13 de setembro de 2013

O continente africano precisa enfrentar o problema da fome de maneira duradoura e romper o ciclo de dependência das doações humanitárias. O problema da fome no continente não é uma questão econômica, mas política. E o Brasil tem muito a ajudar com sua experiência de sucesso no combate à fome e à miséria. Essa é a opinião do consultor em segurança alimentar Mafa Chipeta, ex-coordenador sub-regional para a África Oriental e representante da FAO na Etiópia. Chipeta visitou o Instituto Lula, em São Paulo, e repetiu uma frase que havia dito durante o encontro “Um mundo sem fome: estratégias de superação da miséria”, realizado pela revista Carta Capital na quarta-feira (11): “A proteção da África não pode se basear na caridade perpétua”. O encontro contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da ativista liberiana Leymah Gbowee, Prêmio Nobel da Paz, e da ministra do Desenvolvimento Social Tereza Campello.

A África tem recursos, faltam ideias e ação
Chipeta elogiou o modelo brasileiro e disse que o país pode ajudar não com mais dinheiro, mas auxiliando a usar melhor o dinheiro que já existe para um desenvolvimento sustentável. “O Bolsa Família, sem as condicionalidades, sem as crianças na escola e vacinadas, não seria tão importante quanto é hoje”, opina. Para Chipeta, o desenvolvimento africano sofreu muito com a dependência da ajuda humanitária. “A África tem recursos, a questão agora não é econômica ou climática, mas política. E o Brasil tem a tecnologia e a experiência em políticas públicas para ajudar um desenvolvimento independente do continente”.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Mafa Chipeta no Instituto Lula:

Como o senhor avalia os programas de combate à fome atualmente em curso na África?
Durante muito tempo o desenvolvimento africano foi tolhido pela ideia de que a ajuda humanitária seria a solução. Isso criou uma dependência muito grande. Eu passei boa parte da minha vida trabalhando para a FAO e captando recursos para segurança alimentar na África. Hoje eu olho para trás e não vejo rastro nenhum desses recursos. Não ficou legado nenhum. A Etiópia conta com US$ 2 bilhões de ajuda social e outros US$ 2 bilhões em redes de proteção. Esse dinheiro é usado para recuperar áreas degradadas ou para a compra emergencial de comida. E não há nada para o desenvolvimento agrícola. Como resultado, a cada ano o país enfrenta uma crise e volta a mendigar por mais comida. E, para ser sincero, muitos governantes se acomodam com essa ideia de ajuda humanitária e ajudam a eternizar essa dependência.

Qual a alternativa?
Precisamos de ajuda, sim, mas também precisamos que as pessoas venham à África para investir e obter lucro. No meu país, o Malauí, o governo concentra os esforços apenas no pequeno agricultor, há décadas. Os anos passam e os pequenos continuam sempre pequenos. Por outro lado, no Malauí ocidental, onde há alguns grandes produtores, os conflitos são enormes. A ajuda humanitária não resolve nada disso. O Brasil tem uma experiência que incentivou tanto o agronegócio, com o Ministério da Agricultura, como os pequenos, com o Ministério do Desenvolvimento Social. O Brasil pode ajudar a usar melhor o dinheiro, não a trazer mais dinheiro.

Se o problema não é dinheiro, o que falta para combater a fome na África?
Ontem no encontro eu lembrei uma frase do presidente Lula na África, “precisamos ter a fome e a miséria como responsabilidades institucionais, não apenas incluí-las no orçamento”. Basicamente precisamos da tecnologia e conhecer as políticas de sucesso. O Brasil tem as duas coisas. A FAO e outros organismos estão há décadas trabalhando no combate à fome no continente. Acho que o Brasil é quem pode trazer algo novo à discussão. Há, na África, uma admiração pelos exemplos de Brasil, China, Índia e também da Malásia, que é hoje um dos grandes investidores na África. Pela primeira vez, esses países emergentes mostraram que é possível evoluir de maneira independente, substituindo as velhas relações coloniais. A África tem recursos, falta encontrar as ideias certas, como esses países encontraram.

A presidenta do seu país vendeu recentemente o avião presidencial para combater a fome…
Sim, e muita gente ficou descontente com a medida. Ela usou esse dinheiro para comprar milho, trocando um ativo por produto consumível. Gastar esse avião para comprar comida é encorajar ainda mais a ineficiência. A cada três anos o Malauí sofre uma seca e tem uma safra ruim. Nós nunca vamos conseguir nos livrar disso produzindo uma tonelada e meia de milho por hectare. Temos que aumentar a eficiência e começar a produzir três ou quatro toneladas. A venda do avião não contribuiu em nada para essa melhora.

O senhor participou do seminário de combate à fome organizado em Adis Abeba pela União Africana, FAO e Instituto Lula. O que achou dos resultados?
Eu achei muito importante a decisão de trabalhar com países específicos: Angola, Etiópia, Malauí e Níger. Pois cada país tem sua realidade e é impossível trabalhar com 54 realidades ao mesmo tempo. Como eu disse no encontro ontem, a proteção da África não pode se basear na caridade perpétua, tem de haver um esforço político para um desenvolvimento independente dos países, baseado na produção e na remuneração e lucro justos a esses produtores.