28 de março de 2020

Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo*

Bolsonaro promove a discórdia. Em nenhum país do mundo se vê algo semelhante. Com o agravamento da crise, a maioria dos governantes têm se portado como chefe de Estado. Muitos erros foram cometidos diante da pandemia, inclusive pela OMS, mas o esforço agora tem sido enfrentar, com base no melhor que a ciência pode oferecer, o desafio monumental com que nos deparamos.

Em menos de duas semanas, Bolsonaro conseguiu a proeza de: 1) hostilizar dois Poderes da República, convocando e participando de ato pelo fechamento do Congresso e do STF; 2) criar uma crise diplomática com a China, soltando a coleira de seu filho Eduardo; 3) afrontar 25 governadores, muitos dos quais seus aliados, determinando o fim do isolamento social, depois de seu ministro da Saúde tê-los induzido a decretá-lo.

Quando, no domingo passado, Bolsonaro editava a MP da Morte —que permitia às empresas a suspensão de contrato de trabalho por quatro meses sem pagamento do salário—, o primeiro que veio a público defendê-la foi o governador João Doria. No que concerne à economia, direita e extrema-direita sempre estarão de acordo em fazer recair a conta da crise nos ombros do trabalhador.

Diante do desgaste inédito que sofreu ao longo da semana, tendo que revogar a referida MP, Bolsonaro, comportando-se como verdadeiro chefe de facção, resolveu dar um passa-moleque nos governadores.

Havia uma implícita divisão de tarefas a cumprir, respaldada pelas atribuições de cada um no pacto federativo: governadores e prefeitos tratariam de evitar o colapso do sistema de saúde; e o governo federal trataria de evitar o colapso da economia. Vidas e empregos se perderiam, infeliz e inevitavelmente, mas as perdas poderiam ser minoradas.

Estudos sobre a gripe espanhola (1918), por exemplo, mostram evidências robustas de que intervenções não farmacêuticas, como o isolamento social, não apenas diminuíram a mortalidade como mitigaram as consequências econômicas da pandemia comparativamente às regiões que não as adotaram.

Não existe receita simples, mas não estamos diante de um dilema moral entre saúde e economia.
Ciente de sua total incapacidade para enfrentar o problema, Bolsonaro resolveu apostar. Convencido de que os estragos a uma economia já combalida são maiores do que alguns milhares de corpos empilhados —num país pobre que, afinal, pratica genocídio diariamente—, lançou a campanha “o Brasil não pode parar“, que tira as pessoas do isolamento e isola o país do resto do mundo.

Não se pode permitir que Bolsonaro siga transformando o país nesse pandemônio.