18 de novembro de 2021

Em palestra na Espanha, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta quinta-feira (18), que é urgente uma reconstrução profunda do mundo, sobre os alicerces da igualdade, da fraternidade, do humanismo, dos valores democráticos e da justiça social. Lula participou do seminário “Cooperação multilateral e recuperação regional pós-Covid-19”, na Casa América, em Madri.

O ex-presidente disse que mudar o mundo não pode ser apenas um sonho de juventude. “Mudar o mundo deve ser sempre a nossa profissão de fé, a própria razão para existirmos e nos lançarmos a uma luta árdua e permanente, da qual não poderemos jamais descansar”, afirmou.

Lula destacou que o mundo já estava doente antes de ser atingido pela pandemia da Covid 19. A doença, segundo Lula, era a desigualdade, a indiferença: “A desigualdade está na raiz de incontáveis mortes que acontecem ao redor do mundo. Inclusive quando o atestado informa como causa da morte a Covid”, afirmou, lembrando que milhões de pessoas ainda são atingidos pela fome.

“Mesmo que sobrevivam à Covid, 800 milhões de pessoas hoje não conseguem escapar de outro terrível flagelo – a fome”.  “Não é possível imaginar a fome num planeta que produz mais alimentos que o povo necessita”, declarou. Ele lembrou que existem recursos  no mundo, como se mostrou com o gasto de quase 2 trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro durante a crise de 2008. “Infelizmente, não vemos a mesma generosidade quando se trata de salvar o planeta do aquecimento global, combater a crescente desigualdade e eliminar a miséria no mundo”, afirmou Lula em seu discurso.

Nova governança global  

O ex-presidente voltou a dizer que os desafios globais não serão solucionados pelo sistema atual, criado após a Segunda Guerra Mundial. E novamente convocou uma reconstrução das instituições internacionais sobre novas bases, propondo uma conferência mundial para definir uma nova governança global, justa e representativa. 

“Nós precisamos ter coragem de dizer que precisamos de uma nova governança mundial, que a governança mundial criada depois da Segunda Guerra Mundial e nem suas instituições resolvem nossos problemas”, afirmou, criticando atuação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e reafirmando a necessidade de ampliação do Conselho de Segurança da ONU, formado hoje apenas por Estados Unidos, Inglaterra, França, China e Rússia. “Por que não outros países da Europa? Por que não da América Latina? Por que não da África? Qual a justificativa que tem para o país do tamanho da Índia não está no Conselho de Segurança? É preciso criar uma governança com mais gente e mais poder de tomar decisões”. 

O ex-presidente também falou dos riscos de as medidas propostas na Conferência Mundial para Mudanças Climáticas (COP-26), realizada na semana passada, na Escócia, não serem efetivadas. “Porque não tem governança para obrigar, os Estados nacionais não cumprem”,  afirmou, dizendo que a desigualdade deve estar no centro do debate internacional. “É impensável a gente colocar a cabeça no travesseiro e dormir sem lembrar que tem gente na rua, dormindo no frio. O povo precisa de um pouco dinheiro.” 

Ele disse querer uma sociedade em que os bens da humanidade possam ser acessíveis a toda humanidade. “Eu estou mais consciente, mas não estou radical. Tem gente que acha que fiquei preso e quero me vingar. Não não quero vingança, quero compartilhar a oportunidade de viver bem com o povo brasileiro e com o povo que a gente puder ajudar. Quero convidar a humanidade a voltar a ter fraternidade e compaixão”.

Imigração

Ao falar a desigualdade no mundo, Lula tratou também do tema da imigração. “Quando eu falo da desigualdade, falo do ser humano, do nômade ser humano. A humanidade não nasceu para ficar no mesmo lugar. O que acontece hoje com a imigração e tanta gente perambulando para o mundo? Por que isso acontece?”, questionou.  

O ex-presidente respondeu lembrando que ainda há pobres na Europa hoje e que por muitos séculos foram os europeus que migraram para outros países atrás de riqueza. Mas hoje, o discurso dos líderes de direita é fechar as portas dos países ricos aos pobres. O ex-presidente também falou da escravidão, que gerou riqueza em muitos países, inclusive ao Brasil. “As pessoas se esquecem que uma parte do mundo cresceu, inclusive o meu país, por conta de pessoas que não vinham por vontade própria, eram escravizados, inclusive no meu país”, disse. 

Lula lembrou que sua própria família precisou sair de Pernambuco, onde nasceu, para São Paulo, onde havia mais oportunidades. “Será que minha mãe queria ir para Pão Paulo mesmo? Não, ela precisava era dar comida para os filhos, porque, se tivesse (comida) lá, ela ficava em Pernambuco”, disse Lula, lembrando os imigrantes também são movidos pela necessidade. 

Para o ex-presidente, qualquer ser humano imigrante, seja da África, do Oriente Médio ou de qualquer país, é uma vítima de guerras provocadas pelos ricos. Ele disse imaginar se os trilhões de dólares gastos em guerras fossem destinados para acabar com a imigração. “Se um pobre africano tiver comida, se tiver dinheiro para comprar um pão para seu filho, ele não vai atravessar o oceano para vim a Europa.”

Lula concluiu o discurso dizendo que o “maior alento é a certeza de que a construção de um outro mundo é perfeitamente possível, porque já fomos capazes de construí-lo. Um mundo mais sustentável, menos desigual, mais justo, mais solidário e mais feliz. É este o novo normal que desejamos. E que vamos construir juntos”.

Veja outras declarações de Lula em sua fala no seminário na Espanha:

Leia o discurso aqui.

Assista ao evento: