04 de setembro de 2013

O professor da Sorbonne e da Fundação Getúlio Vargas Luiz Felipe de Alencastro falou nesta quarta-feira (4) sobre o tema “Escravidão e trabalho compulsório no Brasil”. O encontro, na sede do Sindicato dos Bancários, em São Paulo, foi o primeiro do ciclo “Conversas sobre África”, organizado pelo Instituto Lula com parceiros. Também participaram da mesa Clara Ant, diretora da Iniciativa África do Instituto Lula, Juvandia Moreira, presidenta do Sindicato dos Bancários e Celso Marcondes, coordenador-executivo da Iniciativa África.

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Clara Ant lembrou que o governo Lula mudou a prioridade da política externa brasileira e trabalhou para ampliar as relações entre o Brasil e os países africanos. Foram 33 viagens presidenciais ao continente, com a criação de 19 novas embaixadas. Ao deixar a presidência, Lula decidiu se dedicar ainda mais a desenvolver o trabalho voltado para a África. Juvandia Moreira, disse que é “uma honra organizar este evento junto com o Instituto Lula, esperamos organizar muitos outros encontros tão enriquecedores como este”.

Assista abaixo o debate na íntegra

Um país colonizado pelos africanos
O professor abordou alguns mitos e ressaltou a proporção única do tráfico de escravos para o Brasil, muito maior, por exemplo do que aquele dirigido aos Estados Unidos. “Entraram no Brasil quatro milhões e oitocentos mil africanos escravizados, oito vezes mais do que os portugueses que chegaram aqui até 1850”. Para o professor, isso transforma os africanos em colonizadores. “O Brasil não é um país de colonização europeia, mas africana e europeia. Isso faz toda a diferença”. É isso, segundo o professor, que vai dar no Brasil de hoje, o país com mais afrodescendentes fora da África e cuja maioria da população se declara afrodescendente.

Tráfico bilateral como grande negócio
“Praticamente 95% dos navios negreiros que chegaram com africanos ao Brasil partiram do Brasil”. Com isso, o professor desmonta o mito do tráfico triangular, segundo o qual os africanos eram uma mercadoria que fazia parte de uma troca de produtos entre Europa, África e as Américas.

Calcula-se que nas 15850 viagens negreiras, saíram da África 5,5 milhões de seres humanos e 4,8 milhões chegaram ao Brasil. Para sustentar uma rede dessa dimensão, havia uma rede logística impressionante, que reunia grandes empresas, banqueiros e o governo. Segundo o professor, nenhuma outra nação fez incursões tão interiores na África como os portugueses em Angola. Nessas batalhas de captura de escravos, participaram muitos soldados nascidos no Brasil e acostumados aos trópicos, muitos deles caboclos e mestiços. “O Rio de Janeiro é o maior porto negreiro das Américas e Luanda o maior porto negreiro da África. Duas cidades de língua portuguesa. Isso não é acaso”.

Duas visões sobre os bandeirantes
Os índios também fazem parte dessa história, de acordo com o professor. Os indígenas, quando deixaram de ser interessantes para o trabalho forçado passam a ser massacrados pelos fazendeiros nordestinos, porque atrapalhavam a expansão da pecuária. Diferentemente do que aconteceu em outros países da América, as comunidades indígenas não viraram comunidades campesinas. Em parte, porque a produção dos latifúndios escravagistas fazia concorrência e embarcava qualquer produção que desse lucro. Os indígenas, então, atrapalhavam. “Raposo Tavares e essa gente é tratada como genocida. Na Bolívia, bandeirante é sinônimo de bandido, aqui é nome de estrada”, diz.

Vídeo
Assista abaixo o vídeo com um resumo de 10 minutos da conversa que o professor Alencastro teve com a equipe do Instituto Lula

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