15 de outubro de 2021
Foto: Ricardo Stuckert

Na véspera do Dia Mundial da Alimentação, representantes dos povos do campo, das águas e das florestas reuniram-se com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir um tema central para a superação do atual momento de crise econômica e social: o combate à fome.

O ex-presidente participou, nesta sexta-feira (14), do Encontro dos Movimentos Sociais do Campo, das Águas e das Florestas com Lula em Defesa da Vida e contra a Fome. Ele ouviu de indígenas, quilombolas, de pescadores artesanais, mulheres do campo, do semiárido, relatos da situação, por vezes dramática, vivida por estes diferentes grupos neste momento de destruição de políticas públicas que garantam direitos às populações mais vulneráveis.

“Não é quem está com fome que vai brigar por ele mesmo. A minha convivência com vocês foi me ensinando que a fome não leva ninguém à revolução. A fome leva à submissão”, disse Lula aos presentes, lembrando que um plano de reconstrução do país, onde direitos sejam garantidos a todos, terá de começar por acabar com a fome.

– Veja aqui os destaques do discurso de Lula durante o encontro –

Lula ainda lembrou a enorme capacidade do Brasil de produzir alimentos com qualidade e que a volta da fome está relacionada a ausência de um projeto de país que coloque os pobres no orçamento. “A gente pode produzir o que quiser, mas se o povo não tiver dinheiro, ele vai passar fome.”

Fome na cidade

Também houve espaço para que pessoas em situação de rua contassem como a fome atinge as populações urbanas. “Nós passamos frio, passamos fome. Quando a gente tenta ter alguma coisa na vida, a polícia tira o pouco que a gente tem. A única coisa que a gente tem é roupa e documento”, relatou Vanessa, mulher trans que vive no Pátio do Colégio, no centro de São Paulo. “Lá tem muita criança, mãe de família passando necessidade. Já chegou a gente dormir do meu lado e morrer de frio.”

Inaldo Gomes Brandão, da Pastoral do Povo de Rua, disse que o momento em que a população de rua se sentiram acolhidos pela primeira vez nas suas necessidades foi durante o governo Lula. “A gente quer se sentir ser humano de novo”, disse Inaldo.

“Não é possível que se conviva com o que se vê todo dia nas ruas da cidade mais rica desse país”, comentou o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, também presente ao encontro.

Durante o evento, foram recolhidas doações de alimentos produzidos pelos diferentes grupos que se fizeram presentes. Os artigos foram destinados à Pastoral do Povo da Rua.

Estado forte no campo

Presente ao evento, a presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, afirmou que o combate à fome é fundamental para o país se tornar uma nação. “A única vez que a fome foi tratada com uma questão de Estado foi quando o presidente Lula assumiu a Presidência em 2003”, comentou Gleisi. Segundo ela, o presidente Lula “uniu as pontas” do combate à fome e do desenvolvimento do campo, com projetos que garantiram ganhos aos pequenos produtores e levaram comida saudável e barata para muitos brasileiros.

“Está aqui nessa sala o futuro do enfrentamento da fome e da inflação”, disse o coordenador do Núcleo Agrário do PT, Pedro Uczai, lembrando o peso da agricultura familiar na produção de alimentos.

“Se eles querem destruir, a gente aqui vai reconstruir”, disse o líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, Elvino Bohn Gass, destacando os ataques da gestão Jair Bolsonaro sobre as políticas sociais e de desenvolvimento sustentável. “Esta unidade na diversidade vai reconstruir a democracia, a soberania, o sonho e a utopia do povo brasileiro.”

Foto: Ricardo Stuckert

Comida para todos

Os representantes dos movimentos do campo, das águas e das florestas apresentaram um painel dos desafios para se garantir segurança alimentar no Brasil. Veja algumas das declarações:

“A agricultura familiar só tem 23% da terra agricultável, mas produzimos mais de 70% do que o brasileiro come. Se nós tivéssemos pelo menos 50%, veja o que seria deste país em termos de ocupação do território, de manutenção da floresta, de preservação das águas e de produção de alimentos saudáveis”
Aristides Santos, Contag

“Não arregramos. Estamos aqui, porque é necessário a gente avançar e pensar a reconstrução desse pais. E não dá para pensar na reconstrução se as pessoas forem dormir sem saber se vão ter café da manhã no dia seguinte.”
Josana Lima, Contraf

Nós precisamos retomar primeiro que, não tem combate à fome se a gente não mexer na estrutura agrária desse país, na retomada da reforma agrária.
Alexandre Conceição, MST/Via Campesina

Se o campo não planta, a cidade não janta. É preciso que toda a população tenha acesso à terra, porque nós trabalhamos com agroecologia, com alimento de qualidade, é preciso que tenha verba para esta família e também de comercialização destas famílias rurais.
Angelina Pereira, Movimento de Mulheres Trabalhadoras Camponesas

Nós somos 1,5 milhão de pescadores no país. Cada um, gera de 4 a 5 empregos, além do nosso. Nós somos responsáveis por 75% do pescado que vai para a mesa do brasileiro. Sonhamos com o nosso Ministério da Pesca para colocar comida na mesa de todos.
Nego da Pesca, Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais

O Brasil precisa se pintar novamente de vermelho, de urucum, para poder enfrentar este agronegócio, este patriota falso. E é este urucum aqui que vai pintar.
Caetano, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil