacionismo. O SUS mostrou, porque tem muita gente que ganha muito pouco no SUS, tem muita gente que trabalha e que ganha muito pouco, mas o SUS mostrou que se ele tivesse as condições financeiras que ele necessita a gente poderia ter evitado muito mais mortes, inclusive evitado mortes de pessoas ligadas à área da Saúde. 

Eu acho que a história não termina com o fim da pandemia, esse país sempre foi um país especializado em vacinação. Vocês estão lembrados que quando houve a gripe, a influenza em 2010, a gente conseguiu vacinar 83 milhões de pessoas em três meses. O Brasil é um país respeitado no mundo pela sua capacidade de vacinação. Então, eu penso que nós, terminadas as eleições, se voltarmos ao governo, vamos ter que tratar a questão da Saúde como uma questão prioritária nesse país, porque eles tiraram praticamente 12 mil médicos dos Mais Médicos que estavam nos lugares mais longínquos, atendendo pessoas que não conseguiram ir a médicos durante anos, pessoas que morriam por falta de ter acesso a médico, pessoas que morriam porque ao receber uma receita não tinha dinheiro para comprar aquele remédio e colocava a receita no criado-mudo e morria por falta de remédio. 

E o SUS tem competência para fazer distribuição de remédio extraordinariamente bem. E aí eles acabaram com Farmácia Popular, acabaram com Aqui Tem Farmácia, ou seja, tudo isso em nome do quê? Em nome da descrença, em nome da ignorância, em nome do desrespeito à sociedade brasileira. Então eu quero dizer para você, nós não aceitamos a Lei do Teto de Gastos, até porque essa coisa do teto de gastos ela foi feita para garantir que os banqueiros tivessem o deles no final do ano. E nós queremos é garantir que o povo tenha o seu todo dia, todo mês, e todo ano. Fazer política social não é gasto, fazer política social é investimento. E é isso que nós vamos fazer nesse país, e a saúde terá um capítulo especial, a saúde precisa ser efetivamente tratada com respeito. Imagina se a gente não tivesse criado o SAMU nesse país imagina, se a gente não tivesse criado o SAMU, sabe. Então, eu penso que as pessoas têm que entender que quando você trata da saúde, quando você leva um médico a uma região longínqua, quando você distribui um remédio para uma pessoa pobre, você não está gastando dinheiro, você está fazendo investimento, por que uma pessoa com saúde ela fica produtiva, ela tem mais capacidade de trabalho, ela tem muito mais com capacidade de fazer coisas boas para o país e para a sua própria família. Então, esse é um tema, esse é um tema que será levado muito, mas muito a sério por nós nessa campanha e no governo, se a gente voltar a governar esse país.

Pedro Borges:

Bom dia presidente. Presidente, um dos problemas que a gente tem enfrentado, até como uma mneira de desdobramento da pandemia, é a questão da fome, as pessoas estão com muita fomea. No nosso país, você mesmo falou sobre a subnutrição de maneira geral do país. A maioria dessas pessoas com fome no nosso país são pessoas negras. Ao mesmo tempo, presidente, como você também colocou, a gente está diante dessa política do teto dos gastos públicos, de que alguma maneira coloca uma barreira para uma ação do poder público. Eu queria saber como de alguma maneira você, se presidente, pensa em lidar com essa dualidade, de alguma maneira ter que ajudar a colocar comida na mesa das pessoas, diante de uma política dessa do teto. E por último, presidente, a sociedade civil se mobilizou muito nesse período da pandemia com diversas campanhas como, por exemplo, Tem Gente com Fome, da Coalizão Negra por Direitos. Vai haver algum diálogo com essas campanhas para que elas de alguma maneira continuem a colocar comida na mesa do povo brasileiro?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Pedro, quando eu saí da Polícia Federal, na primeira viagem que eu fiz eu fui visitar o Papa Francisco, e depois de visitar o Papa Francisco eu fui visitar o Conselho Mundial de Igrejas porque eu estava com a disposição de fazer uma campanha mundial pela igualdade e contra a desigualdade. Porque a desigualdade não é um fenômeno da natureza, é um fenômeno da incapacidade das pessoas que governam os países de cuidar do povo como ele merece. Veja, nós não temos fome pela falta de produção de alimento, nós temos fome pela falta de recursos para as pessoas comprarem o que comer. A ciência já provou que o mundo produz mais alimentos do que nós necessitamos, e ainda assim continuam 900 milhões de pessoas indo dormir toda a noite sem ter um prato de comida para comer. 

Isso se deve efetivamente à falta de um olhar humano, um olhar humanista, dos países mais ricos para os países mais pobres. Imagina se o presidente Biden tivesse a mesma disposição que ele teve de anunciar na semana passada mais 800 milhões de dólares para a guerra na Ucrânia, se ele tivesse a mesma disposição de mandar 800 milhões de dólares para comprar comida para o povo pobre. Vamos escolher um continente, o povo pobre da África, o povo pobre da América Latina. Acontece que muitas vezes as pessoas pobres não são tratadas e nem olhadas como seres humanos, são olhadas como objeto. Em alguns países ainda não são olhadas nem no dia do voto porque não pode votar. 

Ou seja, se a Bíblia diz que todo mundo tem direito de comer, se a Declaração Universal dos Direitos da ONU diz que todo mundo tem o direito de comer, se a nossa Constituição diz que todo mundo tem o direito de comer, nós temos a obrigação de garantir, e nós provamos que é possível. Nós provamos que é possível. Eu tenho dito sempre, sabe, para as pessoas não esquecerem nunca: não é possível que o Brasil que é o terceiro produtor de alimento no mundo tenha gente com fome. Não é possível que o Brasil que é o primeiro produtor de proteína animal do mundo, tenha pessoas correndo atrás de carcaça de frango e atrás de osso porque não tem dinheiro para comprar. Então, é preciso que haja política econômica distributiva, é preciso que o povo tenha recursos para que o povo possa comprar aquilo que é necessário. 

Na hora que o povo tiver recurso, nós temos capacidade de produzir, temos terra, temos tecnologia, temos uma agricultura familiar altamente produtiva, a maioria dos nossos agricultores são proprietários de até 100 hectares. Essa gente que produz o frango, essa gente que cria o porco, essa gente que cria as coisas que nós comemos. Você pode pegar o rei da soja, o rei da cana, se ele quiser comer uma galinha caipira ele vai comprar de um pequeno, se ele quiser comer um pedaço de carne, um pedaço de porco ele vai pegar de um pequeno proprietário. Então, por que a gente então não leva isso em conta e copia aquilo que nós já fizemos? Por que nós conseguimos acabar com a fome no Brasil, reconhecido pela ONU, em 2014? Porque nós fizemos uma política de transferência de renda que permitiu às pessoas mais pobres ter acesso àquilo que é necessário para comer. 

Então, não tem explicação, essa é uma tarefa, Pedro, você está lembrado que quando eu tomei posse em 2003 eu quis fazer um discurso muito simples porque eu aprendi nas greves do ABC que quando a gente radicaliza demais no discurso, depois a gente perde demais quando a gente não consegue cumprir o discurso. Então, aquele negócio de falar é 100% ou nada, a Conceição se lembra porque ela foi militante sindical daquela época, ou seja, quando você fala 100% ou nada, mesmo que o cara dá 90 você já perdeu. Porque você disse que era 100% ou nada. Então, eu aprendi que a gente precisa falar as coisas que a gente consegue fazer. E é por isso que eu disse, se quando eu terminar o meu mandato, cada brasileiro ou brasileira estiver tomando café, almoçando e jantando, eu já terei realizado a obra da minha vida. 

Porque quem não tem fome não sabe o que é fome. Quem nunca passou fome não sabe o que é. Então, nós conseguimos isso. Eu agora eu espero, se eleito presidente da República, dizer para os governantes do mundo numa reunião do G20, numa reunião da ONU o seguinte: é possível a gente acabar com a fome no planeta Terra. É possível que nenhuma criança morra de desnutrição. É plenamente possível. É só a gente canalizar os recursos inúteis, vamos ver quanto que foi gasto para a guerra do Iraque, para a guerra da Síria, quanto foi gasto para ocupar a Líbia, vamos ver quanto custou a guerra do Afeganistão. Ora, vamos ver quanto custou para salvar o sistema financeiro em 2008 e 2009, foram trilhões e trilhões de dólares. Por que não existe a mesma intenção de levar esses recursos para cuidar das pessoas que estão desvalidas? Por que não existe para cuidar daqueles que estão passando fome? 

Porque não querem, porque não há decisão política, porque os políticos nunca tiveram essa experiência, nunca passaram fome, não sabem o que é pobreza absoluta, não sabem o que é uma pessoa morar num quarto de 3 x 3 com mulher, quatro ou cinco filhos, ali ele come, ali ele faz as necessidades dele, ali ele faz, ele constrói a sua família. As pessoas não sabem o que é isso. Mesmo que você leia, conheça por literatura, não é a mesma coisa de você conhecer e você ver, não é a mesma coisa. Então, eu estou convencido que nós vamos fazer uma campanha mais forte do que fizemos na primeira tentando envolver a riqueza. Eu sinceramente fico indignado porque nós perdemos a capacidade de indignar as pessoas, o que nós estamos necessitando é a capacidade de indignar o planeta. Porque não é possível que um cara compre um barco de 400 milhões de dólares, compre um outro para pousar um helicóptero, e esse cara não se preocupa com quem está passando fome. Não é possível que um cara resolva fazer passeio no espaço gastando milhões de passagem e esse cara não esteja preocupado em fazer política de transferência de renda, contribuir para que a gente acabe com a fome. 

Então, esse é um discurso, é uma prática que se eu voltar a presidir esse país os meus amigos que governam outros países vão ouvir todo santo dia. Essa gente tem que colocar o pé na África, tem que ir lá em Moçambique ver como é que vivem as pessoas, tem que ir no Benin para ver como é que vivem as pessoas, tem que ir em São Tomé e Príncipe, sabe, tem que botar o pé no barro para saber como é que vivem as pessoas. Então, esse é um dilema, Pedro, que nós vamos levar muito a sério, é quase que uma profissão de fé. A gente não pode permitir que o Brasil, do tamanho que é, possa ter uma criança que vá dormir sem ter um copo de leite. É quase, isso não é programa de governo, isso não é promessa de campanha, isso é profissão de fé de um cidadão que veio comer pão pela primeira vez com 7 anos de idade. 

Não é possível ter fome nesse país, não é possível. E não é possível a gente não se indignar de ver tanta comida sobrando na casa da gente, ver tanta comida sendo jogada fora, ver tanto desperdício e ver tanta gente se humilhando na rua com uma plaquinha de papel pedindo comida para ele e para os seus filhos. Então, isso, eu sou um cidadão hoje, eu não sou mais revoltado, eu sou mais indignado do que já fui em outros momentos, porque eu vi que para a gente construir leva muito tempo, para destruir é rápido. Eles conseguiram destruir quase tudo que nós fizemos nesse país que envolvia a sociedade brasileira, tudo aquilo que era benefício, tudo aquilo que era sistema de fiscalização, tudo aquilo que cuidava do meio ambiente, tudo aquilo que cuidava de portadores de deficiências, eles acabaram. Ou seja, porque eles não pensam no povo brasileiro, eles pensam nos milicianos que são a base de sustentação desse governo. Por isso é que nós vamos ter uma tarefa muito árdua, muito dura, para consertar esse país.

João Antônio de Sousa:

Bom dia Crispiniano, bom dia a todos os companheiros e companheiras. Eu queria saudar em nome da classe política o senador Aloísio Mercadante, ex-ministro da educação, saudar ao pessoal da redação do Portal Click Política. Informar presidente que ontem eu estive com o Leonardo Attuch, do Brasil 247, e ele falou que iria retransmitir a coletiva na integralidade, e eu queria saudá-lo também, porque é um guerreiro do nosso campo, do campo progressista. E queria dizer que o senhor não sabe o prazer de estar aqui há poucos metros do senhor, a emoção, isso vai ficar eternizado para mim, na minha alma, no meu coração e na minha mente, sem dúvida. Presidente, tem um dado que me chamou a atenção, o senhor falou muito de fome aí, 33 milhões de brasileiros estão sobrevivendo com menos de um salário mínimo. E eu pergunto: como é que a gente sobrevive com menos de um salário mínimo? E a gente não vê o Paulo Guedes preocupado com isso, a gente não vê o presidente da República preocupado com isso. É só um dado. 

A minha pergunta é: o senhor tem uma grande força no Nordeste brasileiro, o povo do Nordeste lhe adora. Eu tenho notado que o eleitorado nordestino, com algumas exceções, vota bem para governador, mas vota mal para deputado federal. Teve um levantamento recente que muitos eleitores não sabem em quem votaram para deputado federal na última eleição. Eu pergunto se o senhor terá alguma estratégia diferente nessa eleição para fazer com que o eleitor nordestino entenda, compreenda a importância do voto de deputado federal, que guarda a mesma importância para o voto para o Governo do Estado. Você vê que em 2018 o Nordeste votou bem porque Haddad venceu a eleição no Nordeste. A minha primeira pergunta é essa. 

A segunda é sobre os evangélicos. Existem meia dúzia de pastores multimilionários que apoiam o presidente da República, teve um até aí recentemente que deu uma surtada depois do resultado lá do Daniel Silveira, no Supremo, e atacou todo mundo, e atacou inclusive o senhor. O senhor falou em fake news aí, muitas fake news estão sendo disparadas por esses pastores multimilionários que não querem largar o osso. Eu vi uma entrevista do senhor à TVT, acho que foi com o Talita, com o Juca, e alguém lhe indagou sobre os evangélicos, o senhor disse: eu quero conversar com os evangélicos porque eu quero perguntar para eles quem foi que mais tratou eles com respeito. Não é essa questão de me batizar não, o senhor falou, é questão de tratar bem. Então, qual a estratégia do senhor para combater essa meia dúzia multimilionária da elite evangélica, são seis ou cinco, que apoiam o Bolsonaro, que vivem disparando mentiras contra Vossa Senhoria. E para fechar uma pergunta da Paraíba: o senhor lidera com folga todas as pesquisas na Paraíba, lá existe o vice-presidente do Senado, Veneziano Vital do Rego, do MDB, que já anunciou que vai apoiar o senhor, é candidato a governador, vai ter Ricardo Coutinho como seu candidato ao Senado, que é filiado ao PT, e o atual governador é filiado ao PSB, de Geraldo Alckmin, e também quer votar no senhor. Eu quero saber se o senhor já tem alguma resposta para dar aos políticos da Paraíba se o senhor vai subir nos dois palanques, qual será a sua atuação naquele estado. Obrigado, esse momento para mim vai ficar eternizado.

Luiz Inácio Lula da Silva:

João Antônio, primeiro eu queria dizer que é um prazer imenso conversar com você e compartilhar da tua emoção. Porque tem um problema na minha relação com o Nordeste que é o seguinte: eu vim de lá com 7 anos de idade de pau de arara, eu cheguei a São Paulo, aqui em São Paulo a gente tinha muito preconceito contra o povo nordestino. Eu nunca me importei, nunca me importei de piada contra nordestino. Eu devo tudo o que eu sou a São Paulo porque foi aqui que eu fiz o diploma primário, foi aqui que eu fiz o curso no SENAI, foi aqui que eu me formei torneiro mecânico, foi aqui que eu venci na vida, e foi a partir daqui que eu virei presidente da República. A São Paulo, eu sou devedor, embora eu seja natural de Pernambuco, eu sou um cidadão que devo muito a São Paulo, que me acolheu e à minha família, minha mãe e oito irmãos. 

Eu nunca me conformava com a ideia do Nordeste aparecer na imprensa grande do Sul como a região que tinha mais analfabetos, a região que tinha mais evasão escolar, a região que tinha mais desnutrição infantil, a região que tinha menos pesquisadores, menos mestres, menos doutores, menos universidades. Quer dizer, eu sinceramente achava que não era possível, que Deus não olhasse com certo carinho para o Nordeste. Então, quando eu cheguei à presidência eu tomei uma atitude de tentar fazer com que a gente pudesse criar um país equânime, que todos tivessem um pouco de direito de crescer. 

É por isso que muitas vezes o Nordeste cresceu a 14% ao ano durante o meu período de governo. Eu lembro que eu conversava com os governadores do Nordeste e eles falavam: aqui nós estamos crescendo igual a China. É por isso que nós geramos muitos empregos no Nordeste, é por isso que nós levamos a transposição das águas do Rio São Francisco. Você sabe que a água do Rio São Francisco era uma coisa tentada desde Dom Pedro, desde 1846, e não ia porque em alguns momentos a Bahia dizia que o rio era dela, que não podia tirar a água do rio, o outro dia Alagoas dizia que a água era dela, outro dia Sergipe, ou seja, o rio é nacional. Não era possível que os cristãos desse país negassem um pouco de água ao semiárido nordestino. 

E quando nós tomamos a decisão, foi uma decisão difícil, tivemos que conversar com muita gente, conversar com milhares de pessoas por esse mundo afora para fazer a transposição. Obviamente que agora o atual governo diz que foi ele que fez, na verdade o nosso governo fez 88%, o governo golpista fez 6, e ele acho que fez 5 ou 6%, mas ele diz que ele que levou a água do São Francisco. Ou seja, levar empresa para o Nordeste, e levar universidade para o Nordeste, levar escolas técnicas para quase todo o Nordeste brasileiro, para muitas cidades. Porque a ideia era não deixar a universidade ficar só na capital, era fazer com que campus da universidade se espalhassem pelo interior para que as crianças mais pobres do interior tivessem acesso à universidade. 

E nós conseguimos uma coisa extraordinária, nós saímos de três milhões e meio de estudantes na universidade para 8 milhões de estudantes na universidade. Nós saímos de 140 escolas técnicas para quase 500 escolas técnicas, ou seja, nós fizemos uma pequena revolução nesse país com o ProUni, com o FIES, com o REUNI, garantindo que a oportunidade de estudo tem que ser para todo mundo. Bem, então essa paixão que eu tinha de fazer com que o Nordeste, o Centro-Oeste e o Norte tivessem a mesma igualdade, o mesmo tratamento. E somente o governo pode fazer isso. Eu não defendo o governo empresarial, o governo que manda em tudo, eu defendo o governo que tenha força para induzir o desenvolvimento em função das necessidades de cada região. 

Porque nesse país você não pode pensar num desenvolvimento centralizado sem discutir antes o desenvolvimento regional. O que a região Norte pode produzir, o que a região Sudeste pode produzir, o que o Nordeste pode produzir? É assim que a gente tem que pensar o modelo de desenvolvimento desse país. É por isso que a gente começou a fazer a Transnordestina, que ainda não acabou, por quinhentos empecilhos que se criaram. É por isso que a gente levou siderúrgica para Fortaleza, nós fomos na Coreia convencer os coreanos de fazer uma siderúrgica lá. Nós fomos buscar a Fiat para Pernambuco, sabe, nós vamos fazer com que as coisas acontecessem neste país, de forma equânime, porque senão vinha tudo para São Paulo, porque São Paulo tem mais gente, tem mais poder aquisitivo, tem mais mão de obra qualificada. Então, era preciso descentralizar as oportunidades nesse país, e nós fizemos. 

E agora eu vou entrar na sua pergunta. Primeiro, a questão de deputados, você disse uma coisa muito séria, nessa campanha eu vou dar mais importância a questão de deputado do que a própria campanha presidencial. Não adianta votar num presidente da República se não votar numa quantidade de deputados que pensam ideologicamente igual ao presidente para fazer as mudanças que necessita. Qualquer presidente eleito hoje, com o orçamento secreto, terá muita dificuldade de governar esse país. Eu não sei se vocês estão percebendo, nunca antes na história do país teve um presidente tão rastejante diante do Congresso Nacional do que o Bolsonaro. Ele não tem força nenhuma, nem o orçamento que é uma coisa do presidente executar, ele não executa. Quem executa é o presidente da Câmara, quem executa é o presidente do Senado e ele vive de favor fazendo seus decretos-lei, fazendo indulto fora de hora, transformando qualquer coisinha que os filhos dele façam num sigilo de cem anos. Tudo é 100 anos. Agora, mas nós vamos dar um jeito nisso, se preparem que nós vamos dar um jeito nisso… 

Então, a questão de deputado é muito importante, eu pretendo, eu pretendo se tudo der certo, fazer uma campanha dizendo: olha, vote na bancada que vai defender o nosso governo, vote na bancada que vai mudar. E aí eu tenho que ter uma lista com o nome de todos os deputados de todos os partidos que estão me apoiando para a gente poder fazer as pessoas votarem. Quando eu fui eleito em 2002 nós fizemos a maior bancada do PT, 90 deputados, de 513. Então, é preciso convencer o povo de que ele não pode continuar colocando raposa para tomar conta das galinhas, porque as raposas vão comer e não vão cuidar das galinhas. Essa é uma tarefa que é um compromisso de campanha. 

A outra, a questão evangélica. Nós não podemos confundir o povo evangélico com alguns pastores, o povo evangélico é muito grande nesse país e não é um povo menos inteligente que o povo de outra religião, pelo contrário, eles são espertos, são inteligentes, eles cuidam da família como se deve cuidar. Eu, por exemplo, sou um homem de família, eu sou um homem de família que fui criado embaixo da saia da dona Lindu que mantinha os seus oito filhos embaixo e no cabresto ali porque é a mãe que estava preocupada em cuidar dos filhos. Assim eu criei meus filhos, e assim eu acho que os evangélicos têm uma importância muito grande, não apenas na religião, mas também no cuidado da família. Porque normalmente é a mulher, é a mulher, seja ela evangélica ou católica, que tem mais responsabilidade dentro da casa. 

Quando nós aprovamos o cartão do Bolsa Família para as mulheres, o que eu dizia? Um cara corintiano como eu, vai receber o Bolsa Família, aí o Corinthians toma um esfrega como tomou do Palmeiras, de 3 a 0, aí eu fui dormir com a cabeça quente, eu vou dormir com a cabeça quente. Ora, se eu estou com um dinheirinho do Bolsa Família, passava num boteco, vou tomar uma para esquecer. Aí poderia até tomar duas, a mãe não faz isso, a mulher não faz isso, a mulher tem a família como uma coisa muito poderosa, e ela abre as asas em cima dessa família, ela cuida, se for necessário ela recupera o marido, se o marido não quiser se recuperar ele que vá embora, mas ela cuida com muita responsabilidade. Então, eu acho que os evangélicos tem essa força extraordinária. A gente não tem que conversar com o pastor, a gente não tem que ficar atrás daquele farofeiro que fala, fala, fala, fala em nome de Deus cometendo pecado todo dia, até porque utilizar o nome de Deus em vão já é um pecado. 

Nós temos que conversar com o povo, o homem e a mulher evangélica, discutir com eles o problema do Brasil, a situação, como é que eles estão vivendo. E aí eu tenho convicção de que os evangélicos nunca foram tão respeitados nesse país como no tempo em que eu fui presidente da República. Nunca foram tão respeitados. Pode pegar o cara que menos gosta de mim, ele vai dizer: no tempo do Lula o povo evangélico comia mais, ganhava mais, porque o salário mínimo era aumentado todo ano, a gente fazia a reposição inflacionária e dava de aumento real o crescimento do PIB. É por isso que a gente aumentou o salário mínimo em quase 75%, 76% de aumento real. 

A pessoa sabe, a pessoa sabe que ela ia no supermercado com carrinho, e elas traziam no tempo que eu era presidente, o sobro de comida que elas trazem hoje no carrinho, com o mesmo dinheiro. Porque não é possível a falta de controle, não é possível botijão de gás a R$ 120,00 a R$ 130,00, tem estado que chega a R$ 160,00. Não é possível o botijão de gás, durante todos os meus governos nunca aumentou na Petrobras. Ora, nós temos que tratar o gás como se fosse uma coisa da cesta básica, se o povo não tiver, se ele tiver dinheiro para comprar um quilo de feijão e não tiver dinheiro para comprar um tambor de gás, ele vai cozinhar no quê? Espiriteira? Eu tive fogão a querosene na minha casa, pegava fogo todo dia, eu tinha a minha irmã caçula, que agora ela tem 70 anos, que eu via a hora da coitadinha morrer do fogo que pegava dentro de casa. 

Então, a pessoa ter um botijão de gás é uma obrigação do Estado, é um dever do Estado fazer com que a pessoa tenha com o que acender o fogão para comer. Então, nós temos que tratar o povo evangélico assim, ele tem que saber que ele já foi bem melhor tratado, ele tem que saber que o presidente atual não acredita em Deus, ele é mentiroso até para isso. Olha os olhos dele quando ele fala em Deus, aquilo é uma peça eleitoral, aquilo ele tramou com alguns pastores e vai lá e fica gritando, quando na verdade o comportamento dele, o histórico da vida dele, a vida política dele, até a vida militar, ele foi expulso do Exército. Então, a vida dele não é condizente com um cristão, com um homem temente a Deus, com um homem que crê em Deus, não é. A história dele, da família dele, é o outro lado da história. Então é isso que nós vamos tentar conversar com o povo brasileiro, e aí eu quero conversar com católicos e com evangélico para mostrar que é possível tratá-los com mais decência, sem cometer o pecado de utilizar o nome de Deus em vão toda hora como ele fala. 

E ele fica mais religioso na época da eleição, ele fica mais religioso, ele fala mais o nome de Deus, ele dá mais dinheiro do MEC para alguns pastores. Aliás, eu não sei se vocês viram, o cara quer é ministro dele foi embarcar com uma arma e foi mexer na arma e a arma disparou no aeroporto, me parece que feriu alguém. Ou seja, sabe, na verdade nós estamos sendo governados por quem? Que tipo de gente chegou ao poder, que tipo de pensamento essa gente tem? Que só pensa em fazer o mal, só pensa em destruir, só pensa em desmatar, só pensa em queimar, só pensa em invadir a terra dos índios com os garimpeiros. Que história é essa? Que fala em arma dez vezes por dia e não fala em livro. Não fala a palavra educação. Então, eu acho que nós vamos ter que trabalhar. 

Ora, na questão da Paraíba nós temos um problema, primeiro esse é um bom problema, vamos dizer, o técnico da seleção ele tem um bom problema quando ele tem muito jogador bom, aí ele tem dificuldade de escalar. Eu na Paraíba eu estou feliz com a minha situação lá porque tem muita gente boa querendo trabalhar conosco, querendo fazer aliança… Nós, obviamente que eu não recuso voto. Não venha perguntar: ah, mas o cara voltou no Bolsonaro, mas o cara era malufista. Não, mas não tem problema, é eleitor? Tem título? Vai votar? De preferência vote em mim, eu vou ser melhor para ele do que qualquer outro, porque eu vou cuidar dele como ser humano, não vou olhar religião, não vou olhar o clube que ele torce. 

Então eu vou tentar na Paraíba, eu preciso ir na Paraíba, e eu vou conversar com todo mundo, eu não tenho veto a ninguém, quero conversar com as pessoas. Sou amigo da vice-governadora, conheço menos o governador, mas ele entrou no PSB, sou amigo do Veneziano, tenho muitos amigos no PMDB. Sou muito amigo do Ricardo Coutinho, então eu quero chegar lá e fazer uma conversa com todo mundo, e se for preciso pedir apoio para todo mundo, eu peço apoio para todo mundo porque no processo eleitoral o que importa é a gente ganhar as eleições. Mas isso não é problema não, e pode ficar certo que nós vamos continuar tratando o Nordeste com um respeito extraordinário, e vamos ter que mostrar para o povo brasileiro, pelo amor de Deus, presta atenção no deputado que você vai votar. Veja se esse deputado tem compromisso com você, faça um documento e peça para esse deputado assinar, para ver se ele se compromete. Porque é assim que a gente melhora o voto, é assim que a gente pode fazer com que a gente mude a correlação de forças nesse Brasil. É isso João.

Mariana Torquato (canal ‘Vai uma Mãozinha Aí?’)

Bom dia a todos, primeiramente quero agradecer essa oportunidade, infelizmente eu não pude estar aí presencialmente, mas gravei o meu videozinho, como boa youtuber. Que aliás, para quem não me conhece eu sou a Mariana Torquato, eu comecei em 2016, criei um canal chamado ‘Vai uma Mãozinha Aí?’, e acabou que deu certo e hoje me faz estar aqui, entendeu, como uma comunicadora e ativista das pessoas da causa das pessoas com deficiência. Então, eu quero agradecer a oportunidade de estar aqui e de representar essa comunidade nessa conversa que a gente está tendo, e agradecer também, principalmente, ao senhor presidente Lula, muito, muito obrigado por estar aqui no local de escuta e também num local de resposta, num local de debate. 

Então, eu sei que o tempo é curto, então vou lá. Primeiro eu queria entender como que o senhor enxerga a LBI e a regulamentação da LBI, de artigos essenciais que ainda não foram regulamentados, ou foram parcialmente regulamentados. Como que a gente enxerga a fiscalização da LBI, que é uma lei tão complexa, que pega desde seguro de carro, desde hotel, desde como a gente vai avaliar a deficiência. Então essa é uma questão que eu gostaria muito que o senhor falasse um pouco, sobre a avaliação biopsicossocial e a regulamentação e as coisas que estão acontecendo, que aconteceram nesse governo atual, que está prestes a regulamentar um documento que foi feito parece que às portas fechadas. E a gente sabe que existe muito interesse econômico em dizer quem é pessoa com deficiência ou não. Também existe um interesse médico da parte da saúde, enfim, o senhor sabe mais do que eu e eu queria que o senhor elaborasse um pouquinho mais sobre isso. E como que você vê o futuro, já que foi tão difícil aprovar essa lei em 2015, em 2022 a gente vê que ainda é difícil regulamentar coisas essenciais que estão nela, e também fiscalizar. 

Mas já quero aproveitar também e fazer uma segunda pergunta, eu sei, o tempo é curto, mas eu queria entender também sobre, relação assim, a acessibilidade cultural, que é um tema que infelizmente ainda é muito esquecido dentro do debate público, mas a gente ainda não tem acesso à cultura, quando a gente fala de pessoas com deficiência. E infelizmente temos leis lindas e maravilhosas que dizem que a gente tem direitos, mas a gente tem nenhuma fiscalização ou pouca fiscalização, a gente não tem para quem recorrer, pessoas que não sabem das leis, pessoas que não se importam com as leis. E eu queria entender como que o plano de governo do senhor aborda pessoas com deficiência, se a gente tem alguma forma de campanha, de conscientização, que nós podemos fazer para que as pessoas entendam de uma vez que pessoas com deficiência merecem respeito, merecem trabalho, merecem tudo, merecem ser humanos, não é. Muito obrigada.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Mariana, primeiro é um prazer imenso poder ouvir você querida. E eu vou criar também um blog dizendo ‘quer um dedinho aí’? E aí eu vou competir com você, Mariana. Olha, Mariana, eu queria que você prestasse atenção numa coisa, porque possivelmente, eu não sei se você sabe de tudo, me parece que como você é uma mulher muito politizada, muito bem informada, acho que você sabe de tudo. Mas nós tentamos no nosso governo fazer aquilo que nós sabíamos na época que era possível fazer. Eu trouxe até um caderno aqui, que eu vou tentar mostrar para ver se o Stuckert consegue pegar a capa aqui, chamada ‘Democracia Participativa’. Eu queria chamar a atenção das pessoas que estão nos assistindo pela internet, que essa aqui foi uma forma democrática que nós encontramos de elaborar políticas públicas no Brasil. 

Já que a gente não tinha condições de fazer o orçamento participativo, que é uma coisa que nós vamos tentar fazer agora como forma de acabar com o orçamento secreto, é tentar criar um jeito da sociedade poder participar do orçamento participativo. É uma tarefa difícil porque o Brasil tem 215 milhões de habitantes, são muitos estados e muita gente espalhada, mas nós vamos ter que encontrar um jeito de fazer um orçamento participativo. Para quem não sabe o orçamento participativo foi uma revolução criada pelo PT a partir de 82, que fazia o povo participar da elaboração do orçamento da prefeitura, era o povo que dizia o que ele queria. Se ele queria uma rua, se ele queria uma escola, se ele queria uma praça, se ele queria uma creche, ou seja, essa foi uma revolução extraordinária que a ONU inclusive adotou o orçamento participativo como modelo para os países em desenvolvimento. 

Nós não conseguimos criar no primeiro período do nosso governo, nós criamos então a chamada democracia participativa. O que era isso Mariana? A gente conseguia fazer conferências municipais, conferências estaduais e depois culminava em uma conferência nacional em que os vários setores da sociedade diziam como e o que queriam que a gente fizesse. E foi assim na questão da Política Nacional da Saúde da Pessoa com Deficiência, em 2003, foi assim na Política Nacional de Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclusiva, em 2007, foi assim no Programa Brasileiro de Acessibilidade Urbana, em 2008, foi assim no Programa Turismo Acessível, em 2009, foi assim na criação da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, em 2010, foi assim no Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Viver sem Limite, em 2011, integrava todas as políticas federais relacionadas, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Estatuto da Pessoa com Deficiência, estabeleceu cotas para que o empresas, para que as pessoas fossem contratadas em todas as empresas com mais de 100 empregados, 954 mil moradias acessíveis pelo Minha Casa Minha Vida, crescimento de matrícula de pessoas com deficiência na educação básica foi de 24% em 2003 para 82% em 2016. E na educação superior as matrículas cresceram de 5.078 matrículas para 33.475 matrículas. Isso é apenas uma demonstração do que é possível você fazer para que a gente possa cuidar das pessoas com cuidados especiais. 

E tudo o que foi aqui, não foi uma decisão do governo, o Lula queria isso ou a Dilma queria isso, ou o Franklin queria isso, não, o Aloísio Mercadante, não. Isso aqui foi resultado das conferências que nós fizemos com as pessoas com deficiência nesse país, que permitiu a gente colocar em prática grande parte das reivindicações que a sociedade queria. Obviamente que ainda deve ter muita coisa para fazer, muita coisa para fazer, mas eu acho que nós já temos um bom legado para discutir com a sociedade brasileira. E eu espero que mais gente como você, Mariana, possam ajudar, possam participar, possam debater, para que a gente possa, quem sabe, se não chegarmos a perfeição, chegarmos perto da perfeição para cuidar das pessoas que mais precisam que a gente cuide. Porque são pessoas com algum problema que exigem que a gente utilize a palavra cuidar e não a palavra governar. E eu tenho certeza que nós vamos cuidar inclusive com muita força para gerar oportunidade de trabalho para essas pessoas. As pessoas se iludem que quem tem uma deficiência qualquer está precisando de favor. Não. A pessoa quer oportunidade para se desenvolver, para trabalhar, para ganhar o seu sustento, sem precisar de esmola de governo. E isso nós vamos tentar fazer, Mariana. E eu espero contar com a sua participação efetiva para que a gente faça mais conferência, que a gente colha mais reivindicações, e que a gente possa colocar em prática as coisas que vocês pensam.

Nina Fidélis (do Brasil de Fato):

Bem, bom dia presidente. É uma satisfação imensa poder representar todo o Brasil de Fato aqui, obrigado aos colegas e colegas também. Muito importante que o senhor receba a gente. Eu tenho só cinco perguntinhas básicas, tá? Não, é brincadeira, presidente, eu vou ser sucinta. A gente não precisa ir muito longe para saber a alta expectativa que todo o campo da esquerda tem com uma possível candidatura do senhor. E por N razões, eu acho. Eu acho que tem um acúmulo aí de razões. Seja porque o senhor ficou… e acho que ela divide também um pouco a opinião dessa mesma esquerda, por sinalizações que o senhor vem dando. Algumas delas, eu acho que muitos acreditam que um governo de 2023, um possível governo de 2023, vai ser muito mais à esquerda do que foram os anteriores, e isso por conta de algumas sinalizações. 

Eu poderia citar algumas, como colocar o debate do aborto como questão de saúde pública, que a gente sabe que é um tema muito caro. O fato de colocar na mesa, como o senhor falou, a questão das grandes fortunas no Brasil, a distribuição de renda indo além do acesso, e do acesso à políticas, mas também de questionar essas grandes fortunas. E o fato do senhor ter ficado preso injustamente e isso ter talvez te tornando mais anti-imperialista, como diz o Fernando Morais. Por outro lado, outras sinalizações, e eu vou colocar em especial o peso que tem a presença do Geraldo Alckmin como vice. Isso também tem uma outra sinalização, que fazem parte dessa mesma esquerda pensar um pouco o contrário, dar uma equilibrada nessa balança. Mas eu queria saber do senhor como o senhor pretende posicionar esse trânsito de políticas e de posicionamento ideológico num possível governo, e se essas composições mais amplas, essas alianças mais amplas, podem afetar ou impactar pautas que custam caro à esquerda e também aos governos e gestões petistas. Mesmo depois de alguns anos há algumas críticas com relação a não ter avançado em alguns temas. Mas eu não poderia deixar, eu não termino aqui, mas não são cinco, presidente, essa é a minha primeira pergunta. 

A segunda seria um pouco sobre a comunicação. Eu não posso deixar de citar comunicação. A gente, quando olha a América Latina e o mundo, a gente consegue observar vários golpes midiáticos contra democracias. E o quanto alguns desses países reagiram mais radicalmente, democratizando, estatizando comunicação, e outros não. Olhando para essas experiências e também para o impacto das fake news em eleições, que foi o caso que a gente viveu em 2018 muito fortemente, a campanha do ódio, fake news, em como essa comunicação impacta muito a decisão nas urnas. E o senhor tem mencionado a regulação dos meios de comunicação. A gente também sabe que é um tema que a oposição utiliza sobre a narrativa da censura, do autocontrole muito fortemente, mas é um tema que eu acredito que o senhor vai encarar. Qual o peso estratégico que a comunicação vai ter num possível governo, e também como isto abre uma discussão sobre comunicação da sua maneira mais ampla, e no diálogo com a periferia, no diálogo com o povo? Que eu acho que também o senhor tem mencionado, no encontro da CUT disse muito bem, com relação a como é que a gente consegue dialogar sobre as pautas importantes com uma população da periferia com a classe trabalhadora? Obrigado.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Nina, necessariamente eu não tenho que ser um presidente mais à esquerda ou mais à direita ou mais ao centro, eu tenho que ser presidente. Eu tenho que conhecer a realidade desse país, de saber o que pode ser feito pelo país. Se eu sentar com você e você tiver conhecimento de tudo o que foi feito no nosso governo, você não vai acreditar que foi possível fazer tudo o que nós fizemos sem dar um único tiro, sem prender uma única pessoa. O que é preciso é você construir as condições para você fazer as coisas. Porque quando você está numa reunião, como o grupo aqui dessa sala ou com mil pessoas, você faz um discurso para aquelas mil pessoas. Mas quando abrir aquela porta tem outras mil pessoas que não pensam igual aquelas que estavam com você. E aí você vai ter que dizer, aquelas pessoas vão ser minhas inimigas ou eu vou tentar convencê-las a ficar próxima para que a gente possa concluir, construir um acordo? 

Essa é a importância da governabilidade. Eu sempre conto um exemplo, a Frente Farabundo Martí, passou dezenas de anos fazendo guerra em El Salvador, e a Frente Farabundo Martí ganhou as eleições de El Salvador. Com quatro anos perderam para a direita, porque a arte de governar é diferente da arte de reivindicar. Quando você ganha você precisa colocar em prática aquilo que você falou. Então, você tem que falar o que é possível com muita maturidade, com muita coerência, para que você não se engane. Porque quando você fizer cinco discursos mentirosos você passa a ficar desacreditado. Então, é preciso ter muita consciência de que o governante, ele não pode perder credibilidade durante a sociedade, mesmo que tenha uma coisa dura ele tem que ter direito de fazer, e tem que ter o direito de falar para o povo, senão a gente não consegue governar. 

Veja, eu estava dizendo na pergunta anterior que nós estamos com um problema no Brasil que é reconstruir instituições que estavam funcionando. Você acha que é normal a briga entre o presidente e a Suprema Corte? Não é normal, algo está errado. Algo está errado. O ministro da Suprema Corte e o presidente da República não tem que ficar trocando farpas. Ou seja, a Suprema Corte julga e o presidente governa. E cada um cumpra com a sua função. É isso que nós temos que recuperar para esse país, é as pessoas saberem que elas têm direitos e têm deveres, e que nós temos que respeitar. Ora, o cuidado que nós tivemos de diminuir o desmatamento em 80% nesse país, depois da COP 15, em Copenhagen, sabe, que foi destruída agora, voltaram a queimar mais 80% da Mata Atlântica em nome do quê? De produzir o quê? De vender o quê? Invadir a terra dos índios para quê? Então, se você não construir uma maioria que te garanta a governança e que te garanta construir instituições para que a gente possa fazer aquilo acontecer, a gente não consegue. A gente não consegue. 

Não foi fácil criar o Instituto Chico Mendes, porque tinha tanta gente contra quanto a favor, e aí é o trabalho de você conversar, conversar, conversar, discutir e mediar uma coisa que seja aceita pelas pessoas. Então, eu quero te dizer que nós vamos fazer mais, não é porque vou ser mais da esquerda, é porque eu tenho que fazer mais do que eu já fiz. E eu acho que a gente pode fazer mais. E eu quero convencer as pessoas de que é necessário fazer mais para que esse país melhore. Nós precisamos convencer a sociedade brasileira que nós não precisamos ter ninguém dormindo na sarjeta, embaixo de uma ponte. A gente tem que convencer a sociedade brasileira que isso não é bom para a classe média, isso não é bom para o povo mais rico. Porque eu tenho dito, com muita simplicidade, sem bravata, a solução para a gente começar a melhorar o país é a gente dizer em alto e bom som: a mágica está no seguinte, a gente incluir o povo pobre e trabalhador no orçamento da União e a gente incluir o povo rico no imposto de renda. 

Porque quando eles estiverem pagando imposto de renda justo, de acordo com o que eles ganham, pagando imposto de renda sobre lucros e dividendos, a gente pode ter mais recursos para aplicar e mais políticas públicas, mais políticas sociais, mais políticas de investimento em educação e saúde, e a gente pode melhorar a vida das pessoas. Agora, isso é um processo em construção. Se você fizer bravata e mandar para o Congresso Nacional, e não tiver maioria, você não aprova. E uma vez perdida só resta chorar. Você veja que eles tiraram a CPMF do meu governo porque faltou um voto para nós, a gente ganhou, mas faltou um voto. Com um voto eu perdi 47 bilhões de reais por ano. Imagina a quantidade em quatro anos de dinheiro que deixou de entrar para aplicar na Saúde porque eles quiseram se vingar de mim e achar que eu deveria ser derrotado. Eles se esqueceram que eles poderiam governar o país depois, que eles poderiam governar o Estado, e aí ia sentir falta do dinheiro para a Educação, como estão sentindo hoje. 

Então, eu estou convencido de que nós vamos fazer mais e melhor. Estou convencido de que a gente vai fazer as coisas acontecerem com mais rapidez, com mais disposição. Por isso que nós temos que enfrentar a sociedade. E aí a minha aliança com o Alckmin. Veja, eu não sou candidato pela primeira vez, eu já fui candidato em 89, 94, 98, 2002, 2006, depois foi a Dilma 2010, 2014, depois Haddad 2018. Desde 89 a gente é segundo ou primeiro. A gente é segundo ou primeiro. Vamos ver agora, sabe, os meus adversários não contavam que depois da destruição que eles tentaram fazer em cima do PT, em cima da esquerda, em cima de mim pessoalmente, depois de me colocarem 580 dias na Polícia Federal, eles não imaginavam que eu estivesse aqui agora. Eles não imaginavam que eu estivesse bom, bonito, com muita disposição de brigar, e com muita disposição de vencer, e ainda casar. Casar. Enquanto o Moro está de mau humor por aí e ninguém quer ele para deputado, ninguém quer ele para governador, sabe, é a vingança. É a vingança dos deuses. Quem faz aqui na terra paga aqui na terra. E quem tem crença e fé como eu sempre vai vencer. 

Então, veja, eu acho que nós temos que fazer mais, eu quero gerar mais emprego. Como é que a gente vai gerar mais emprego? Nós não vamos gerar mais emprego como a gente gerava nos anos 80, porque a política industrial brasileira, que tinha 30% do PIB Nacional, só tem 11 hoje. Uma indústria como a Volkswagen, que no meu tempo de metalúrgico tinha 44 mil trabalhadores, só tem 7 mil hoje. A Ford foi embora, a Toyota mudou não sei para onde, ou seja, onde é que a gente vai? Eu quero que vocês ajudem, qual é o novo mercado de trabalho? Vocês que são jovens, que são blogueiros, que são internautas, que vivem disso, aonde é que a gente vai arrumar emprego? Qual é o emprego que nós vamos oferecer para a juventude que a gente diz que tinha que estudar para vencer na vida? A gente quer qualificá-los melhor. 

Por isso a Educação, a gente quer dar a eles uma mão de obra altamente qualificada para eles terem cada vez mais condições de serem mais bem pagos no seu emprego. Mas que emprego? Que emprego? Trabalhar com uma bicicleta no iFood? Trabalhar com uma moto na rua correndo risco de morrer? Nós precisamos pensar que emprego. Aí entrou uma coisa que vocês vão ter que trabalhar, vocês, não eu, nós precisamos definir concretamente que nós precisamos ter uma forte política em defesa do empreendedorismo nesse país. O empreendedor não pode ser o cara da motocicleta que não tem direito, que não tem salário, que não tem patrão, o empreendedor pode ser um cara que tenha no Estado uma política de crédito que garante a ele o seu empreendimento. O Estado tem que dar oportunidade, o cara quer montar uma loja, o cara quer montar uma pizzaria, o cara quer montar um restaurante, o cara quer montar uma fabriquinha para produzir alguma coisa, o cara quer fabricar roupa, nós temos que criar condições para as pessoas terem isso. Nós temos que facilitar, tem que ter crédito. 

Eu, por exemplo, quero, estou maturando aqui, que é o seguinte, eu acho que o BNDES terá que mudar de função, Brito, o BNDES não pode ser um banco para emprestar dinheiro apenas para as grandes empresas. O BNDES precisa ser um banco que tem uma carteira especial para pequenos e médios empresários. Porque os grandes, muitas vezes, se precisar de dinheiro, vão pegar em dólar, é mais barato às vezes. Então, o que nós precisamos é saber que tipo de atividade econômica a gente vai fomentar no país para gerar emprego para uma menina que terminou a universidade, sonhou em fazer Direito, sonhou em fazer Psicologia, sonhou em fazer Medicina e ela quer ter uma coisa dela para trabalhar e não tem dinheiro. Nós precisamos pensar como a gente vai criar um novo mercado de trabalho para essas pessoas. 

E não é o presidente que tem que saber, quem tem que saber é a sociedade, e nós vamos consultar, nós vamos pegar os empresários, vamos pegar os trabalhadores, vamos pegar o movimento estudantil, o movimento social, vamos pegar as universidades e vamos colocar num ambiente: gente, olha, o tema aqui é gerar empregos, gerar oportunidades, e nós queremos saber o que a gente pode criar, o que a gente pode fomentar, o que a gente pode incentivar. Porque quando você oferece a universidade, oferece a escola, você está dando a primeira chance. Mas depois com o diploma na mão o que eu vou fazer? Aí você tem que dar a segunda chance. E aí possivelmente a segunda chance seja o crescimento do país como um todo, o crescimento econômico, e seja você criar linhas de financiamento para centenas ou milhares de pessoas fazerem as coisas que eles acreditam fazer. 

Então, esse é um desafio, os sem-terra, por exemplo, tem uma coisa extraordinária que a sociedade brasileira precisa conhecer, nessa crise da pandemia os sem-terra deram um salto de qualidade extraordinário na produção, na condução de cooperativas, e na comercialização. O Brasil inteiro não sabe que lá no Rio Grande do Sul o MST, por exemplo, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Eles não sabem. Porque todo mundo pega a imagem dos sem-terra só de invadir, não pega a imagem dos sem-terra de produzir, e agora com mais sabedoria de comercializar, com muito mais inteligência. Ou seja, estão percebendo que nós temos que produzir, como que era? Ocupar, resistir e produzir. Agora é ocupar, resistir, produzir e vender, comercializar, e ganhar dinheiro, porque é isso que todo mundo necessita, ganhar um pouco de dinheiro para viver bem, para comprar as coisas, para comprar televisão para a casa, para comprar um rádio, para comprar um motor para puxar água de bomba, para comprar um liquidificador para fazer um suquinho com as laranjas que ele… 

Sabe, é isso que o povo quer. Eu trabalho com a ideia, se tem uma coisa que o povo quer é viver bem. Todo ser humano gosta de se vestir bem, gosta de comer bem, gosta de dormir bem, gosta de ter acesso a todos os bens materiais que ele produz. O papel do Estado é garantir que as pessoas tenham. Ora, por que eu produzo geladeira e não tenho geladeira? Por que eu produzo um carro e não tenho carro? Por que eu produzo um computador e não tenho computador? Não, ele tem direito de ter. E isso não é luxo não, isso é uma necessidade de tornar a sociedade mais igualitária, mais equânime. Porque senão somente os que podem comprar um celular aí por 7, 8 mil reais, esse bicho que até fala, ou seja, eu não tenho celular, por isso que eu estou falando isso. 

Se a gente permitir, por exemplo, levar a internet com banda larga para esse país inteiro. A gente não tem dimensão da revolução que isso pode significar. De repente está o sertanejo lá no meio do mato ouvindo o grilo cantar, aí chega a internet, aí ele pega um celular, aí ele pega um computador, quem sabe o que esse cara vai ser? Então é isso que o governo tem que fazer, não ficar só vai ter internet boa no lugar mais nobre, no lugar mais rico. Não, nós temos que garantir que todos. É uma vergonha, Nina, que nós em 2021, as crianças voltaram à escola e nós temos as crianças agora mais distanciadas umas das outras. As crianças de família mais afortunadas, essas crianças não sofreram prejuízo com a pandemia, porque estudaram em casa. E os filhos dos pobres que não puderam ter computador em casa, que não tiveram condições? Estão dois anos mais atrasados. Por que os governos não distribuíram computador? Quanto custava comprar um computador para cada criança que estudava? Mas isso não foi feito. Então, as crianças estão voltando para a aula agora menos informadas do que estavam há dois anos atrás. Essa é uma tarefa que nós vamos ter, de recuperar a capacidade dessas crianças no ensino fundamental. E também no ensino médio, é fundamental, e esse é um trabalho duro, esse é um trabalho duro que a gente vai ter que fazer. E por isso que eu acho que nós vamos ter que fazer mais. 

Eu, Nina, eu falo o seguinte, olha, eu vou ter que em quatro anos trabalhar mais do que eu trabalhei nos oito. Eu vou andar esse país, eu vou correr esse país, eu vou fazer as conferências, nós vamos decidir as coisas, nós temos que convencer o Congresso, temos que votar no Congresso, e tudo isso só é feito se houver harmonia, se as pessoas acreditarem que você está fazendo bem para o país, que não há discriminação, que você não pode gostar de alguém e ter ódio de alguém. Eu não tenho ódio de ninguém, eu acho que a gente pode ter adversário, mas não precisa ter inimigo. Ninguém é obrigado a gostar de mim, ninguém é obrigado, mas as pessoas são obrigadas a respeitar aquilo que está acontecendo em benefício de todos no país. 

Por isso que eu acho que o Bolsonaro foi estúpido quando fez essa decisão que ele tomou, essa graça que ele fez, que ele acha que é graça mesmo, não graça no sentido do benefício jurídico, mas a graça do ponto de vista de sorrir. Eu acho que ele foi medíocre, apesar que essa é uma discussão que eu nem comentei nada porque tudo que ele queria era o que aconteceu, ele abafou o carnaval, ele fez isso na quinta-feira, ficou quinta, sexta, sábado, domingo, segunda e terça no auge do noticiário. Porque tudo que ele quer é que ele permaneça no noticiário. Ele não tem nenhum interesse se é coisa boa ou ruim, do jeito que ele é pode ser ruim que ele gosta assim mesmo. Então companheiros, nós vamos ter muito, mas muita tarefa, Nina, muita tarefa. Você sabe o que é refazer? Você deixa uma casa, você volta 12 anos depois na casa que você deixou e tudo aquilo que você pensou que ia estar melhor está pior, e você vai ter que fazer essa reforma profunda para que as instituições volte a funcionar, para que o país volte a ser respeitado, para que a gente possa começar a receber outra vez dinheiro para investimento direto, que é o que vai ajudar esse país a crescer. E nós vamos ter que apresentar um plano muito grande de obra de infraestrutura, e a gente não pode esperar. Por isso é que vai ter muita coisa nova, como você é muito nova, você vai ver acontecer. 

Talita Galli (TVT):

Oi pessoal, é um prazer estar aqui, é uma honra estar aqui podendo estabelecer essa conversa com o presidente Lula, e na presença de vocês. Eu quero muito ouvir o pessoal que atua nas redes, inclusive, acho que eles trazem um olhar super bacana e interessante. Bom, eu quero tentar pegar alguns ganchos do que foi dito assim, em duas perguntinhas, está bom? A primeira é em relação ao processo eleitoral, já pegando o gancho da Nina. Eu quero inclusive trazer algumas falas, Lula, que o senhor fez agora nesses últimos dias, você foi em Salvador, e licença para chamar de você, sempre que eu falo senhor eu acabo levando bronca dos entrevistados. O senhor foi em Salvador e disse assim, olha: eu não estou pedindo voto, eu estou dizendo que vamos ganhar e vamos ganhar democraticamente. Daí num outro momento, agora, há duas semanas, o senhor disse: eu estou acostumado a participar de eleições, eu não me encanto com pesquisas, eu tenho um trabalho a fazer, a campanha está começando. Terminou ainda mais cauteloso dizendo assim: olha, temos condições de vencer e voltar a governar esse país. E você começou agora a nossa conversa dizendo que espera que essa campanha, vai ser de baixo nível por parte do governo. 

Então, eu queria saber o que te leva a mudar de convicção, o que te leva a mudar esse comportamento de numa hora ter certeza que essa eleição realmente está ganha, ou esse processo eleitoral, como as pesquisas têm mostrado, que você está à frente de fato, e em alguns outros momentos você age com mais cautela, troca essa certeza por convicção. É por conta de talvez um temor em relação ao que essa campanha pode trazer, ao que a campanha do governo pode trazer? Então quero eu te ouvir em relação a esse processo eleitoral, se há temores, tem essa questão de segurança, que muita gente tem trazido à tona? Eu quero te ouvir sobre campanha e o que você espera. 2018 teve muito fake news, você citou fake news agora, como lembrou a Nina, quero te ouvir sobre esse processo eleitoral. 

E uma segunda perguntinha é, você falou sobre Milton Ribeiro. Teve esse episódio da arma que ele acabou disparando ali. É um pastor, você respondia a pergunta do colega sobre evangélicos, ele é um pastor que anda ali com uma arma na pasta. E daí eu trago um outro Ribeiro, que é o Ribeiro que foi assassinado ontem lá na comunidade do Jacarezinho, um garoto de 18 anos, negro, pobre, foi assassinado pela Polícia Militar, e eu queria refletir sobre essa questão do combate ao racismo, sobre a promoção de políticas de igualdade racial. O seu governo, o da Dilma, tiveram Secretarias que pensavam nesse sentido, isso tudo foi destruído nesses últimos tempos. Então, eu queria ouvir o que você pensa em relação ao seu governo, ao seu futuro governo em relação ao combate ao racismo, porque esses casos não são isolados, a gente sabe, toda semana pelo menos um a gente dá de morte de jovem negro, de periferia, com Polícia Militar envolvida. Então, são essas duas questões. Obrigada.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Olha, o fato de você ter visão diferente sobre tal ou qual momento eleitoral isso não significa que você está mudando de convicção, você está mudando de opinião em função da realidade eleitoral. Veja, eu só posso dizer com, categoricamente, que eu sou candidato a presidente da República a partir do dia 07, quando for oficializado a minha candidatura à presidência, do Alckmin vice, pelos partidos que compõem a Frente Brasil Popular. Nós vamos ter um ato, e esse ato vai dizer então o Lula está candidato. Aí eu poderei me colocar como pré-candidato, e só posso ser candidato oficialmente quando houver a convenção em junho. O dado concreto é que durante muito tempo as pessoas tentaram evitar que eu fosse candidato a presidente da República. Eu não pude ser candidato em 2018, quando era previsível pelas pesquisas de opinião pública que eu ganharia as eleições, mesmo estando detido na Polícia Federal. Bem, eu estou ciente de que nós temos todas as condições de ganhar as eleições. Quem diz isso não sou eu, as pesquisas dizem todo dia. Se vai ser no primeiro ou no segundo turno, eu nunca ganhei eleição no primeiro turno, eu sempre disputei dois turnos em todas as eleições, e eu não vejo problema nisso. Até porque o PT foi um dos partidos que brigou muito para que a gente tivesse dois turnos no Brasil. 

O que eu acho é que nós vamos ter uma eleição em que o atual presidente, ele tem o hábito de desacreditar nas instituições, ele não acredita em partido político. Porque para ele tanto faz, ele pode sair de um partido agora e ir para outro, ele não tem definição ideológica, ele é grosseiro, ele não tem definição, ele não sabe nem o que é comunismo. Ele, qualquer coisa que ele não goste, ele acha que é comunista. Então ele não sabe o que é comunismo. Ele está falando para uma base de miliciano dele, que a minha tristeza é saber que ainda tem tanta gente assim no Brasil, gente que é favorável a ditadura, gente que é favorável a tortura, gente que é contra investir em educação, gente que é conta investir em ciências e tecnologia, gente que é contra o povo melhorar. Ele é contra tudo, ele é contra, ele é contra tudo que é bom, tudo que é um sinal democrático, tudo que é sinal de avanço da sociedade ele não gosta. Ele tem um mundo próprio dele, que é o mundo muito, muito envolvido com miliciano, que é o que faz… então todas as bobagens que ele faz… Um presidente da República que não fala a palavra educação durante quatro anos e fala em liberar arma todo dia, faz apologia da liberação de arma. É uma coisa absurda. 

E por isso eu acho que nós vamos ganhar, porque eu acho que a sociedade majoritariamente está cansada, e ela quer a volta da democracia, porque é muito bom viver em paz. É muito bom viver em harmonia, é muito bom você poder entrar num restaurante e cumprimentar todo mundo, sem saber que lá dentro você tem um inimigo que pode vir te agredir, que é o que virou a política. E não é só brasileira não, você viu a quantidade de votos que Le Pen teve na França, você viu que o cara da Ucrânia está virando uma personalidade mundial. Às vezes eu vejo ele na televisão, a cara dele não é uma cara de quem está sofrendo com a morte do povo ucraniano, ele está virando personalidade, ele quer fazer discurso, então vai fazendo o discurso. 

Então, eu fico pensando, o Brasil não é assim, o Brasil, a nossa formação é uma formação de um povo alegre, nós não somos um povo violento, nós gostamos de música, nós gostamos de dança. Veja que maravilha foi o carnaval. Veja, veja o que foi feito no carnaval do Rio de Janeiro contra a perseguição à religião africana. Veja a defesa do povo negro que foi feito naquele carnaval, sabe. Um povo alegre, um povo bonito, um povo… é isso que é o povo brasileiro, e assim, o povo quer ter emprego, o povo quer ter moradia, o povo quer estudar, o povo quer ter lazer, mas o cara quer ter a tranquilidade de encontrar com os seus amigos, de fazer festa, de fazer… Coisa que está proibida nesse país por conta do ódio estabelecido pelo governo, e isso vem há muito tempo no Brasil. Então, nós vamos tentar restabelecer a harmonia. A harmonia, ou seja, a nossa bateria dirigida por 215 milhões de brasileiros vai voltar a funcionar harmonicamente, e o meu papel é apenas o de tentar ficar fazendo papel do maestro, para que não saia do ritmo e que toda a sociedade possa participar disso. Eu estou convencido disso. 

Eu acho que nós, Talita, tivemos muitos avanços no combate ao racismo nesse país, mas ainda estamos muito longe de vencer. Muito longe. São 350 anos de história, 350 anos de uma coisa que está encrustada na cabeça de uma parte da elite econômica e da elite política brasileira. Isso você não muda. Eu tentei mudar quando presidente para a gente colocar no ensino fundamental a história do povo africano, porque na verdade a história do povo africano é muito ligada à nossa. A gente não tinha a América Latina até 1940, era na verdade a África, você não contava a história do Brasil sem falar de Angola, sem falar de Moçambique, sem falar de São Tomé e Príncipe, sem falar de Cabo Verde, era uma ligação. Em 1800 e pouco o Brasil tinha muita gente da Nigéria. Então, eu acho que nós já vencemos muito, muito, muito, muito. Eu fico muito feliz quando você vê que os estudantes universitários, nós chegamos a ter 51% de negros e pardos nas universidades, o que foi um avanço excepcional. E a Secretaria da Igualdade Racial cumpriu um papel extraordinário. Eu fui, Talita, eu fui na Bahia, na Unilab entregar diploma para os nossos queridos estudantes negros que vieram da África para cá. É uma emoção muito grande. 

E é esse o papel que está destinado a um país como o Brasil, porque a dívida do Brasil com a África não será paga em dinheiro, ela não pode ser mensurada em dinheiro, ela tem que ser paga em solidariedade, em transferência de tecnologia. Por isso que nós fizemos a Universidade Aberta em Moçambique, a fábrica de remédio de antirretrovirais, levamos a Embrapa para Gana. A gente queria que a savana africana tivesse a mesma capacidade produtiva que tem o cerrado brasileiro, porque os africanos eles têm uma facilidade no comércio exterior com a África, com a Europa, e quem sabe eles pudessem produzir e vender muito mais. Isso não foi possível porque quando nós saímos do governo começaram a dizer que quem quisesse tecnologia pague. Ele não pode pagar. Então, nós vamos fazer, eu fiz 34 viagens à África, abri 19 embaixadas novas para mostrar a nossa relação com a África. Isso foi desmontado, e nós vamos ter que recuperar isso. 

A gente propôs que, eu quero que a história fique e que ela seja contada na nossa escola, as nossas crianças têm que aprender. Os caras não nasceram escravos, os caras foram feitos escravos, vieram para cá para construir a nossa cultura, para construir o nosso jeito de ser e, nós temos que levar isso em conta. Está difícil? Está. Mas já houve um avanço. Houve um avanço. Eu tenho participado de muitas reuniões, há conquistas extraordinárias. Eu fui essa semana no bairro de Heliópolis, ali você vê o que é avanço de organização da sociedade. Então, nós temos que fazer isso, ainda tem muito para fazer, mas nós vamos fazer. E eu espero que a gente consiga, e a gente não vai mudar isso se não tiver muito investimento na Educação. A formação cultural do nosso povo é que vai mudar a cabeça do nosso povo. Eu acredito nisso. E por isso eu acredito que nós vamos conquistar o direito de sermos tratados definitivamente com igualdade de condições, sem racismo, sem preconceito, sem ódio e sem raiva nenhuma.

Fernando Brito (blog Tijolaço):

Presidente, nós vamos nos aproximando das eleições com duas crises, entre elas, teve muito mais outras, duas crises que ocupam o posto de líderes e vice-líderes das manchetes do jornal. Uma é a crise, permanente crise institucional em que Jair Bolsonaro faz com que a discussão do país se volte para as decisões entre os desejos dele, entre as decisões do STF, entre a possibilidade dele avançar nos poderes legítimos que dispõe, e usurpar as funções do Supremo. E a outra menos visível, que é a crise econômica, nós estamos nos aproximando dos 12% de inflação. Nós agora perdermos o bônus cambial que estávamos tendo com a queda da moeda brasileira no controle dos preços dos artigos que tem o seu preço internacional vinculado ao comércio mundial, e, portanto, uma disparada maior ainda da inflação. 

O senhor, se assumir o governo, assumirá 20 anos depois de um quadro muito parecido com esse, onde o Brasil não tinha mais reservas internacionais praticamente, nós tínhamos uma inflação nesse mesmo nível de hoje, 12%. E naquela ocasião o senhor centrou as suas atividades na criação de sistema de transferência de renda. Foi o início do combate à fome e logo em seguida, da ampliação do Bolsa Família. Então, a minha pergunta basicamente é a seguinte: o senhor acredita que num novo governo será possível e necessário manter auxílio de transferência de renda para a população mais pobre? Em segundo lugar, o senhor acredita que é preciso criar um programa especial de mobilização do Estado no investimento em obras públicas, tanto na conclusão das que estiverem terminadas, quanto no lançamento, ou relançamento daquelas estratégias que foram paralisadas, como é o caso das refinarias? O senhor pretende adotar políticas como essa que o senhor mencionou em relação ao BNDES, favorecendo algum tipo de new deal brasileiro, de política anticíclica para aumentar o trabalho, a renda e a produção do Brasil, voltando a explorar melhor as nossas riquezas e potencialidades econômicas?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Brito, eu tenho dito que só existe uma verdadeira razão para eu estar disputando uma nova eleição presidencial, é a crença que eu tenho de que a gente pode consertar esse país. É a crença que eu tenho que a gente pode restabelecer a harmonia entre os entes federados. É a crença que eu tenho de que a gente pode restabelecer a harmonia na relação com o empresariado, na relação com os governantes de outros países importantes, é a crença que eu tenho de que a sociedade vai ajudar a reconstruir o país. Porque se não for para fazer isso não precisaria eu estar candidato. Se for para não poder fazer isso, é melhor eu não ser candidato. Eu tenho dito isso sempre. Eu tenho que voltar como uma missão, essa missão é provar que esse país pode voltar a crescer, a gente pode continuar fazendo política de transferência de renda, nós temos que gerar empregos de todas as formas possíveis, e só é possível gerar empregos se as pessoas tiverem poder de compra, poder de consumo. 

Então, o desafio é grande, o desafio é muito grande, eu tenho noção do desafio. Agora, olhe na cara dos políticos brasileiros, Brito, e veja quem é que pode fazer isso nesse instante. Quem é que tem credibilidade, quem é que tem histórico, quem é que tem legado para fazer essas coisas? Eu sei da minha responsabilidade, e vou fazer, Brito. Eu creio nisso como eu creio em Deus. A primeira coisa que eu vou fazer no mês de janeiro é reunir os 27 governadores para estabelecer com eles o que a gente vai fazer de obras de infraestrutura, e vamos ter que fazer. Nós vamos ter um grande programa de infraestrutura para que a gente possa pegar as obras que estão paralisadas, fazer com que essas obras sejam terminadas, e fazer as obras que precisam ser feitas. Nós vamos fazer isso. E concomitantemente nós vamos fazer reuniões com outros setores da sociedade para que a gente discuta o que fazer imediatamente, tudo na perspectiva de gerar empregos e gerar renda. Porque se a economia começar a crescer, se as pessoas começarem a ter credibilidade, se começarem a voltar o investimento externo, não investimento de venda de empresa estatal, mas investimento para construir aquilo que a gente não tem, fazer algo novo, a gente consegue recuperar a credibilidade logo e a gente vai conseguir fazer as coisas acontecerem. Eu estou convencido. 

Eu só espero que você não faça pergunta de onde é que você vai tirar dinheiro porque nem tudo em economia a gente pode falar com muita antecedência. Mas o dado concreto meu caro é o seguinte, olhe, ninguém nesse país, ninguém, pode falar que o PT não tem responsabilidade fiscal, pode falar que o PT não cuida das coisas como deveria cuidar. Eu só queria lembrar que essas pessoas que ainda tem dúvida, que Lula que vai voltar, será que o Lula de 2002, será o Lula de 2010? Não, é o Lula que o útero da dona Lindu colocou no mundo, igualzinho, com um pouco mais de maturidade, com um pouco mais de aprendizado, o Lula que vai voltar a governar esse país se ganhar as eleições. 

Dizendo só para as pessoas lembrarem, porque quando nós chegamos em 2003 no governo esse Brasil tinha 30 bilhões de dólares de dívidas do FMI, nós pagamos, e fizemos mais, fizemos uma reserva que hoje está em 370 bilhões de dólares que é o que tem salvo o Brasil desde que nós deixamos o governo. Eles falam que nós quebramos o Brasil, mas não dizem que nós deixamos 370 bilhões de dólares em caixa para dar a esse país a credibilidade que ele nunca teve. Eles não dizem que a gente tinha uma dívida pública de 65% no governo da Dilma, deixamos com 32% a dívida pública interna em 2014, eles não falam disso. Eles não falam que nós geramos nesse período 20 milhões de empregos com carteira profissional assinada. Tudo isso, com todas essas, nós somos o único país do G20, Brito, presta atenção, nós fomos o único país do G20 que cumprimos o superávit primário durante todo o período do nosso governo. 

Então não venham me falar em responsabilidade fiscal, que isso nós temos demais. E o que eles não falam é que nós fizemos tudo isso fazendo a maior política de inclusão social que esse país já conheceu. E eu quero repetir isso com mais força, porque nós já sabemos o caminho das pedras, ninguém vai precisar ficar com um facãozinho cortando a mata não para achar o caminho, porque nós já sabemos o caminho. Então, eu espero que você esteja forte e vivo para escrever grandes artigos no seu blog o que a gente vai fazer nesse país. O Tijolaço vai poder informar ao povo brasileiro finalmente o crescimento voltou, a distribuição de renda voltou, a alegria voltou nesse país. Pode ficar certo que eu tenho isso na cabeça e vou dizer logo, todo mundo sabe que eu sou contra o teto de gastos. 

Teto de gastos é uma questão de responsabilidade do governo, não é uma lei. A lei foi feita para garantir que o sistema financeiro receba a sua parte, e eu quero saber quando é que a gente vai fazer a lei para o povo receber a sua parte. Mas o Lula vai pegar o Banco Central, privatizar. Não tem problema. Não tem problema, no meu tempo o Banco Central era livre, o Meirelles teve total liberdade. O que eu quero é conversar com o presidente do Banco Central é o seguinte. A gente não pode mais continuar tendo apenas a responsabilidade de cumprir a meta da inflação aumentando juros. Eu acho que é importante a gente fazer um debate na sociedade brasileira e no Congresso Nacional, o mesmo Banco Central que pode estabelecer o teto da inflação, as metas da inflação, por que que a gente não coloca também para discutir o teto do crescimento, as metas do crescimento, as metas da geração de emprego? Porque dá impressão que só uma coisa tem necessidade. E a necessidade da gente estabelecer uma meta de crescimento? 

Nós vamos, eu estou com muita sede para fazer as coisas acontecerem nesse país. Eu quando fui eleito a primeira vez a minha vontade de fazer era que eu dizia, eu não posso errar porque eu tenho que provar que o metalúrgico é capaz de fazer mais do que uma parte da elite fez nesse país. E agora a minha sede é maior, eu quero provar que quem fez o que nós fizemos de 2003 a 2014, nós vamos fazer muito mais de 2023 a 2026. Pode ficar certo disso. Sabe, o doutor Ulysses Guimarães costumava dizer: Lula, em economia você não pode dizer tudo o que você vai fazer porque senão você não faz. Mas nós temos como fazer. E esse povo, esse povo não vai se arrepender de acreditar outra vez na democracia, porque a democracia vai restabelecer a dignidade da vida dele nesse país. Muita democracia, muita democracia, muito respeito às instituições, muita conversa com toda a sociedade brasileira. Vou recriar o Conselho, mas vou criar os outros Conselhos, por exemplo, vamos criar um Conselho de Cultura. 

As pessoas têm que aprender, Brito, que a cultura é uma fonte de geração de empregos que não tem limite. A cultura é uma fonte de criar empregos e de gerar renda extraordinária. Cada show que você faça, por menor que seja, envolve um monte de gente, desde o cara que vai colocar o carpete, o cara que vai fazer o tablado, o cara que vai montar o som, o cara que vai tocar guitarra, o cara que vai tocar violão, o cara que vai arrumar a luz, o cara que vai desligar, sabe, é uma infinidade de empregos que a gente pode gerar. Por que não fazer grandes investimentos na cultura? Por que não colocar esse país em efervescência na parte cultural? Essa é uma coisa que eu quero fazer com muita força, convocar as pessoas ligadas à cultura nesse país para a gente fazer um mutirão. Ou seja, é proibido proibir, o lema é esse, em se tratando de cultura é proibido proibir. Nós temos que fazer daqui para frente o que a gente não fez para trás. E temos que envolver os artistas, temos que envolver todas as pessoas que lidam com a cultura direta e indiretamente, para a gente fazer uma pequena revolução nesse país. E é através da cultura que a gente vai também ajudar a consertar o nosso país.

Carlito Neto (do canal de Youtube “O Historiador”):

Pois bem, bom dia os colegas que estão aqui. É um prazer estar falando com o senhor, presidente. Venho lá de Sergipe, de longe. Como diria inclusive o ex-governador Marcelo Déda, vou falar olhando nos seus olhos, porque eu sou fruto do que foi o governo do PT. Eu sou historiador, especializado em Ciência Política, sou nordestino com muito orgulho, e na minha fala de início eu quero dizer que nós não somos acessórios e nem nunca fomos acessórios de nenhum governo. Tem gente que costuma usar a gestão do senhor para alegar que o PT explorava a pobreza do Nordeste. E era justamente o oposto, foi graças aos programas sociais que o PT implantou lá, que eu, por exemplo, consegui ascender social, política e economicamente também. Porque o que a gente sempre quis foi uma oportunidade, e sempre nos foi negada por diversos critérios, mesmo crescendo 14% ao ano em comparação a outras regiões do Brasil, mesmo com o desenvolvimento econômico local, mesmo com todas as mazelas, a pobreza, a fome, a gente conseguia chegar lá. 

Então, queria agradecer ao senhor primeiro por isso, por mim e por todos os irmãos nordestinos que depois de comer durante muito tempo o pé de galinha, a carcaça de frango, acordar de manhã e tomar café com tapioca dentro do café, porque a gente não tinha às vezes o que comer, a gente viu a mudança quando o senhor chegou. Então, para quem está perguntando porque o nordestino gosta tanto do governo do PT, a pergunta talvez esteja sendo respondida agora. Porque foi a partir da gestão do PT que a gente parou de passar fome, foi a partir da gestão do PT que a gente passou a ter acesso aquilo que normalmente… (falha na transmissão)… .
….2001 a 2021, o Correio só deu prejuízo a partir do golpe, em 2013, 2014, 2015 e 2016. A Petrobras é algo similar, a Eletrobrás também. Então, o que é que o senhor tem feito junto com a sua equipe para tentar disseminar isso nas redes? Como é que vocês vão tentar aproximar o jovem desse Lula, que hoje os jovens aí de 2000, 2001, tem ódio às vezes por correspondência, não sabe quem foi, não sabe como foi o primeiro governo Lula, não sabe como foi o segundo governo Lula, mas sabe que o pai ou a mãe tem ódio do Lula, então em consequência ele tem. O que é que o senhor tem feito para essas coisas? 

E para finalizar, sobre o soft power brasileiro, o senhor citou há pouco a influência que o Brasil tinha em Cuba, na África, em vários países, através do financiamento de empresas brasileiras. O BNDES, por exemplo, foi o banco que fomentou o maior crescimento das empresas brasileiras através desses empréstimos, que diferente do que muita gente diz, não ia para outros países. Ao contrário, as empresas contratadas, em contrapartida, eram sempre empresas brasileiras. Então, o que que o senhor tem feito para tentar aproximar mais essas informações que a gente trouxe aqui, que são de domínio público, inclusive no próprio site do BNDES tem uma aba lá intitulada de ‘Fatos e Boatos’, e que lá tem todas as mentiras que levantam contra o senhor, contra a ex-presidente Dilma, no próprio site do governo, no site do BNDES. Está tudo lá. O que é que o senhor tem feito para tentar se aproximar mais desse jovem que não conhece o Lula, e que talvez não esteja conectado ainda com o Lula?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Querido Carlito, primeiro eu vou dizer uma frase que o Brizola me dizia muitas vezes em nossas conversas. O Brizola de vez em quando dizia assim para mim: Lula, Deus foi muito generoso comigo, porque ter a infância que eu tive e chegar aonde eu cheguei, só pode ter a ajuda de Deus. Eu te falo a mesma coisa, sair da onde eu saí, chegar aonde eu cheguei, construir o partido que eu criei, ajudar a construir tanto outros movimentos sociais, do movimento sindical, e chegar à presidência da República, é uma obra que transcende a minha capacidade. Eu, obviamente, devo muito isso ao povo brasileiro, aos trabalhadores, aos petistas, ao pessoal de movimento social, que agarrou a ideia de que era possível a gente ganhar as eleições e chegar à presidência, e eu cheguei aonde eu cheguei. Conversar com a juventude é o menos problemático porque a juventude ainda não tem o preconceito arraigado que tem as pessoas mais velhas. A juventude ela está sempre com mais crítica, que é o papel dela, porque se o cara não for crítico, não for revolucionário aos 17, 18, aos 20 anos, ele vai ser quando? Então, a gente tem que ter paciência em saber que ele está extravasando a força de testosterona que ele tem para gastar no planeta Terra. Temos que ter paciência e temos que tentar levar para ele as informações necessárias. 

Veja, todos nós somos vítimas das narrativas que são contadas. Eu não sei se você percebeu, desde que os Estados Unidos perdeu a guerra do Vietnã, porque a narrativa derrotou a guerra, o povo americano se revoltou contra a guerra e o general Giap conseguiu fazer com que os americanos saíssem de lá com 500 mil soldados, porque o povo americano não queria aquela guerra. Desde a guerra do Vietnã os americanos aprenderam a construir narrativas sobre a guerra. Então eles constroem a narrativa, primeiro você é o inimigo, você é um monstro, você é um terrorista, você é não sei das quantas. Aí vai criando durante meses a imagem de que você é o demônio, e depois então propõe atacar e matar você para acabar com o mal. É assim, aqui no Brasil também é assim, as narrativas que foram construídas contra nós ao longo da existência do PT é muito grande. Eu nem gosto de falar isso, mas quando nós criamos o PT eu passei anos tendo que explicar porque a nossa bandeira era vermelha. Depois quando eu expliquei que o meu sangue era vermelho e que o sangue dele era vermelho, que a bandeira representava o nosso sangue, eu tive que passar mais anos explicando porque a estrela, eu tive que passar explicando o significado da estrela guia. Como é que os navegadores na antiguidade conseguiam andar pelo mundo, que tinha a estrela como guia. E ainda, depois eu tive que explicar porque que eu tinha barba, eu tinha que pegar Tiradentes como exemplo, pegar Jesus Cristo, falar, olha, as pessoas boas que tiveram barba nesse mundo. 

Então, eles vão construindo narrativa para dificultar a sua vida, e vão construindo, e se você não rebate essas críticas a narrativa fica consolidada. E você sabe a narrativa que eles construíram contra o PT nesses últimos dez anos. Pois bem, nós temos que desfazer essas narrativas e encontrar outra narrativa. É por isso que eu acho que falar do legado do PT é muito importante, falar das coisas que nós fizemos na Educação, na Saúde, na Ciências e Tecnologia, na Agricultura Familiar, a relação que nós tivemos com a sociedade. Porque veja, eu fico muito à vontade porque quando eu faço uma reunião com o jovem eu nunca falo que eu sei tudo, porque eu não sei. Eu não tenho a menor dificuldade de alguém fazer uma pergunta para mim e eu falar eu não sei eu, eu não vou inventar uma mentira. Outro dia eu falei para o Haddad, a gente foi numa reunião e uma pessoa perguntou para o Haddad, foi a primeira vez que eu vi numa reunião o que o Haddad ia fazer com os cachorros vira-latas de rua. E o Haddad ficou falando meia hora, sabe, quando você começa… Se você nunca tratou daquele assunto é melhor dizer eu não sei, me diga o que eu devo fazer. É muito melhor. Então, quando eu não sabia o que fazer eu fazia uma conferência. Não sou eu que tenho que saber do que eu tenho que fazer para as pessoas, as pessoas que tem que dizer: cara, nós queremos que faça isso. E sempre que eles têm chance de falar o que eles propõem é melhor do que aquilo que um técnico propõe. 

Por que como é que as coisas acontecem no Brasil? Um especialista senta, coloca um papel no joelho e faz uma Medida Provisória, e faz um Projeto de Lei, e faz… Você vê, os caras que votaram a reforma trabalhista não tem um que já trabalhou dentro de uma fábrica, não tem um que já vestiu um macacão. Por que não chamaram os sindicalistas para discutir? Por que não chamaram as pessoas que vivem dentro da fábrica para discutir? Não eram nem empresários, eram assessores. Então, eu sinceramente eu prefiro ouvir. Eu não tenho nenhum problema em dizer o seguinte, eu não sei fazer isso, vocês vão me ajudar a fazer? Faça a proposta que eu vou levar para frente. Você fez uma pergunta de comunicação, Talita, e eu esqueci de falar, foi você, que fez de comunicação? O Franklin saiu daqui agora, mas veja, nós fizemos uma proposta de comunicação, depois eu volto na nossa questão, que não foi uma proposta do Franklin Martins ou do Lula, foi uma proposta de uma reunião que juntou mais de 3 mil pessoas a nível nacional. Juntou dono de canais de televisão, só não participou a Globo e o SBT, mas participou mais de duas mil rádios populares, participou rádios importantes, participou televisão, participaram, tinha mais de 3 mil pessoas que aprovaram um documento, aquele documento nós transformamos numa proposta de regulação dos meios de comunicação. E você não vai regular revista, você não vai regular jornal, você não vai regular papel, porque isso é o cara que faz. O que a gente queria? Ter uma preocupação com a questão da internet, que ainda nós não sabemos o que fazer, e ter uma preocupação com o sistema de comunicação eletrônico. A última regulação nossa era de 1962. Então, como é que a gente faz aquilo? A sociedade disse, e nós queríamos apresentar no Congresso Nacional para quê? Para debate. Não foi apresentado pelo Paulo Bernardo porque talvez a companheira Dilma não quis mandar para o Congresso Nacional. Mas em algum momento alguém vai propor para fazer uma regulação. Se está correto e a sociedade entende que está correto, que é assim mesmo, tudo bem, que fique assim. Não sou eu que não entendo que vou fazer. 

O que eu quero é abrir espaço no seguinte, é preciso fazer uma regulação, adequar às necessidades da sociedade. Você vai permitir a vigência e o funcionamento da indústria de fake news com robô? Eu não sei, eu estava conversando hoje de manhã no carro, a Janja estava dizendo e o meu amigo Moraes, que no Big Brother estão votando agora para ver quem é o cara que vai ganhar, e tem um cara que está com um esquema de computador, é uma indústria de telefonema para a Rede Globo para ele ser indicado. Eu não acompanho o Big Brother, mas eu estava ouvindo essa conversa no carro. Tem um cara que é mais abastado lá, me parece, que tem mais dinheiro, ele montou uma fábrica de computador para mandar mensagem para votar nele. Então, enquanto o cara que não tem, tem que pegar alguém, pegar o telefone e ligar, o cara tem uma fábrica. Que estupidez que é essa, que brincadeira que é essa?

Carlito Neto:

Eles chamam de meritocracia isso, não é, presidente?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Então, a democracia vai perdendo o valor, e é por isso que o Bolsonaro está pouco ligando para a verdade, o que ele quer é fake news. Minta, porque a mentira é mais rápida do que a verdade. É isso que é o ditado popular que a gente acreditava quando não tinha internet. A minha mãe dizia: a mentira vai de avião e a verdade vai engatinhando que nem uma tartaruga. E é isso que a gente está vendo, a quantidade de mentiras todo dia, todo dia. Então, nós vamos ainda, mas vai depender muito da correlação de forças no Congresso Nacional. E aí companheiro é o seguinte, olhe, vamos pegar a questão da juventude para falar depois do investimento no exterior. Eu acho que nós temos tido um apoio considerável na juventude. Eu acho que o pessoal até 26 anos, 29 anos, tem tido uma participação muito grande no compartilhamento das coisas que nós queremos discutir. E eu acho que nós temos que continuar falando mais. 

Nessa eleição é uma eleição que a mulher tem um peso excepcional, não só porque ela é maioria, mas porque ela está sendo empoderada para muitas coisas. Eu acho que nós temos que trabalhar com muito, com muito carinho essa questão da mulher, essa questão da família. Acho que nós temos que trabalhar a questão da juventude, ou seja, não basta dizer que a juventude é o futuro da nação e depois ele entra na casa o pai está conversando com o amigo, não deixa ele entrar na sala porque ele não pode escutar, ele não tem idade para aquilo. Então, isso é mentira. Então, se ele é futuro da nação, vamos tentar fazê-lo participar desde cedo. Eu acho que a gente vai ter que conversar muito com essa juventude, e a gente vai ter que conversar muito com a sociedade. Nós temos que construir uma narrativa de que esse país é assim. 

Por exemplo, Carlito, você que é um historiador, você sabe uma coisa que eu fiquei absurdo para a minha cabeça, que tenho como única formação intelectual um curso de torneiro mecânico, eu achei absurdo que o Peru em 1554 já tinha a sua primeira universidade, a Universidade de São Marcos, em 1554. E o Brasil só foi ter a sua primeira universidade em 1922, 400 anos depois. E não foi porque o governante da época queria fazer universidade para o povo brasileiro, era porque o rei da Bélgica vinha ao Brasil e ele precisava receber um título de doutor honoris causa, e só podia receber título se tivesse universidade. Aí juntaram as faculdades que a gente tinha no Brasil inteiro, e fizeram a Universidade do Brasil. Qual é a explicação? Qual é a explicação da gente ter sido o último país a fazer a independência, o último país a abolir a escravidão, o último país a dar voto para a mulher? Qual é a lógica desse atraso todo? Qual é a lógica de manter a gente analfabeto durante tanto tempo, e a gente sem informação durante tanto tempo? 

Então, eu acho que nós precisamos aprender, nós os democratas, nós os homens de esquerda, de centro esquerda, nós os jovens jornalistas, os jovens, precisamos aprender a construir narrativas, porque a narrativa que vence é a primeira que ganha manchete. Se eles ganharem a manchete ganharam a narrativa e nós perdemos o jogo. Então, durante muito tempo o PT teve dificuldade de reagir à questão da Lava Jato, quando nós decidimos reagir nós ganhamos a parada. Não foi fácil, mas nós ganhamos a parada. Vocês sabem que aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro, se um cara entrar de camisa vermelha entrar num restaurante, ele tinha que estar acompanhado, porque sozinho era difícil, sabe. Então, quando nós resolvemos inventar, tinha muita gente que não queria que eu voltasse, que eu fosse para a Polícia Federal, tinha muita gente que achava que eu deveria sair do Brasil, muita gente achava que eu devia ir para a embaixada, e eu tomei a atitude de ir para a Polícia Federal porque era a única forma que eu tinha de provar minha inocência e provar a canalhice que estava montada contra mim. Demorou 580 dias, não foi fácil, mas graças a vocês, com a construção daquela vigília, porque aquela vigília foi um fenômeno político que aconteceu nesse país, que nunca tinha acontecido em nenhum país do mundo. Mas isso eu faço questão de ressaltar, nunca em nenhum país do mundo houve uma vigília de uma sociedade durante 580 dias gritando bom dia, boa tarde e boa noite. Gente que vinha do Brasil inteiro, gente que vinha do exterior. Aí o que é que aconteceu? Os caras que me prenderam começaram a falar, porra, esse cara vai dar a volta por cima, nós fizemos merda. Desculpa aqui, não sei se está gravando direto, já falei. Mas não tem problema. 

Nós não devíamos ter prendido ele, cara, era melhor deixar ele solto e a gente batendo nele. Não, me prenderam e pagaram o preço. Você sabe, Brito, que foram tentar me convencer, olha, é melhor colocar uma tornozeleira, você vai para casa… Não. Eu não sou pombo-correio. Eu não troco a minha dignidade pela minha liberdade. Me prenderam, então agora paguem as consequências de eu estar aqui. Eu estava ouvindo as pessoas cantarem boa dia, boa tarde, de vez em quando cantava música. Eu sabia que a Janja, a minha namorada, estava lá na parede da Polícia Federal chorando, que ia mandar comidinha para mim à tarde. Então, eu estou lá. E eles começaram a se incomodar. Então, essa narrativa nós temos que contar, porque muitas vezes a gente não conta a nossa verdade, fica só a verdade do adversário. Outra coisa é a coisa do comércio exterior.

Carlito Neto

E das estatais, por gentileza, também, presidente

Luiz Inácio Lula da Silva:

Deixa eu te contar, chegou aqui o Celso Amorim, que foi o meu ministro das relações exteriores, eu vou dizer uma coisa para você, somente um ignorante é capaz de dizer que você fazer um investimento, financiamento em outro país, é um atraso, você estar investindo em outro país e não estar investindo para o Brasil. Deixa eu te contar uma coisa, o Brasil é o único país do mundo que quando decide fazer um financiamento para outro país, esse outro país é obrigado a ter, primeiro, uma empresa brasileira, e a comprar serviços do Brasil. Então, quando a gente financia a gente está emprestando dinheiro e ao mesmo tempo a gente está exportando tecnologia, está exportando serviço. Além do país pagar o dinheiro ele ainda compra o produto nosso. 

Foi assim no Porto de Mariel. Foi assim, eu estou lembrado que quem fez uma crítica minha uma vez foi o Alckmin, o negócio do metrô de Caracas, e eu tentei lembrar ele que foi o Fernando Henrique Cardoso que começou a fazer o metrô de Caracas e era importante, porque você está exportando serviço, você está importando engenharia, e enquanto você está recebendo o seu dinheiro. Se não fosse assim, o Brasil recebeu muito dinheiro de fora no começo do século XX, se não fosse assim a gente não tinha tido ferrovia, não tinha tido hidrelétrica, sabe. Então, é pura ignorância o cara que faz essa crítica, ah, o Lula está colocando dinheiro em Cuba e não no Brasil. Eu não estou colocando dinheiro, eu estou emprestando dinheiro para Cuba, que é um dinheiro mais bem emprestado do que o dinheiro que nós pegamos emprestado e ficamos devendo 30 bilhões ao FMI. Dinheiro que você toma emprestado para pagar outro. Não, nós emprestamos dinheiro para construir um ativo produtivo para um país que nos paga. 

E ao mesmo tempo, nós estamos exportando serviço, exportando caminhão, ferramenta, peça pronta, sabe. Então, isso é uma coisa que o Brasil tem que fazer, sobretudo, nos países mais pobres, é a obrigação de um país que quer ser protagonista internacional, tem que fazer. E você vai ver que vai ter muita crítica, porque como os bolsonaristas são ignorantes, e, sobretudo ele, que é o maior ignorante, é um xucro, ele vai falar, ai, por que é que está emprestando dinheiro para Cuba, por que é que está emprestando dinheiro para a Nicarágua, por que está emprestando…? É melhor estar emprestando para fazer um bem do que estar sendo roubado na venda de vacina. Do que estar sendo roubado o dinheiro da Educação através dos pastores da Educação. 

Então, é muito melhor fazer as coisas à luz do dia, da forma mais decente possível, e não ter coragem de fazer esse debate com a sociedade brasileira. Então, nós temos que construir essa nossa narrativa, sabe, e essa campanha é uma boa oportunidade da gente poder construir a nossa narrativa. Você sabe quantos anos que eu não vou num debate na Globo? Há uns dez anos. Mas então, eu acho que em algum momento eu vou estar lá no debate. Não é possível que eu não faça uma pergunta em algum momento. Eu não sei. Eu estou, vou estar sempre de bom humor, vou estar sempre querendo paz, mas eu acho que as pessoas precisam contar a verdade, as pessoas não podem mentir o tempo inteiro e achar que o povo não sabe. Então, é assim que nós vamos construir, Carlito, as nossas narrativas. E nós temos muita coisa para contar. Eu tenho muito orgulho do que nós fizemos nesse país. E hoje eu tenho um arrependimento, é que eu poderia ter feito mais. Não fiz porque eu não sabia, mas agora eu estou mais esperto, e vamos fazer mais. 

Carlito Neto:

Só para concluir, presidente,  só para ficar claro a questão das estatais, que está essa propaganda toda para privatizar e elas não dão prejuízo. A quem seriam esses interesses aí? Só para que fique claro para quem está acompanhando a gente, porque essas empresas que eu citei, Correios, Petrobrás, Eletrobrás, elas não dão prejuízo, ao contrário, elas dão lucro, inclusive a Petrobrás tem dividido lucros aí a torto e à direita, o Correio também tem lucrado muito. A quem interessa vender essa narrativa de que essas empresas dão só prejuízo e que não é interessante para o Estado ter elas aqui? 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Olha, o problema nosso é que a mentalidade das pessoas que estão no governo ainda estão nos anos 80. Até o Trump, quando voltou a governar, quando ganhou a eleição dos Estados Unidos, o que o Trump falava? Os Estados Unidos para os americanos? Eu não quero mais as empresas americanas na China. Aqui no Brasil, como eles não têm a palavra, acho que eles não leram o dicionário e não sabem o que é a palavra desenvolvimento, a palavra investimento, então aqui no Brasil tudo que eles querem fazer é vender. Como eu não sei fazer dar lucro, eu vou vender. Eu tento sempre falar para o povo o seguinte, imagina, você é um solteirão, você casa com uma mulher viúva que tem uma casa montada, que tem as coisas, geladeira, televisão, computador, e você chega lá vagabundão, desempregado, e fala: vamos vender a geladeira? Vamos vender a cama? Vamos vender… Vai comprar, vagabundo. Vai trabalhar, porra. 

Eles querem vender a Petrobrás, gente. A Petrobrás não é apenas uma empresa de petróleo, a Petrobrás é uma empresa extraordinária de investimento em pesquisa. Quando nós aprovamos fazer plataforma, fazer sonda e fazer navio aqui, a gente aprovou concomitante uma lei que 65% dos componentes tinham que ser nacionais. Para quê? Para a gente produzir aqui, gerar emprego aqui… Eles acabaram com isso. Por que o preço da gasolina está tão caro? Porque a gente acabou com a BR e a gente agora tem quase 400 empresas importando gasolina dos Estados Unidos. Importando em dólar, livre de pagamento de imposto. E é por isso que o preço está a R$ 7,00, a R$ 8,00, a R$ 8,50, a R$ 7,50 em vários lugares desse país. Por isso que eu tenho dito, espera a gente ganhar as eleições que a gente vai abrasileirar os preços. Não existe nenhuma explicação dos preços da gasolina ser em dólar. 

Eu vou lhe dar um exemplo concreto, vivo, para você contar para os seus alunos. Com a crise de 2008 o petróleo chegou a 147 dólares o barril. Mais do que agora. E o preço da gasolina vendida no seu país era R$ 2,60. Tá? Uma demonstração de que você não tem que ter essa dependência internacional no caso do petróleo. A Eletrobrás, se ela for privatizada você não pode fazer programa como o Luz pra Todos, porque não tem nenhuma empresa que queria ser socialista a ponto de levar energia de graça para as pessoas. Você acha que essa gente está preocupada com o cara que está com o candeeiro comendo fumaça junto com a comida? Já que não tem mistura vai a fumaça do querosene para o nariz do cara. Já viu criança fazer lição sentada num caixote com candeeiro, com uma lata de refrigerante com um pavio? Não, somente o cara que nunca viu isso é que é contra um programa como o Luz pra Todos, que nós investimos 20 bilhões para fazer, e foi com muito orgulho. Porque se você visse, Brito, a alegria, quando eu chegava numa casa às 7 horas da noite, em qualquer lugar do mundo uma escuridão desgraçada, a família sentada na borda de um caixão e eu pegava o dedo da dona da casa e colocava na tomada e acendia? Porra, era como se você tivesse trazendo o século XVII para o século XXI. As pessoas não sabiam o que fazer, ficavam até meio cegas de tanta luz, tão forte. 

Quando o Arraes foi inaugurar a luz elétrica na casa da minha tia chamada Vina, estou dando até o nome, minha tia Vina, que já morreu, quando o Arraes foi levar a luz lá, ela saiu correndo a hora que acendeu a luz. Ela nunca tinha visto aquilo na vida. E quem vai fazer isso para o Brasil se ele vender a Eletrobrás? Para que vender a Eletrobbrás? Para que vender? Para encher o bucho do já rico de mais dinheiro? Quando a gente deveria estar era criando uma puta de uma multinacional de energia, juntar a Eletrobrás e a Petrobrás e fazer a maior empresa de energia do planeta Terra. Era para a gente estar pensando grande, do tamanho do Brasil, e essa gente não pensa grande. Porque, sabe, o que é que o Guedes pensa? Nada. Ele não precisa pensar, vai vendendo, vai vendendo, vai vendendo. O esforço que nós fizemos para fazer gasoduto no Nordeste, o esforço que nós fizemos, vamos vender. Vamos vender. 

Eu fico me perguntando, o Aloísio Mercadante não está participando da entrevista, por que é que o álcool tem que seguir o preço da gasolina? Eu não sei porquê. E ninguém explica nada nesse país. Ninguém fala nada. O presidente da República diz que não sabe, ah, se eu soubesse eu dava um murro na mesa. Oh ignorante, não tem que dar murro na mesa, chama o Conselho Nacional de Política Energética e decide o que fazer, cara. Tem gente que sabe no Brasil, tem gente que conhece. Ah, mas ele não sabe, ah, porque é um general, eu vou chamar um almirante. Assim, porque como ele não tem relação com a sociedade civil ele vai militarizando os lugares que têm centenas de especialistas pelo mundo afora. E, sobretudo, no Brasil, que tem muita gente muito competente. Mas então é isso, Carlito, a nossa tarefa é muito grande. Nós temos que construir uma narrativa todo santo dia. Eles contam a história deles e nós contamos a nossa história, eles contam e nós contamos.

 O problema é que às vezes a gente fica quieto. Aqui nesse Brasil quando alguém é denunciado de corrupção qual é o comportamento tradicional? Ah, eu vou me esconder. Eu vou me esconder, eu vou submergir. Aí enfia o rabo no meio das pernas, se esconde, e aparece com a cara que o Aécio apareceu no jornal esses dias. Não bonitão como eu assim, sabe. Então é o seguinte, você não tem que ter medo. Se você é honesto, enfrente. O Bolsonaro, por exemplo, ele de vez em quando eu sei que ele faz discurso me chamando de ladrão. Com a família que ele tem, me chamar… Não tem sentido. Faça um levantamento das denúncias que já foram feitas contra ele e nenhuma foi apurada. No nosso governo a gente tinha a Lei da Transparência e a gente tinha outra lei lá que a gente, sabe, permitia que as pessoas soubessem das coisas. Agora não, agora você não sabe de nada. Você falou mal do filho dele? Sigilo por cem anos. Falou mal da tia dele? Sigilo por cem anos. Falou mal do Pazuello? Sigilo por cem anos. Quem é que vai esconder mentira por cem anos, Brito? Nós vamos ter que desvendar essas mentiras. Obviamente que… Mas é isso, Carlito, é isso, querido, a tarefa é dura, mas é compensadora. Quando você faz dessa dificuldade uma causa você vai longe. E essa é a minha causa, provar que esse país pode ser melhor. 

Ronny Teles (canal Ronny Teles):

Eu já sofri bullying na estrada, estava de boa. Presidente Lula, bom dia. É um prazer indescritível estar aqui na sua frente pessoalmente pela primeira vez, e uma honra não só pela sua presença, mas porque hoje eu não sou só Roni, eu sou Erics, Joãos, Marias, nosso canal tem 500 mil inscritos, e hoje eu tenho orgulho de dizer que é onde, das redes sociais, o senhor está mais assistido. São pessoas que gostam muito do senhor, financiaram nossa viagem para cá, e não só por gostarem do senhor, eles são apaixonados pelo Brasil, e eles veem no senhor a esperança mais real de reconstruir. O senhor tem falado em reconstruir. E a minha pergunta vai usar um monte de coisas de vocês aí porque, graças à competência dos colegas, já se esgotaram alguns assuntos. Mas eu vou fazer um apanhadão. 

Presidente, da ultima vez que eu fiz uma pergunta ao senhor, graças ao pessoal da Revista Fórum, a quem eu agradeço, Rovai, que mora no nosso coração também, eu tive oportunidade de mencionar que o senhor tem uma tarefa muito semelhante, e aqui pegando aquela deixa dos jovens lá de Heliópolis, fazer referência à literatura pop, a cultura pop aí que eles gostam, uma tarefa muito semelhante a de um personagem de uma obra desenhada que é o Aand, do Avatar. Ele tem a responsabilidade de reunificar nações que entraram em conflito por causa de ganância, por causa de arrogância, e de armas também, de uma parte delas. Eu vou seguir nessa direção. O bolsonarismo e o Bolsonaro foram exitosos em algumas coisas, a gente precisa reconhecer, nenhuma delas de interesse público. A principal delas foi produzir o seu próprio alimento, talvez por isso eles não pensam muito na fome do povo. E eu não estou falando do alimento deles, não estou falando de capim ainda. É o medo, a desinformação. 

Eles destroem a percepção das pessoas através de fake news, de bombardeamento, eles corrompem o caráter de alguns desses líderes com barras de ouro, com picanha, com Viagra, com KY, e semeia o medo: ah, porque se o PT ganhar você vai ter um Exército destruído, ah, porque se o PT ganhar vai fechar igreja, ah, porque se o PT ganhar vai taxar você aí que tem um comércio com 10 funcionários. E eles não parecem fazer isso sozinhos, eles contam aí com algo… parece que houve uma mudança na forma de fazer política, talvez essa seja a nova política, não sei, tem o político profissional partidário, aquele que está eleito, mas também tem o intermediário agora, eles usam muito isso, que é aquele que, o Allan dos Santos, essas pessoas que eu não vou nem ficar mencionando os nomes, são pessoas que não têm cargo, mas eles trabalham muito em implantar isso que o senhor falou, as narrativas. Muitas vezes o Bolsonaro não usa a mídia tradicional para emplacar essas narrativas, ele usa essas pessoas, esses subordinados do capiroto. 

Bolsonaro, inclusive, eu preciso lembrar que é muito conhecido na nossa comunidade por um apelido muito carinhoso de ‘Jaboti de Cima do Poste’, que precisa ser derrubado. Presidente, fazendo mais uma citação à literatura pop, existe no filme e no livro ‘Guia do Mochileiro das Galáxias’ uma máquina chamada o gerador de improbabilidade infinita. Quando eles estão num apuro, sem saber para onde correr, eles apertam um botão e o que é improvável acontece, e aí eles saem do apuro. Gostaria de comparar o senhor a essa máquina, o senhor já é uma máquina, agora o senhor é um, o senhor é improbabilidade, nordestino, já daquela época difícil de sobreviver, sobreviveu, difícil vir para São Paulo e vencer e o senhor venceu. Difícil ser presidente, ter um diploma, ser… o senhor cria ao seu redor improbabilidades. Elas acontecem. Pergunto para o senhor, o senhor falou em reconstruir, eu estou reconstruindo uma casa, exatamente o exemplo que o senhor deu, e eu estou precisando de mão de obra, estou tendo problema com mão de obra. Como é que o senhor vai fazer para conversar com essa mão de obra, que é o povo, comerciantes, investidores, evangélicos? O senhor vai gerar mais uma improbabilidade para conseguir colocar esse povo todo na mesa de novo? Usando a metáfora do casamento, às vezes a gente entra na briga mulher, marido, querendo dar certo, mas a gente não sabe as palavras e acaba piorando a briga. 

E a gente, presidente, está com vontade de sentar na mesa de novo. Meu pai é bolsonarista, sabe. Eu vim no avião, quem filmou para mim a janela porque eu não peguei a janela, era um bolsominion, e eu falei para ele: eu estou indo ver o Lula. E ele: não, eu filmo para você. Isso demonstra que nem tudo está perdido. O taxista que me trouxe também é bolsonarista, quando eu falei que eu vinha para ver o senhor ele ficou empolgado, ele falou: não, eu também gosto de algumas coisas que o Lula fala. E ele até reconheceu que sabe que o Bolsonaro mente, ah, ele controla o STF, ele pisou na cabeça do STF – palavras dele – e controla o Congresso. Eu sei disso. Eu sei que o filho dele é bandido – palavras dele. Então a gente está querendo sentar na mesma mesa, presidente. A gente está querendo voltar a fazer churrasco, mas não tem nem carne e nem as palavras corretas para a gente se unir. 

A pergunta objetiva, o senhor está animadão para reunir a gente de novo, encontrar o discurso correto, botar a gente para ceder de novo ao invés de querer a individualidade? E o senhor pretende, com esse passo de hoje, estabelecer uma proximidade maior com nós que fazemos esse trabalho que o Allan dos Santos faz, mas do lado oposto, na internet, lutando, desde o primeiro dia do governo Bolsonaro publicando vídeo, explicando. E eu tenho o prazer de ter vários depoimentos de convertidos, olha, eu sou ex-Morista, eu sou ex-Bolsonarista, e a gente está lá e está fazendo na inspiração, a gente não é, eu não sou profissional de política, mas a gente tem feito esse trabalho. Então, é isso, o senhor está pronto, tem mensagens para mandar? Porque tem muito comerciante que acha que o senhor vai fechar a firma dele quando o senhor fala taxar a grande fortuna. Não é isso. Manda uma mensagem para esse pessoal, explica a diferença, fala sobre esse sentar na mesa de novo, e se o senhor pretende nos incluir nessas propostas a longo prazo inclusive. 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Olha, Ronny, primeiro você podia ter trazido o teu pai aqui, pô.

Ronny:

Eu tentei. 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Pelo seguinte, veja, vamos fazer uma separação entre o que é o eleitor que votou no Bolsonaro e o que é o bolsonarista. Vamos fazer uma separação porque a gente não pode culpar o povo pelo fato dele ter votado no Bolsonaro, ele já votou no Collor, ele já votou no Lula, ele já votou, sabe, depende da narrativa que se conta durante o processo eleitoral. Eu, por exemplo, tem uma coisa que eu conto sempre, eu nunca consegui compreender, o Brizola era um deus no Rio de Janeiro. O Brizola no governo dele de 82 a 86 era como se fosse um ser superior no Rio de Janeiro, tal era a obsessão daquele povo atrás do Brizola. E o Brizola venceu o mandato dele, ele foi indicar o Darcy Ribeiro para ser candidato à sucessão dele. Eu nunca consegui me conformar como é que o Darcy Ribeiro perde as eleições para o Moreira Franco. Nunca consegui entender como é que o povo consegue votar no Wellington Moreira Franco. Sabe, eu nunca consegui… como é que você desprezou a indicação de uma sumidade, sabe, como Darcy, alegre, intelectual, da mais alta competência.

 Então, eu fico imaginando como é que as pessoas votaram no Bolsonaro. Porque o Bolsonaro, a vida dele na política, 28 anos de mandato de deputado federal, ele conseguiu passar a ideia de que ele não era político, depois de 28 anos de mandato, mais quatro de vereador. Ou seja, quem militou com o Bolsonaro quando era deputado, duvido que alguém acreditasse que o Bolsonaro fosse eleito presidente. O Bolsonaro tirou proveito de uma narrativa que estava sendo contada nesse país há muito tempo: a negação da política. Quando você começa a negar a política, o que vem depois é sempre pior. O que é negar a política? É você dizer que nenhum político presta, que todo político é corrupto, que todo partido é corrupto, que não sei das quantas… e é um pouco isso que o povo pensa. 

Se você for perguntar para o povo no Rio de Janeiro, em São Paulo, em qualquer lugar o que é que ele pensa de político ele vai dizer que a maioria é ladrão, porque é isso que ele ouve durante o tempo inteiro. É isso que ele ouve de um morista, é isso que ele ouve de um jornalista, é isso que ele ouve na televisão, é isso que ele ouve no rádio. Está cheio de ladrão chamando o outro de ladrão, sabe. Então, o teu pai deve ter sido vítima disso, ou seja, ele ficou enojado que todo mundo é ladrão. Ele falou, esse cara apareceu, esse cara vai prender comunista, esse cara vai distribuir arma, esse cara vai dar soco e pontapé, esse cara não gosta de sindicalista, esse cara não gosta de greve, esse cara não gosta de baderna, esse cara não gosta de sem-terra, esse é o cara. Talvez seu pai tenha pensado isso porque a narrativa levou ele a pensar isso. E ele votou. Votou. As vezes o discurso do Bolsonaro é o discurso de um torcedor fanático. Um torcedor fanático o time dele perdeu feio, mas ele vai no bar tomar cachaça dizendo que o time dele ganhou, que o time dele é bom, que o time dele era o melhor, que o time dele jogou melhor. 

O Bolsonaro faz isso todo dia. Ele faz as pessoas gostarem dos bandidos. Então, o teu pai é mais um que foi convencido por uma narrativa que nós temos que ter a obrigação de construir uma narrativa para dar uma chance para o seu pai votar em alguém que pense mais democraticamente, de forma mais justa socialmente, alguém que pense um pouco no Brasil. Mas eu queria te dizer que eu estou muito animado. Você falou da democracia que nem um casamento, eu dei muitos exemplos, não tem nada mais exemplar para a democracia do que um casamento. O casamento só dá certo, só dá certo se as pessoas aprenderem a ceder. De vez em quando o marido tem que ceder porque a mulher está com a razão e vai para cima dele. De vez em quando a mulher tem que ceder porque o marido está certo. De vez em quando o pai e a mãe têm que ceder porque os filhos estão falando coisas que são verdadeiras. É esse fato de você ceder que vai permitindo com que o casamento dure, porque se você for brigar a cada desavença o casamento não dura seis meses. Então, eu uso o casamento como exemplo. 

Depois, o Bolsonaro tem um jeito de fazer política que ele gosta de instigar. Ele não tem meia palavra. Ele não é razoável para falar, bom, eu não vou xingar o Ronny. Não, ele te xinga. Ele vai te chamar de feio, vai te chamar de negro, vai te chamar de gordo, vai te chamar de baixinho, vai te chamar de nordestino, vai te chamar de qualquer coisa, faz parte do DNA político dele. Ele precisa disso. E ele conseguiu fazer com que a imprensa desse um destaque para ele, se ele falar para a imprensa, ele levanta às 6 horas da manhã, vai lá na biblioteca do Palácio, conta cinco mentiras e a imprensa passa a semana inteira falando das cinco mentiras. Vamos pegar essa questão do indulto. 

Ora, ele tem o direito de fazer o indulto, a Suprema Corte tinha condenado o cidadão há 9 anos de cadeia porque o cidadão desrespeitou a instituição, ofendeu e um monte a quatro. Não sei se está certo também porque eu não sou advogado. Mas se ele desrespeitou e fez o indulto, quem é que vai julgar? É a própria Suprema Corte. Mas o que aconteceu? Ele transformou isso num fato político em que a imprensa desde quinta-feira não fala em outra coisa a não ser nisso, de manhã, de tarde e de noite. Se o deputado for candidato vai ter o triplo de votos que teve da outra vez porque ele ficou conhecido. Então o Bolsonaro, ele vive disso, ele não está preocupado que você fale bem dele porque ele não trabalha para o povo brasileiro, ele trabalha para o seu exército, que é um exército de miliciano que pode ter 15%, 20% da sociedade, e ele faz questão de fomentar essa gente com informação todo dia, com mentira todo dia. 

Não é como o PT, que o PT cada deputado tem o seu blog, tem a sua verdade, cada militante. O Bolsonaro não, quando ele fala aquilo virou ordem para todo o seu exército, aquilo é replicado no Brasil inteiro. Então, ele vive disso. O que eu acho é o seguinte, eu comecei dizendo que a gente não vai fazer uma campanha rasteira. Veja, eu se não for para fazer uma campanha restabelecendo a verdade nesse país e conversando com as pessoas, teu pai precisa saber que o país não pode ir bem com um cara com o Bolsonaro. Esse país poderia estar muito melhor. Esse país era respeitado pelos Estados Unidos, era respeitado pela Rússia, era respeitado pela China, era respeitado pela Alemanha, pela Itália. Esse país era respeitado pela Argentina, pela Venezuela e pelo Chile. Onde o Brasil chegasse o Brasil era respeitado. Quem descesse do aeroporto com passaporte do Brasil era elogiado, porque o Brasil virou “o cara da hora”. Esse país perdeu isso. 

Esse Bolsonaro não é recebido em lugar nenhum, porque ninguém gosta dele, ele não faz questão de gostar de ninguém. Isso não é bom para a imagem do Brasil. O Brasil é um país que não tem contencioso internacional, o último contencioso nosso foi com a Guerra do Paraguai, e essas bobagens que eles tentaram fazer contra a Venezuela agora. Não sei para que arrumar inimigo. O Brasil é um país grande, o Brasil tem… Você sabe qual era o superávit do Brasil com a Venezuela? Era quase 4 bilhões de dólares. E foram inventar uma briga desnecessária. Quem tem que cuidar do Maduro é o povo da Venezuela. Quem tinha que cuidar do Chávez era o povo da Venezuela. Como quem tem que cuidar do Bolsonaro somos nós, não é o Maduro, não é o Alberto Fernandez, da Argentina, somos nós que temos que cuidar para que esse cara nunca mais governe o país. É isso. 

Por isso que eu estou animado. Eu estou animado primeiro porque eu tenho um legado que eu tenho orgulho dele, e para falar do futuro nós temos que falar desse legado. Nós temos que falar para o comerciante como é que ele viveu no meu governo. Ele tem que lembrar como é que ele viveu no meu governo. Ele tem que lembrar o que ele ganhava no meu tempo de governo, porque foi um dos melhores momentos da história do pequeno e médio empresário desse país. Fomos nós que criamos a Lei Geral da Pequena e Média Empresa, fomos nós que criamos o MEI, sabe. Fomos nós que regulamos essas coisas todas. Se ele não sabe nós temos que dizer, porque a gente pode melhorar. Sempre pode melhorar. Então, eu acho que é isso que me anima. Me anima muito. Eu estou convencido que a gente pode ganhar as eleições. 

Está cheio de gente procurando a terceira via, quarta via, quinta via. É o seguinte, eu estou numa situação que é o seguinte, eu apanho todo dia do Bolsonaro, e o Bolsonaro tem uma razão de me bater, ele está com medo que eu ganhe as eleições no primeiro turno. Aí os outros que estão de 2, 1, 3, 4, 5, 2, 1, 3, 4, 5 batem muito no Bolsonaro para não deixar o Bolsonaro ir para o segundo turno, mas também bate em mim para que eu não ganhe no primeiro turno. Então, eu apanho de todos os lados. Como eu tenho as costas salgadas, temperadas, já apanhei demais na minha vida, eu estou muito tranquilo. A gente não pode cometer erros, ter muita sobriedade, conversar com todo mundo que quiser conversar, discutir o Brasil com todo mundo, sentar na mesa e tomar cerveja com alguém que votou contra mim e contar piada, e conversar como dois torcedores de times adversários fazem. 

Nós não queremos um mundo unipolar, onde só pode estar na mesa um pensamento, uma tese. Não, nós queremos um mundo multipolar, que tenha 500 pessoas discutindo na mesa. Aí sim a gente vai ter um mundo feliz. O cara contando piada de nordestino e eu rindo, eu contando piada de outras pessoas e as pessoas rindo. Está proibido contar piada, o mundo está chato para cacete. O mundo está pesado. Todas as piadas agora viraram politicamente erradas. Então, não tem mais graça, se você quer dar risada aí vem esse programa de humorismo chato para cacete na televisão, que me parece que depois que o Chico Anysio morreu desapareceram os humoristas no Brasil. Mas fique tranquilo que eu estou animado e nós vamos ganhar. Nós vamos ganhar porque você também está com a cara animada. Eu estou vendo a sua cara. Eu estou vendo a sua cara, você está animado, vai convencer seu pai, vai convencer seu tio, vai convencer seu companheiro do avião, sabe, e aí nós vamos ganhar as eleições. Mas deixa eu ver o que eu faltei falar.

Ronny:

Não, só aproveitando o precedente, porque o pessoal está muito preocupado com a sua segurança na sua campanha. 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Segurança a gente não discute em público. Segurança é uma coisa que é segredo. 

Ronny

Está bom.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Mas eu tenho muita fé. Dona Lindu está me cuidando e eu estou com muita fé.

Ronny:

Obrigado, presidente.

Luigi (Luigiverso)i:

Presidente, boa tarde já. Eu tive o prazer de ter feito a única pergunta que o senhor respondeu quando foi no Podpah, que eu perguntei justamente sobre comunicação. A gente trabalha muito com isso, está todo dia no YouTube, Twitter, Instagram, conversando, explicando, levando conteúdo. E da nossa parte assim é uma preocupação muito grande justamente essa questão de como é que a gente conversa. E pegando um pouco carona naquela pergunta que eu fiz daquela outra vez, e um pouco do que o Carlito falou, a gente viu recentemente um a campanha muito forte nas redes sociais, participaram celebridades, influenciadores, políticos, partidos, em relação ao título de eleitor. E mesmo com toda essa mobilização a adesão dessas pessoas que farão o seu primeiro voto agora em 2022 foi baixa e continua baixa. E eu queria saber do senhor se isso é uma questão geracional, se a gente perdeu, se as lideranças políticas perderam essa capacidade de dialogar com a juventude, por isso essa juventude não está muito a fim de falar de política. E a gente está falando de pessoas que em breve irão se chocar com a universidade, com o primeiro emprego. Por que essa dificuldade? É um problema de geração mesmo aqui ou sempre existiu essa indiferença política por parte da juventude? E se essa juventude, mesmo abrindo mão de tirar o título, de fazer o voto, ela vai ter que se deparar com algo que a minha geração, que é os chamados mileniuns, que é o meu público principal, que tem ali por volta de 25 a 38 anos, que viveram o primeiro emprego no seu governo, que é o meu caso, tiveram acesso a faculdade no seu governo, e hoje estão completamente sem esperanças.  Assim. É uma coisa que eu vejo muito nas redes sociais é um derrotismo, é um… até isso conseguiram tirar dessas pessoas, da gente: o esperançar, o amanhã pode ser melhor. Então, tem um derrotismo, tem um medo. E como é que a gente vai convencer essas pessoas da minha geração, dessa nova geração, que essa ideia que foi muito plantada durante o governo Bolsonaro, ele se elegeu falando muito sobre isso, vocês vão ter que escolher entre direitos ou trabalho. No seu governo, esses jovens, a minha geração vai ter que continuar escolhendo entre direitos ou trabalho, ou essa convivência não é mais possível?

Luiz Inácio Lula da Silva:

Olha, a primeira coisa, Luigi, que eu penso, é que se a gente está falando e a pessoa que está nos ouvindo não está nos compreendendo ou não está sendo convencida por aquilo que a gente falou, nós precisamos procurar outros argumentos e outras narrativas para contar.

Luigi: 

Aliás, fique à vontade para convidar a juventude que dia 04 de maio encerra, tirar o título.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Porque a pior coisa do mundo…

Luigi: 

Quem sabe o senhor consegue fazer… 

Luiz Inácio Lula da Silva:

A pior coisa do mundo é a seguinte, quando eu falo uma coisa com você e você não entende, eu poderia pensar que você é burro, porque você não entendeu o que eu falei. Pô, então você é burro. Normalmente o cara que se acha esperto fala assim. Aí eu falo a segunda vez, você ainda não entendeu, você continua burro, mas se você falar a terceira vez e você não entender o burro sou eu. Como é que alguém pode falar três vezes e a pessoa não entender? Então, eu acho que, o que eu acho maravilhoso na internet é que ela transformou o ser humano. Hoje o cara que lida com a interne, ele não é obrigado a acreditar no que ele ouve, ele se sente tão importante quanto o cara que está falando e ele quer emitir opinião. Você percebe? Ele não é obrigado a assistir o Bonner falando, desliga a televisão e ficou com a verdade do Bonner. Ele vai falar a sua verdade para outras pessoas, ele vai contar. 

Essa é uma novidade boa. Mas se ele for uma pessoa que estiver bem preparado, bem informado, bem politizado, ele pode contribuir muito para formar outras pessoas. Essa é a nossa tarefa. Por isso é que no PT nós tentamos fazer uma campanha das pessoas tirarem o título e começar a votar. O que é que eu tenho dito, Luigi? Eu tenho dito o seguinte, olha, se você não gosta de política, se você acha que todo mundo é ladrão, se você acha que prefeito é ladrão, que vereador é ladrão, que deputado é ladrão, que o governador é ladrão, que o PT, que todos os partidos são ladrões, se você por isso é uma pessoa azeda, não gosta de nada, não acredita de nada, deixe de ser burro. Você não precisa gostar de quem está aí, mas goste de você. Porque o político que você quer, o perfeito que você quer, o honesto que você quer pode não estar dentro de mim, mas está dentro de você. 

Então, ao invés de desistir, ao invés de ficar fazendo biquinho, ao invés de ficar chutando a parede, não, vá fazer política, porra. Vai defender as suas ideias. Vai para o debate. Porque assim você vai construir um novo político. Não é se afastando, sabe. Eu tinha filho assim. Eu tinha filho, quando eu comecei no sindicato e depois no PT, eu tinha filho: é, está viajando, está fazendo o que, porra, só pensa nisso, não pensa na família, só pensa em política, pô. Só pensa… Sabe? Oh cara, é que não tem outro jeito de você mudar o mundo se não for através da política, percebe? Então, nós temos que tentar mudar o mundo e fazer política. Então, se eu não gostar de ninguém eu vou gostar de mim mesmo, eu vou fazer política. Essa mensagem que eu tenho tentado passar para a juventude.

 Eu fui em Heliópolis para dizer para juventude o seguinte, olhe, você não pode votar porque você recebeu um panfleto de um deputado, você tem que ver o seguinte, você tem que ter acesso à biografia. Você viu que esses dias eu fui, ficaram bravos comigo porque eu falei que o povo tem que ir na casa dos deputados. E eu falei, tem que ir de forma educada na casa do deputado conversar com ele, discutir o projeto de lei. Eles ficaram ofendidos, na minha casa não. É engraçado porque ele entra na casa dos outros todo dia através das redes, através da televisão, através do rádio, ele quando é candidato sai na rua todo sorridente acenando a mãozinha assim para todo mundo. E quando o cara ganha, o povo fica ruim. Então, nós precisamos aprender a fazer política. Então eu acho que nós precisamos conversar mais, analisar a biografia, saber o histórico da pessoa. Ninguém coloca no panfleto dele fazendeiro, eu tenho 40 milhões de hectares de soja. Não coloca. Ele coloca médico, advogado, empresário, ele não diz o que é. Ele fala que é dentista, mas às vezes ele nunca arrancou um dente, o que ele faz é ser fazendeiro. Não é crime ser fazendeiro, mas é que as pessoas não dizem o que são, e o povo vota sem saber em quem está votando. Então, essa é uma tarefa, Luigi, que o partido tem que levar muito em conta. Se as pessoas não estão entendendo você, você precisa mudar o que você está falando e tentar encontrar uma linguagem correta. 

Deixa eu dar um dado para você importante, todas as pesquisas de opinião pública elas fazem uma pergunta: qual o partido da sua preferência? Você sabe qual é o único partido que aparece? O PT. Então, o PT tem entre 20% e 25% de preferência nas pesquisas. Sabe qual é o segundo? Ninguém. Porque ninguém conhece partido político nesse país. Os partidos viraram uma cooperativa de deputados. Os partidos não têm bandeira, os partidos não têm música, o partido não tem símbolo, o partido não tem manifesto, os partidos não têm compromisso, é um ajuntamento em época de eleição. Como o PT é o maior, o PT também tem muita rejeição. Então, o papel do petista é todo dia levantar com a obrigação de convencer as pessoas de que o PT é parceiro dela. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Essa é uma tarefa difícil, e durante a campanha nós vamos tentar conversar um pouco mais com o povo para fazer ele ser menos afastado da política. 

Eu estou dizendo isso porque quando eu tinha 20 anos, Luigi, eu morava no Parque Bristol, e eu vinha até a Anchieta pegar o ônibus para vir trabalhar na Villares, em São Bernardo do Campo. E eu era o chamado ignorante, sabe o analfabeto político? Eu só gostava de esporte. Eu lia, tinha um jornal chamado ‘Diário Popular’ que tinha ‘Diário da Noite’, coluna no Nuzman. Era um cara que falava 20 notícias, sabe. Eu só queria saber do Corinthians, porra. Meu irmão estava no sindicato, achava, você é comunista. Então, eu levei um tempo para virar o que eu virei. Então, nós temos que dar chance para as pessoas que não nos entendem, e nós ao invés de ficarmos bravos com elas nós temos que tentar fazer elas entenderem. Nem sempre você namora com uma mulher que você viu pela primeira vez, às vezes você quer, mas ela não quer. Então, você tem que ver a primeira vez, a segunda vez, a quarta vez, mudar de assunto, aí quem sabe você conquista. Sabe, o eleitor é assim. O eleitor é assim. Você vai conversando, você falou uma coisa, ele não gosta, você fala outra, até você bater. E nessa eleição a palavra-chave é democracia. Nós precisamos recuperar o direito de democracia nesse país. Espero que você contribua pacas nisso. 

Luigi: 

Tamo junto. 

José Fernandes Júnior (Portal do José): 

Boa tarde a todos. Primeiro eu quero agradecer o convite de estar aqui nessa tão peculiar, porque nós estamos diante de um ex-presidente onde a gente discute muito a figura do atual presidente. Então, nós estamos aqui num ambiente histórico, podemos dizer assim, diante dessas circunstâncias todas. E eu me sinto muito gratificado de estar aqui porque nem era para eu estar aqui porque eu sou dono de bar, sou advogado, sou jornalista, e abri um canal na internet, no YouTube, para explicar para os nosso funcionários lá da minha empresa, que está fechado agora em função da pandemia, o que é que iria acontecer com eles com a reforma da Previdência. E comecei a postar alguns vídeos, entrevistando os próprios funcionários, vídeos voltados a ex-alunos, a colegas, enfim, e hoje temos mais de meio milhão de pessoas no nosso portal, gente de várias orientações políticas, mas todo mundo no campo progressista. E como o Roni salientou, a esperança de que nós viremos a ter uma transformação no nosso país é muito grande, as pessoas nutrem uma esperança muito grande que o Brasil vai derrotar o obscurantismo, o atraso, enfim, todas as situações que nós vivenciamos hoje. 

Mas muitas pessoas não têm clareza das propostas do ex-presidente Lula para o outro, uma outra, um outro mandato. As pessoas ficam sempre perguntando, o que será que vai acontecer? Quase não sobrou coisa para perguntar para o senhor aqui porque vários assuntos foram esgotados. Eu me limitaria aqui a pedir um cafezinho de final da história. Mas sobrou coisa para falar sim. Nós vamos completar agora em maio 134 anos da abolição da escravidão. Infelizmente nós temos uma elite no nosso país extremamente ligada a esse pensamento escravocrata que todo dia é uma luta para a gente demolir alguns princípios, alguns conceitos. Enfim. 

E o senhor numa fala, numa das respostas, o senhor perguntou, que gente é essa? Que gente é essa que está aí? Bom, essa gente que está aí tem um fantoche na presidência da República hoje, porque eu não consigo ver luz própria na figura do presidente atual, e ele representa toda essa elite escravocrata que deixou os seus herdeiros e que não são mais de duas dúzias de pessoas que estão por trás dessa figura. Que reúne desde o grande empresariado selvagem, financistas, gente da Faria Lima, todo tipo de pequeno transgressor e pequeno vigarista, que ascendeu com o governo Bolsonaro, com pastores que, ou falsos pastores também, enfim, é uma elite muito complicada. E o senhor vai ter que enfrentar essas situações todas e vai ter que ter recursos para poder enfrentar tudo o que está acontecendo. Eu não acredito em nenhuma transformação sem educação. Está o Brito que trabalhou com o ex-governador Brizola, está ali o senador Mercadante, que foi ministro da Educação. 

Como é que o senhor vai poder enfrentar todas essas desigualdades, esse atraso, essa gente que está hoje aí, que é fruto também da ignorância, da desinformação, da falta de educação, sem enfrentar essa elite escravocrata que nós temos no nosso país hoje? Só na conversa, só no diálogo, será possível fazer com que haja libertação dos novos escravos aqui no nosso país? Assim, parecem situações muito complexas, eu queria falar de meio de comunicação também, se fala muito, se acusa muito o senhor de falar de regulamentação de meios de comunicação. Eu acho que a chave, presidente, é exatamente o contrário, é a desregulamentação. Se o senhor começar a falar isso aí, os liberais que falam de comunicação, enfim, vão ficar todos sem discurso. Se o senhor falar em democratizar o acesso a veículos de comunicação para que as pessoas construam suas próprias redes, seus próprios canais, o discurso vai mudar, não vai precisar fazer nenhuma medida no Congresso excepcional, enfim, é para usar inclusive o argumento liberal dessa gente exatamente para a gente ter democracia em termos de comunicação aqui no nosso país. 

Bom, foram muitas questões, teriam outras aqui, queria perguntar para o senhor sobre Procuradoria Geral da República, o que está acontecendo aqui no nosso país. E para finalizar também, tudo que o senhor relatou, que as pessoas relataram aqui, só foi possível porque existe uma grande omissão dos grandes veículos de comunicação. Nós tivemos aqui quase 700 mil pessoas mortas no nosso país e o nome do presidente atual não era citado em nenhum telejornal, ao contrário das situações que envolveram todos os escândalos passados, todas as questões passadas, que o nome do senhor, o nome de outras pessoas eram ventilados todos os dias. Como é possível uma pessoa que foi presidente de uma nação com mais de 700 mil mortos, mais de 30 milhões de contaminados, que deixou a nação totalmente perplexa, como é que o nome dele não é citado, como ele não é responsabilizado, como houve um processo de invisibilização e desresponsabilização do mandatário do nosso país? São essas questões, presidente. 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Você sabe que eu estava pensando como é que eu ia te chamar, se era José…

José Fernandes Júnior:

José. 

Luiz Inácio Lula da Silva:

Porque era melhor o Canal do Zé. Ou seja, José, nós temos temas políticos que são muito muito, muito, muito rivalizados aqui no Brasil, que gera muita polêmica. Uma vez, um jornalista me entregou um pedido para criar um Conselho Nacional dos Jornalistas. Era uma espécie de OAB, OAB dos jornalistas. Era, você tem o Conselho Nacional dos Psicólogos, você tem o Conselho Nacional do pessoal que cuida, dos Geólogos, você tem o Conselho Nacional dos Dentistas, você tem o Conselho Nacional… Os jornalistas resolveram criar um Conselho, e eu era presidente, eles foram me entregar uma proposta. E o Ricardo Coutinho, que trabalhava comigo, foi levar a proposta ao Congresso Nacional. Você não tem noção de como eu apanhei porque estava criando um Conselho Nacional de Jornalistas. Ou seja, os donos de jornais, os donos da televisão não aceitam. É porque é um atraso muito grande na concepção do significado do que pode fazer um Conselho. 

Aqui no Brasil se fala em liberdade de imprensa para os outros, mas na verdade não tem nada com menos liberdade de imprensa do que… eu passei 9 meses sem ter um direito de resposta. Só para você ter ideia, em 9 meses eu tive 13 horas de Jornal Nacional contra mim. Mais a Bandeirantes, mais a Record, mais o SBT. Eu tive quase 60 páginas de revistas contra mim, 680 primeiras páginas de jornais contra mim, sem que eu tivesse o direito de responder. Entretanto eu estou aqui. Estou aqui vivo, saudável, forte, e com disposição de continuar brigando. Porque eu não cedi o ímpeto que eles queriam que eu cedesse, me acovardar e pedir desculpas a eles. Quando a gente fala em regular a comunicação, talvez o nome não seja mesmo regular porque ele logo se revolta, a ABERT se revolta e todo mundo, não, vai querer controlar a minha rádio. 

Eu lembro da guerra que fizeram contra A Voz do Brasil. Eu lembro da Voz, não, porque isso é ditadura, porque não pode ser às 7 horas, a gente tem que mudar… E conseguiram mudar. Para muita gente no Brasil o único jeito de ver o que acontecia no Congresso Nacional era A Hora do Brasil. O cara que era contra era daqui de São Paulo, mas ele não tinha noção o que é que significava A Hora do Brasil para um matuto na cidade de Lagarto, em Sergipe, sabe, para um senhor lá em Garanhuns, em Pernambuco. O cara está no meio do mato ele vai dormir 7 horas da noite, então ele vê. Então, talvez seja preciso construir uma outra forma de falar, mas que precisa ser regulado, precisa ser regulado. Você não pode ter quatro ou cinco canais de Youtube, que não sei das quantas, e que não paga imposto no Brasil, que não tem nenhum controle do Brasil, que faz o que quiser sem que você tenha nenhum critério sobre eles. Esses companheiros que trabalham nos aplicativos, você veja um negócio, essas empresas, você não sabe quem é o teu patrão. Então, eu acho que nós vamos ter que fazer essa discussão. Talvez eu tenha cometido um erro de achar que era o presidente da República que tinha que fazer, não é o presidente da República, é a sociedade que tem que fazer e é o Congresso Nacional que tem que votar. E é difícil de mudar porque são eles que têm os canais de televisão. 

Quase todos os políticos, os mais importantes tem um canal de televisão, tem uma repetidora da Globo no seu estado, a repetidora do SBT no seu estado, a repetidora, e eles comercializam aquilo com muita facilidade. Então, eu sei que é difícil, mas é um tema que precisa ser levado a sério por quem gosta de comunicação nesse país, inclusive para garantir ao que ele chamava até outro dia de blogueiro sujo, sabe, o direito de ter acesso à participação na distribuição de dinheiro na comunicação nesse país. Senão vai tudo para os mesmos sempre, e as pessoas que são sérias não têm o direito de crescer. Como eu não sei, eu só sei que vocês vão participar desse debate. Eu só sei que vocês vão participar desse debate porque é necessário fazer isso. 

A segunda coisa, é o seguinte, você sabe que o empresariado sabe o que eu fiz nesse país. Se tem alguém que sabe o que eu fiz foram os empresários. Porque a verdade, a verdade nua e crua é que eu fui o único político que presidiu esse país que não vim do meio acadêmico ou empresarial, e eu duvido que alguém tenha tratado os empresários com mais carinho do que eu, inclusive com um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, com a participação de 100 empresários, sindicalistas, padres, pastores, para a gente elaborar parte das coisas que a gente precisa fazer nesse país. O que eu acho grave na discussão que eu fazia com empresários era que muitos empresários não querem repartir um pouco daquilo que ganham. Eu tinha uma Comissão Tripartite que eram os empresários, os sindicalistas e o governo para discutir a reforma trabalhista. Sabe, a gente não queria manter a reforma trabalhista tal como ela existia aprovada em 1943. Era preciso mudar, adequar. Mas a gente não queria destruir tudo, era preciso manter a garantia mínima para o trabalhador, sabe. Mas eles não quiseram, eles não queriam, então não deu certo. 

E eles fizeram agora essa reforma abrupta, que foi um prejuízo, sem permitir que os trabalhadores pudessem falar. Eu não vi um debate na televisão que tivesse um representante dos trabalhadores na reforma da Previdência. A Previdência de quando em quando uma geração precisa propor uma reforma para outra geração. Sabe, as pessoas vão ter que se compenetrar disso, cada geração vai ter que deixar uma política da Previdência para outra por causa da longevidade, por causa que as pessoas, quanto mais gente participa, menos dinheiro sobra, quanto menos gente participa, mais dinheiro sobra. Então, nós temos um problema que nós precisamos sempre ajustar, mas não precisa ser feito como se fosse uma coisa de cima para baixo, eu quero ajustar porque o governo quer fazer. 

Até 2014 a Previdência era superavitária, por que é que era superavitária? Porque a gente criou 22 milhões de empregos com carteira profissional assinada, a gente legalizou 6 milhões de pequenas empresas. Se o país está crescendo o déficit da Previdência é menor. Agora, o que fez o Malan, é que ele colocou o déficit do Tesouro nas costas da Previdência Social, e aí você vai criando uma narrativa de que a Previdência é deficitária, a Previdência é deficitária, a Previdência é deficitária. No mundo inteiro a Previdência vai ter problema. No mundo inteiro. Então, de quando em quando, nós, de forma civilizada, vamos ter que fazer um estudo, apresentar para a sociedade, olha, nós estamos com um problema assim, nós estamos arrecadando menos do que nós estamos pagando, é preciso que a gente faça um acerto de contas aqui, ou a gente aumenta ou a gente muda alguma coisa. O que você não pode é ir tirando benefício do povo, sabe. Por exemplo, tem benefício que é necessário, o cara trabalhou a vida inteira, ele quer viver minimamente e com dignidade. E as pessoas que vivem com dignidade são as pessoas que ganham R$ 2 mil reais, R$ 2.500 mil. Quem ganha muito são os servidores públicos qualificados, as chamadas carreiras de Estado, que se aposentam com o salário que ganhavam, e ainda recebe aumento da categoria como se tivesse trabalhando quando vem reajuste. Sabe, gastar dinheiro com Previdência, os militares gastam muito, dois terços do orçamento militar é para pagar aposentadoria. 

Eu não sei agora como é que está, mas você tem 400 generais na ativa e 13 mil aposentados recebendo o salários igual os que estão na ativa. Não pode continuar assim. Agora, você mexe nisso com esse Congresso que está aí? Não mexe. Então, eu penso, veja, que uma das coisas que eu quero fazer é fazer uma discussão mais séria com a sociedade brasileira, sem ter uma posição fechada. Mas vamos discutir cada assunto, política tributária, que política tributária nós precisamos? O que é que pode ser justo para a gente fazer arrecadação justa e fazer a distribuição justa? Eu não sou o dono da verdade, não é o meu ministro da Fazenda que é o dono da verdade, não é o burocrata que prepara o modelo e fala, essa daqui está boa. Não. Vamos tentar conversar, vamos tentar gente de vários setores da sociedade para a gente ver o que é melhor para esse país. Se a gente quiser criar um país que seja um país forte, um país que tenha sustentabilidade, um país que cuide da questão ambiental, um país que cuide do seu povo, que cuide dos aposentados. É possível. O padrão de vida que eu quero para o povo brasileiro é um padrão de vida que existe em muitos países europeus. 

Porque somente a economia crescendo é que a gente pode fazer a distribuição. Se a empresa quebrar, acabou. E tem o erro de dizer, ah, o Lula quer que a empresa quebre. Não. Empresa falida não vale nada, ou seja, empresa falida… Eu quero é empresa produzindo, empresa lucrando, empresa contratando, trabalhador feliz porque está recebendo um salário justo, a Previdência feliz porque está recebendo um pagamento do trabalhador. É isso que nós sonhamos, e é isso que nós precisamos passar para as pessoas. Quando o PT nasceu era difícil, cara. Quando o PT nasceu um metalúrgico que era mandado embora e montava um bar já virava inimigo, ele era patrão. Ele era patrão, sabe? Mas isso avançou. Eu tinha uma avó minha que era mãe do marido da minha primeira mulher, ela tinha um carrinho 66, quando ela chegou no PT os caras falando: lá vem a burguesa do Lula. Sabe, isso mudou. O PT amadureceu, são 40 anos. 

O PT hoje tem noção do que é governar esse país, como é difícil a convivência democrática, mas nós temos que garantir. Eu duvido, Zé, que durante os meus oito anos de mandato tenha um empresário que tenha tido alguma razão para ter bronca. Porque nunca, nunca, nunca se fechou uma porta para conversar. Uma vez eu fiquei com raiva do Hiroshi, aqui em Osasco. Eu vim abrir a fábrica de produzir roda de trem, fizemos um investimento, passado quatro meses ele estava comprando as rodas da China e abandonou a produção aí e eu fiquei muito puto da vida. Mas veja, eu acho que o trabalhador precisa que a empresa esteja bem, que a empresa esteja produzindo, que o empresário esteja ganhando, e quanto mais isso acontecer mais ele vai trabalhar feliz, mais ele vai receber o seu salário dignamente e a economia vai funcionar normalmente. Esse é um sonho que eu tenho, essa é uma coisa que eu acho que nós precisamos vender todo santo dia, e no momento certo nós vamos conversar com os empresários. Nós estamos numa fase de produzir programa de governo, o que é que a gente vai propor, o que vai fazer nesse país, e aí nós vamos tentar resolver o país. Mas eu acho que na nossa primeira passagem pelo governo os empresários ficam pensando, que Lula vai voltar? É o Lula nervoso, é o Lula raivoso, é o Lula…? O Lula que vai voltar é o Lula. Não tem nenhum outro Lula, tem eu, que eles já conhecem muito bem. Conhecem da minha história do sindicato, conhecem da minha história da presidência da República. É esse que vai voltar. Mais maduro, mais calejado, mais comprometido com o Brasil e mais disposto a acabar com a miséria desse país. E no país que eu sonho todos podem ganhar. Todos devem ganhar. É isso o que eu quero para o Brasil e vou tentar levar isso em prática.

Laura Sabino (Canal Laura Sabino): 

Em primeiro lugar, agradecer o convite por estar aqui. Saudar o grandioso Point dos Jovens, o nosso chat nas redes. Meu nome é Laura Sabino, presidente. Boa tarde. Sou cria de periferia, nasci em uma área muito deteriorada, que o nome é Ribeirão das Neves. É a segunda pior cidade para ser mulher no Brasil e o maior complexo carcerário da América Latina, a gente tem 8 presídios na nossa cidade. E eu estou falando isso porque tem a ver com a minha pergunta. O Luigi falou sobre a questão de tirar o título, e a maioria do público que me segue são pessoas mais jovens, são pessoas nessa faixa etária, que a galera tem feito campanha para tirar o título de eleitor. E foi, eu tenho visto isso, assim, a gente somado temos 300 mil seguidores, e muita gente veio me mandar mensagem falando: Laura, eu não quero tirar o título. 

E essa pergunta para mim foi bem interessante porque assim, o meu canal é um canal de esquerda, marxista inclusive a maioria das abordagens, e muita gente, não tem vontade de tirar o título. E aí eu estava vendo essas campanhas sobre tirar o título e eu percebi que, eu acho que a gente está indo por um caminho errado ao fazer as perguntas assim. Eu percebo isso pelo meu público. Porque se a gente tem um número imenso de jovens que não querem mais o Bolsonaro no poder, inclusive a grande maioria dos jovens não quer o Bolsonaro no poder, e a gente desde a redemocratização não tem um número, nunca tivemos um número tão baixo de pessoas que quiseram tirar o título nessa idade, a pergunta deveria ser o porquê é que nós não estamos conseguindo mobilizar os jovens. Porque a política institucional não tem conseguido mobilizar os jovens a ponto de eles falarem assim, olha, vale a pena eu participar desse campo político, nessa área da política. E aí, como eu fiquei por último, Crispiniano, não me mate, eu quero fazer mais uma pergunta aqui, se ele não deixar eu vou falar que é autoritarismo. 

Mentira, qie tem a ver um pouco com a minha trajetória e com as perguntas que o Point dos Jovens me mandou, foram mais de 4 mil perguntas em uma hora. Então provavelmente a gente teve mais de 10 mil perguntas na caixinha sobre o senhor. E as pessoas pediram muito para eu falar com você sobre a questão de políticas sociais. Eu falei no começo que eu sou de uma comunidade, o meu pai nasceu na favela, hoje é professor universitário também por culpa do senhor, o senhor ajudou isso. Eu sei que eu, neta de analfabeta, que nasci onde eu nasci, eu sei que eu não estaria na UFMG se não fosse por políticas públicas no governo do senhor. E eu sou muito grata a isso. Mas eu percebo lá na minha quebrada, quando eu estou conversando com a galera, a gente sempre teve uma taxa muito alta de assassinato e de violência policial. A gente tem recentemente o caso do Jefferson, e aí eu postei, eu fiz uma live e citei o caso do Jefferson e falei, olha como o governo Bolsonaro é, está matando os jovens negros na minha quebrada, na minha periferia. 

E aí uma amiga minha me mandou mensagem e falou o seguinte: Laura, você está errada, você lembra que quando a gente era criança e meu irmão foi morto na porta da escola que a gente estudava. Não é só no governo Bolsonaro, isso foi aprofundado. Por que é que eu estou falando isso para o senhor? Porque eu cresci, eu tenho um pai militante, cresci num assentamento do MST também, e eu tinha um livrinho que o nome dele era ‘O modo petista de Governar’, e aí ele falava o seguinte, que era um pé dentro e um pé fora, um pé dentro das políticas institucionais e um pé fora. E aí eu queria que o senhor falasse, porque eu não me esqueço desse discurso, eu era criança, no colo do meu pai, eu vi você falando o seguinte: que luta política é feita pelas pessoas. Que democracia não era votar de quatro em quatro anos. E isso me marcou muito. E aí eu queria muito que você falasse. 

Essa volta toda que eu dei é porque a gente lembra desse caso desse colega nosso que foi assassinado criança, a gente era criança quando ele foi morto, foi solucionado quando a gente foi para rua reivindicar, fechamos a rodovia, e aí depois disso o policial foi punido. E aí eu gostaria que você falasse não só para o Point dos Jovens, mas também para as pessoas que estão assistindo, sobre a importância da política ser feita nas ruas, que não é só votar ou esperar que todas as soluções do mundo vão vir por vias eleitorais. Por fim, agora eu digo que é brevemente mesmo, Crispiniano, não me mate, que é a questão das reformas. Queria que você falasse um pouco sobre as reformas, como você vê essas contrarreformas, na realidade. A Rita Von Hunty tem uma frase que é: ninguém entra no seu banheiro, quebra tudo e fala que fez uma reforma. Então, essa reforma da Previdência, essa reforma trabalhista, queria que você falasse um pouco, a PEC do Teto de Gastos, como é que você vê isso. Eu queria que você falasse um pouco para a gente.

Luiz Inácio Lula da Silva:

Vamos começar a entrevista de novo aqui. Laura, deixa eu te falar uma coisa sobre segurança. Eu vou ter uma reunião com vários governadores de estado, que já governaram 16 anos, para que a gente veja qual é a experiência bem-sucedida que aconteceu a nível de segurança nesses estados. O PT governou Sergipe, o PT governou o Piauí 16 anos, o PT governou o Ceará 16 anos, o PT governou outros estados importantes, a Bahia 16 anos, tem o PSB governando outros estados, tem o Flávio Dino ex-governador do Maranhão. Nós queremos saber qual é a experiência bem-sucedida de segurança, porque a segurança sempre é um problema que vem à tona, a violência na periferia continua forte, o feminicídio continua forte, e cresceu na pandemia. 

Então como é que a gente resolve isso? Não tem uma pessoa, na minha opinião, que saiba como fazer isso, é preciso juntar as várias pessoas com as várias experiências para saber se a gente resolve. Eu não acho que a solução do problema da segurança está em mais polícia, eu acho que está assim, primeiro eu acho que uma parte da violência que existe na periferia desse país ela acontece em razão da ausência do Estado no cumprimento das suas obrigações. Se o Estado estivesse cumprindo com as suas obrigações na área da Educação, na área da Saúde, na área do lazer, na área do tratamento de esgoto, na área de saneamento básico, na área da cultura, se o Estado estivesse presente todo santo dia no momento das pessoas, a polícia precisaria estar apenas como um componente do Estado a mais, e não apenas para acabar com a violência. 

Porque a polícia também só vai quando é chamada para matar. O policial quando ele sai da casa dele e vai para a rua ele já vai sabendo que tem um cara armado esperando ele e que ele precisa ser mais rápido do que o cara. É preciso a gente evitar que as coisas aconteçam da forma abrupta como acontecem, e aí eu acho que uma coisa que nós temos que discutir é qual é o papel do estado. Vamos saber se o governo do Rio de Janeiro, se o governo de São Paulo, se o governo da Paraíba, se o governo de Pernambuco, ou seja, vamos saber se esses governantes estão fazendo com que o estado cumpra com a sua função social. Se o estado está na comunidade, se ele está lá na Educação, na Saúde, na Cultura, no saneamento básico, se ele está fazendo a obrigação dele, porque se ele fizer a obrigação dele vai diminuir grande parte dos problemas, do nervosismo da sociedade, da violência. 

Outra coisa que eu acho, que é uma coisa que nós vamos colocar em prática, é a escola em tempo integral. Eu acho que se nós adotarmos no Brasil a escola em tempo integral, a nível nacional, tanto a nível de ensino fundamental como a nível de ensino médio, que a gente puder colocar os adolescentes e as crianças dentro de uma sala de aula estudando, praticando esporte, ou seja, praticando, tendo acesso a várias coisas que precisa saber, a gente não vai ter ele na rua à disposição do narcotráfico e nem à mercê da polícia. Eu estou dizendo isso para você, Laura, porque esse é um tema que me inquieta. Me inquieta. Porque eu já tenho 76 anos e eu ouço esse problema da segurança desde os 10 anos de idade, sabe. 

O que tem sucesso na televisão é o cara que tem aquele programa que tem que matar, bandido bom é bandido morto, tem que matar mesmo, tem que não sei das quantas. Isso é 24 horas por dia, você levanta de manhã ouvindo isso, você vai dormir ouvindo isso, e ninguém diz o que tem que fazer. O governador quando prende um bandido, o governador corre para tirar uma fotografia bem bonita, sabe, mas quando mata 40, 50, 60 ele desaparece. Então, eu quero fazer uma discussão mais séria agora. Só quero que você saiba o seguinte, eu estou convocando uma reunião com o Aloísio Mercadante que está aí atrás ainda, nós vamos fazer uma reunião pela Fundação Perseu Abramo com todos os governadores progressistas para a gente estudar qual é a experiência bem-sucedida. Vamos ouvir o movimento que é vítima da violência para dizer como é que as coisas acontecem, para a gente então discutir uma proposta de segurança que possa resolver, não definitivamente, porque só vai resolver definitivamente quando as pessoas tiverem vivendo uma vida digna, decente e morando adequadamente. 

Enquanto as pessoas estiverem sendo tratadas como objetos, ou seja, a violência ainda vai continuar no nosso país. Outra coisa é as reformas, ou seja, eu, como você, toda vez que ouvia falar em reforma, a reforma é sempre para melhorar, eu vou reformar minha casa, é para melhorar, eu vou reformar o meu carro, é para melhorar, vou reformar meu terno, para melhorar. Mas quando o governo fala de reforma é para piorar. É para tirar um direito que as pessoas conquistaram ao longo do tempo e fazer com que a situação do trabalhador fique mais vulnerável. É um gesto, eu diria, de ignorância e de atraso, porque num mundo democrático você ter sindicato forte, você ter trabalhador ganhando bem, você ter trabalhador vivendo dignamente, é bom e saudável para a democracia e para o país. Agora da Espanha nós trouxemos à Fundação Perseu Abramo uma ministra do Trabalho deles que é a segunda vice-presidenta, que durante nove meses negociou a reforma trabalhista que foi feita em 2012 para tirar direitos dos trabalhadores. Ela negociou uma coisa importante, para o pessoal que trabalhava em aplicativo ter direito. Ele tem que ser reconhecido como trabalhador, ele tem que ter direito a férias, ele tem que ter direito a jornada de trabalho, porque senão ele vira escravo. 

Então, nós vamos tentar criar também Comissões Tripartites aqui no Brasil para rediscutir. Sabe, se a gente chegar lá, Laura, eu acho que nós vamos ter que fazer muita coisa nesse país. Como é que a gente vai reconstruir o IBAMA para funcionar adequadamente, melhor do que funcionava? Como é que a gente vai recuperar a ICMBio para ela cumprir o papel para o qual ela foi criada? Como é que a gente vai recuperar os Conselhos Tutelares, respeitando as pessoas que são eleitas na comunidade? Então não sei se você percebe, é um trabalho quase de refazer as coisas que funcionavam e que eles desmontaram. Como é que a gente vai mudar os Decretos que eles fizeram para ocupar terras indígenas? Tudo isso nós vamos ter que fazer e vai ser um trabalho imenso, vai ser um trabalho muito grande, mas só tem sentido se a gente ganhar para a gente fazer isso. 

Se a gente não conseguir fazer, para mim não tem nenhum interesse em voltar a ser presidente da República. Como eu estou convencido que vocês vão me ajudar a fazer as coisas, eu vou nessa pegada. Vou nessa pegada porque o Brasil precisa ter uma chance, e o Brasil do século XX precisa alcançar um papel de destaque. Eu vivi na pele os melhores momentos do Brasil. Eu vivi na pele. Eu vivi como é que esse país era respeitado no mundo inteiro. O Brasil era referência para muitas coisas no mundo. O Brasil virou referência ambiental, o Brasil virou referência com o Programa Luz para Todos, o Brasil ficou referência no combate à fome, o Brasil ficou referência em muita coisa, é que tudo está destruído, Laura. Então a gente vai ter que reconstruir. E as pessoas que não estão motivadas para a política eu queria só dar um conselho: não existe hipótese de mudar esse país se não for pela via da política. Então, se você não gosta, se você ainda não tem um candidato que você gosta, passe a frequentar política, passe a fazer política e seja o político que você acha que os outros têm que ser. Você não pode ficar querendo que os outros façam por você o que você tem que fazer, pare de falar e entre na política e faça o partido que você quiser, lance o candidato que você quiser, sempre na perspectiva de que depende de você mudar as coisas. 

Eu aprendi, e posso te dizer, Laura, o seguinte, um cara que saiu de Pernambuco com 7 anos de idade como eu saí, passar a vida que eu passei, não ter a formação intelectual que eu gostaria de ter tido, chegar à presidência da República, e ser considerado até hoje o melhor presidente da República que esse país já teve, significa que todo mundo pode. Significa que todo mundo pode mudar o país. E tem muito mais gente mais competente do que eu que pode mudar, é só ter compromisso. Agora, esse compromisso é que é difícil você achar as pessoas que estão com a disposição de fazer o sacrifício pelos outros. Como eu sou um cidadão indignado, eu não me conformo com a fome, não me conformo com o desprezo com que a elite brasileira trata o povo pobre, você não sabe o ódio que eles ficaram do PT quando a gente aprovou a assinatura da carteira profissional para a empregada doméstica. Você não sabe o ódio do PT, sabe. Porque a empregada doméstica era tratada como se fosse uma secretária, ah, minha amigazinha, minha querida, ela é tão boazinha. 

Uma vez eu já contei essa história para vocês, eu vou contar para terminar. Eu fui na casa de um amigo meu, amigo, amigo, sabe, amigo comunista do bom. Aí eu chego na casa do cara para comer uma feijoada, ele me leva na cozinha, me apresenta uma mulher chamada Benedita. Uma mulher forte, uma afrodescendente, e fala: Lula, essa daqui, essa daqui criou o meu filho, essa aqui criou a minha filha, essa aqui é da família, Lula. Tudo bem, me apresentou, eu fui almoçar, quando terminei a feijoada eu fui embora e fui me despedir da mulher que fez a comida. Ela falou: Lula, ele falou que eu sou da família, pergunta para ele se eu vou estar no testamento dele. Então, é quando a pessoa começa a sonhar em participar do testamento que vira inimiga. Enquanto você não sonhar… 

Gente, olha, mas eu queria agradecer a vocês de coração, eu não sei se para vocês foi cansativo, para mim não foi. Eu acho que nós vamos ter que repetir isso mais vezes, quem sabe, Crispiniano, num modelo menor, para dar tempo de cada uma fazer umas duas, três perguntas, sabe. Eu tenho um defeito que toda pergunta eu quero repetir e detalhar, falar demais, isso é próprio de alguns políticos brasileiros. Mas de qualquer forma, eu não gosto de, eu nunca gostei de ser sucinto nas respostas, porque às vezes a gente não responde tudo. Eu não sou daquele de sim ou não, sabe. Então eu quero agradecer a paciência de vocês, quero dizer para vocês que eu estou à disposição. Quero dizer para vocês que eu não tenho todas as soluções para os problemas do Brasil, não acreditem se alguém falar que tem. Não acreditem. O cara muito sabido ele não tem nem a capacidade de ouvir. O que é importante é a gente ter noção que a sociedade brasileira está ávida para participar. Ela quer ter uma chance de dizer o que ela quer. Ela quer ter uma chance de participar no processo de transformação. 

E eu queria terminar contando uma coisa. Quando resolvemos criar as Olimpíadas da Matemática no Brasil, as Olimpíadas da Matemática era uma coisa que existia apenas em escolas particulares. Em 2004 eu tentei criar na escola pública, me disseram, eu fui no Instituto de Matemática, de Ciências Aplicadas, e as pessoas disseram que era difícil fazer na escola pública, e eu achava que era necessário fazer. Mas tentaram me convencer de não fazer, então eu teimei de fazer na escola pública. No primeiro ano a gente conseguiu inscrever 10 milhões de pessoas, no segundo ano nós inscrevemos 14 milhões de pessoas, e chegamos a ter 16 milhões de pessoas da escola pública inscritas nas Olimpíadas de Matemática. O que é que eu descobri? 

A matemática só é difícil até a pessoa aprender a lidar com ela, quando a pessoa aprende a lidar com ela passa a ser a melhor matéria da escola. Ou seja, as pessoas queriam ir para a escola de domingo para aprender matemática. O Brasil é hoje, eu não sei se já desmontaram, Aloísio, mas o país é hoje o Brasil que tinha a maior quantidade de alunos participando nas Olimpíadas de Matemática. Depois nós criamos as Olimpíadas de Português, depois criamos as Olimpíadas de Ciências, que era para tentar pegar todas as matérias e fazer as crianças se interessar e estudar, levar para casa o computador e discutir. Eu não sei como é que anda isso agora, mas essa é uma coisa que a gente vai voltar, porque quando a criança é despertada e provocada e ela gosta, ela passa a ser a solução dos problemas da Educação nesse país. Portanto, gente, tem muita coisa para a gente fazer, continuem acreditando, que depende muito, muito, muito do comportamento de vocês. Continuem falando o que vocês falam, agindo do jeito que vocês agem para que a gente possa consertar esse país. Eu estou muito otimista de que nós vamos dar a volta por cima e a democracia vai voltar ao território nacional. Obrigado.