07 de outubro de 2021

Depois de ficar lado a lado com as catadoras, conhecendo as instalações do Complexo Integrado de Reciclagem do Distrito Federal (CIR) e até separando resíduos recicláveis nas esteiras, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo a governadores e prefeitos para valorizarem o trabalho da catação, e à população, para que sejam mais conscientes na hora do descarte.

“Quando se fala em meio ambiente no Brasil, só se fala na Amazônia. Mas a questão ambiental não se resume apenas a isso. É sobre a rua onde a gente anda. Não sei se nós da classe média paramos pra pensar na quantidade de lixo que a gente produz em casa”, disse Lula, lembrando da necessidade de educar, em casa e na escola, para a gestão correta dos resíduos.

Os centros de triagem de resíduos instalados no CIR foram construídos com recursos do BNDES em um terreno doado pelo governo federal às cooperativas de catadoras e catadores do DF durante a gestão de Lula.  A maioria dos homens e mulheres que estão trabalhando nos galpões do CIR agora, antes passavam os dias dentro das montanhas de resíduos, buscando o que pudesse ser vendido ou reaproveitado no Lixão da Estrutural, que já foi o segundo maior lixão da América Latina.

“Há muitos anos, lá no Lixão da Estrutural, nós sonhávamos com dignidade, em trabalhar debaixo de um teto. Essa realidade era muito distante dos catadores. Hoje, eu posso estar aqui e dizer: obrigada, presidente, por nos conceder este sonho”, disse Ana Cláudia Lima, presidenta da Associação Ambiente e da Coopertap, uma das muitas cooperativas cujos associados trabalham no CIR.

Mas Ana Cláudia lembrou que ainda há muito que avançar. “Nós vencemos o primeiro passo, de ter uma casa, ter uma estrutura, um banheiro. Nosso desafio agora é ter coleta seletiva. De que adianta ter uma casa linda e não ter resíduo?”

Lula reforçou o pedido. “Faço um apelo a governadores e prefeitos que ajudem. Tratem com respeito porque eles fazem pela cidade o que muitas vezes os governos não estão fazendo. Precisamos profissionalizar e humanizar a coleta de lixo. E dar oportunidade para esses trabalhadores.”

Reconhecimento dos catadores

De acordo com Aline Sousa da Silva, presidenta da Central de Cooperativas de Catadores (Centcoop), entidade que administra o CIR, os galpões têm capacidade de processar até 5 mil toneladas dia de resíduos. Hoje, conseguem dar conta de apenas mil toneladas. 

A razão é, de um lado, a limitação do alcance do serviço de coleta seletiva, que no DF, como em muitas cidades, é dividida entre empresas privadas e cooperativas. Outra, é a qualidade dos resíduos. Com o descarte indevido, muitas vezes misturando resíduos orgânicos, há contaminação do material que poderia ser reciclado.

“O índice de adesão da população à separação do lixo nas áreas atendidas pelo serviço porta a porta feito pelos catadores é de 87%. Onde é feito por empresa, é 37%”, contou Aline. “A gente quer que o serviço do catador seja reconhecido.”

O reconhecimento do trabalho de catação foi impulsionado durante o governo Lula. O Decreto 5.940 de 2006, que regulamenta a Coleta Seletiva em órgãos públicos federais, foi o primeiro a estabelecer medidas que estimulavam a organização dos catadores nacionalmente. Um ano depois, os catadores foram incluídos na Política Nacional de Saneamento Básico, com regras que favoreciam a contratação das cooperativas e associações.

Encontros e agradecimentos

Ao longo da visita, Lula ouviu muitos agradecimentos. Janilson Santana, presidente da Coortrap, disse ser muito grato pelo ex-presidente ter dados condições de trabalho aos catadores. E lembrou emocionado de um outro encontro: “Em 2006, eu fui escolhido pra entregar um prêmio na assinatura do decreto dos catadores. E eu nunca vou esquecer o que o senhor, presidente, falou para a imprensa que estava lá. O senhor disse ‘aqui dentro já entrou papa, rainha, rei, mas catador e morador de rua nunca’. Mas a gente estava lá. E meu amigo Cocó, levou até o cachorro pro Palácio do Planalto!”

Lula também aproveitou para contar histórias de encontros. Disse que, quando foi presidente, fazia questão de estar no dia 23 de dezembro na comemoração da Natal, que é organizada anualmente pelo Movimento Nacional de Catadoras e Catadores na capital paulista. 

“Muita gente preferiria que eu estivesse jogando golfe com a elite do Brasil, ao invés de estar debaixo de um viaduto conversando com vocês”, disse o ex-presidente. E emendou: “Se um dia o PT voltar a governar este país, a gente vai voltar a se encontrar todo ano.”