20 de dezembro de 2021
Fotos: Ricardo Stuckert

Em entrevista exclusiva para a agência Reuters, Lula diz que se a sociedade o eleger em 2022, é para ele consertar aquilo que não tiveram competência para fazer: “Qualquer pessoa pode ficar vendendo que vai fazer isso ou aquilo. Eu não posso, eu tenho um legado. Esse legado é uma base de qualquer governança minha, eu não posso fazer menos

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista exclusiva à agência internacional de notícias Reuters na última sexta-feira (17). Na conversa, Lula comentou a difícil situação do país, com mais de 19 milhões pessoas passando fome, criticou a política econômica do atual governo, que empobrece a população, falou da responsabilidade de seu legado e disse que o Brasil precisa ser reconstruído com segurança, harmonia e tranquilidade.

Questionado sobre uma eventual candidatura à presidência no próximo ano, Lula lembrou sua gestão (2003-2010) voltada à inclusão social com crescimento da renda em todas as classes sociais e disse saber o que a sociedade espera dele. Ele reconheceu que, diferente de outros políticos, tem um legado que cria expectativas e esperanças. 

“Eu sei qual é a esperança que tem na cabeça das pessoas, e eu sei que não posso mentir para eles, eu não tenho direito de mentir. Qualquer pessoa pode ficar vendendo que vai fazer isso ou aquilo. Eu não posso, eu tenho um legado. Esse legado é uma base de qualquer governança minha, eu não posso fazer menos. Eu sei que eu tenho mais responsabilidade, então não quero brigar não. Eu quero juntar força para poder construir”.

Para Lula, sua passagem pela Presidência da República, de onde saiu com 87% de aprovação, o obriga a fazer sempre mais e buscar a paz e não a briga. O ex-presidente disse que quer ser um construtor da harmonia.  “Eu quero ser um construtor de harmonia. Se a sociedade me eleger, não vai ser para ficar brigando com os outros, ela vai me eleger para consertar aquilo que os outros não tiveram competência para fazer ou para consertar o que foi destruído.”

A fome tem pressa

Lula ressaltou que há pautas urgentes e que quem tem fome não pode esperar. Ele voltou a repetir que só é possível construir desenvolvimento sustentável quando a classe mais pobre da população for incluída no orçamento. “Nós temos que fazer algumas coisas rápidas, quem tem fome não pode esperar. Por isso é que o Estado tem que entrar na briga com muita competência, fazer o que tiver que fazer”.

Desastre econômico

O ex-presidente criticou a política econômica do atual governo e a insensibilidade do presidente Bolsonaro. “Um cara que não chora, que não soltou uma lágrima com 620 mil mortes (por Covid-19), um cara que não tem sentimento, um cara que não gosta de pobre, de índio, de negro, de LGBT, de sindicato … “, comentou. “Esse país não precisa ser destruído como está sendo, esse país não pode ter um presidente que conta cinco ou seis mentiras por dia”.

Lula também criticou a incompetência da equipe econômica de Bolsonaro, liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O ex-presidente destacou que a única política que eles entendem é a venda das empresas e das riquezas brasileiras, por meio das privatizações, acabando com patrimônio nacional. “Não pode ter um ministro da Economia que não conhece a palavra desenvolvimento, geração de emprego, aumento de salário, crescimento econômico. É um presidente avesso, que levanta, almoça, janta e dorme pensando no que ele vai vender no dia seguinte.”

Um novo mercado consumidor

Questionado sobre a expectativa dos empresários com a sua eventual candidatura, o ex-presidente disse que tem a oferecer é um novo mercado consumidor no país. Lula também disse que tem duas palavras milagrosas que valem para o Brasil e para qualquer país do mundo, credibilidade e previsibilidade: “Você tem que ter credibilidade externa e credibilidade interna. Quando você fala, as pessoas têm que acreditar no que você está falando … E a segunda é previsibilidade. Tem que ter um governo previsível, pois as pessoas não podem ser pegas de surpresa todo dia”.

Sobre as relações com outros países, Lula defendeu uma América Latina forte, capaz de fazer um bloco econômico em parceria com a Europa. “A América Latina precisa do Brasil forte e a Europa precisa da América Latina forte. Nós poderemos, juntos com a União Europeia, criar um bloco econômico, um bloco com posições políticas aproximadas, com visões ambientais aproximadas, para fazer frente a dois gigantes que estão aí agora, de um lado dos EUA e do outro lado da China.”