21 de setembro de 2018

O blog “Tijolaço” publicou um artigo de Fernando Brito, nesta quinta-feira (20/09), questionando o papel a que o Ministério Público está se prestando atualmente no Brasil em relação a Lula, Haddad e às eleições 2018. Para desenvolver seu raciocínio, Brito cita duas figuras históricas do país: Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro, falecido em 2004, e o premiado escritor Luís Fernando Veríssimo.

No artigo intitulado “O medo é imenso: MP quer proibir o ‘Haddad é Lula'”, Brito explica que o “Ministério Público quer impedir que o candidato da coligação do PT use a expressão ‘Haddad é Lula’ na propaganda eleitoral”. O texto defende que o povo “tem direitos, direito de saber a verdade, direito de votar, direito de escolher”.

No artigo, o colunista cita texto recente de Luís Fernando Veríssimo e conta que o escritor, “no início de sua consagrada carreira de cronista, debaixo da ditadura militar, foi avisado de que o nome de Leonel Brizola não poderia, em hipótese alguma, ser escrito”.

De certa forma, portanto, vivenciamos hoje no Brasil a adoção de práticas similares àquelas que foram verificadas na época da ditadura e que golpeiam cada vez mais a nossa já fragilizada democracia.

Em seu artigo, Veríssimo continua: “Numa das primeiras crônicas que escrevi mencionei o Brizola. O editor mandou me chamar. Me recebeu na sua sala com uma única frase:

– Brizola, nix”.

De acordo com o escritor, naquele momento, “também não se podia mencionar dom Hélder Câmara, Miguel Arraes e mais umas dúzias de vetados pelos militares. O jornal O Estado de S. Paulo fez questão de que todos soubessem que estava sendo censurado, publicando receitas e poemas em lugar das matérias proibidas. A gente tentava transmitir alguma coisa parecida com críticas ao regime nas entrelinhas, sem saber se eram entendidas ou não. Mesmo com o controle da imprensa, os militares não conseguiram evitar que notícias da guerra suja que se travava no Brasil fossem conhecidas. Notícias de prisões arbitrárias, de pessoas torturadas, exiladas ou mortas, enquanto os generais se alternavam no poder”.

É o mesmo que fazemos nesse momento: tentar expressar o que querem que calemos. Estão tentando, de todo modo e a todo momento, afastar Lula da campanha de Haddad – e cercear os direitos do ex-presidente.

A conclusão de Brito, no Tijolaço é forte: “Não se sabe, claro, até onde esta canalhice irá prosseguir. Mas já se sabe com toda a clareza, a quem serve”.

Veríssimo, por seu turno, é cirúrgico: “Por que estou lembrando, de novo, aqueles tempos? Porque se volta a falar de culpa e passado, e o ressurgimento do fascismo no mundo todo cada vez mais se confunde com uma obliteração da consciência e uma falsificação da História. Não apenas no Brasil, mas na Alemanha, por razões óbvias, na França, na Áustria e em outros países em que a extrema-direita ameaça, a questão é o que fazer com a memória, esse incômodo que ou se nega ou se muda ou se justifica. A memória daqueles tempos e o que fazer com ela tem muito mais relevância, nessa próxima eleição, do que se imagina. Quem não se lembra precisa ser lembrado”.