15 de outubro de 2018

O candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad, afirmou em entrevista exclusiva ao blog do jornalista Leonardo Sakamoto, neste domingo (14/10), que sua meta é gerar em torno de 2 milhões de postos de trabalho por ano, totalizando 8 milhões em quatro anos, caso eleito.

Haddad destacou, na entrevista publicada nesta segunda-feira (15/10) como manchete do portal UOL, seu entendimento de que “o PT mudou a vida de metade da população brasileira para muito melhor e da outra metade para melhor. Todo mundo melhorou, mas a metade debaixo melhorou mais que a de cima”.

O candidato defendeu que esse projeto não deve ser abandonado: “Um projeto de Brasil mais inclusivo, mais solidário, esse projeto que esse campo representa precisa ser fortalecido e retomado, corrigindo o que estiver errado”. E apontou o que o projeto defendido pela outra candidatura representa: “Estamos aí três anos com governo Temer, no que que deu?”.

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

E a entrevista completa pode ser assistida abaixo:

Haddad afirmou a Sakamoto sua leitura de que o candidato adversário, Jair Bolsonaro, tem responsabilidade pela violência eleitoral, que já deixou um morto e vários feridos pelo país: “O que ele diz, o que ele fala e a maneira com que se comporta faz diferença, no caso de uma pessoa que é referência na sociedade”, explicou Haddad. ”Quando diz ‘vamos metralhar petistas’, ele está sinalizando o que pensa da violência. Quando diz que a ditadura errou ao só torturar as pessoas, e não matar, que deveria ter matado 30 mil pessoas, sinaliza que considera a violência um instrumento legítimo de solução de conflitos”.

Sobre o tema da violência e dos conflitos, o ex-ministro da Educação ressaltou: “Eu sou professor, eu tenho o oposto disso como critério. O critério do professor é o diálogo, é aprender com humildade para poder ensinar, é conviver com a diferença. Ele vê a diferença como um inimigo”.

O jornalista perguntou ao candidato o que o eleitor de Bolsonaro pode esperar de Haddad, caso seja eleito: “Democracia, paz, respeito, diálogo. Tudo que eu fiz a vida inteira como ministro, como prefeito”. E ressaltou: “Eu respeitei todo mundo que me respeitou”.

Haddad afirmou que pretende procurar Ciro Gomes assim que ele retornar ao Brasil e que está conversando com outras lideranças e personalidades, como Joaquim Barbosa, ex-ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal, e o filósofo e educador Mario Sergio Cortella. Haddad destacou que seu governo irá além do PT: ”Nós não podemos ter, hoje, o projeto de um partido ou de uma cabeça só”. Haddad frisou, por outro lado, que ainda não convidou ninguém para ministro, mas que tem interlocução com pessoas que respeita.

Fake news
Na entrevista, Haddad criticou duramente as acusações de que teria distribuído um ”kit gay” às escolas que acabaria por influenciar na orientação sexual das crianças. ”É um desrespeito com o magistério brasileiro. Você acha que algum profissional da educação iria compactuar com uma loucura dessa?”. O candidato à presidência pelo PT tratou de afirmar, mais uma vez, que “nunca foi distribuído material para criança de 6 anos [como afirmam mensagens nas redes]”.

Sobre o tema, Haddad levantou o questionamento: “Eu não sei se isso é um aspecto doentio da personalidade dele [do candidato adversário] ou se é pura má fé. Por que é que ele tem tanto problema com esse assunto? Parece ser meio patológica a obsessão”, analisou.

Haddad afirmou não saber “qual é a intenção dele, se é só confundir a opinião pública e usar a boa fé das pessoas quanto a isso”, e lembrou que, neste fim de semana mesmo, os adversários difundiram um novo boato, de que ele seria a favor do incesto! Uma completa fake news que representa “um passo mais” nas mentiras. E “o filho dele tuitou”, lembrou Haddad na entrevista a Sakamoto.

Democracia e religião
Em outro ponto destacado da entrevista, Haddad falou de sua visita à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que representou “um gesto de que os valores vão ser cultivados, de que o diálogo vai ser mantido”. O candidato destacou que os bispos do Brasil estão pedindo: “manter o combate à corrupção firme, fortalecer as instituições democráticas, preservar a vida, superar a violência, preservar o meio ambiente”.

Sobre esses pontos, o candidato se perguntou: “Será que alguém discorda disso?”. O próprio Haddad deu a resposta: “No nosso campo, não”. Entretanto, ponderou: “Eu sei que meu adversário discorda”. E apontou em seguida: “Democracia, para ele, não é um valor absoluto, meio ambiente, para ele, não é um valor absoluto, ele quer acabar com o Ministério do Meio Ambiente. A superação da violência não é um valor absoluto, mas, para mim, os cinco são compromissos absolutos”.

Haddad fez questão de citar um episódio, para ele emblemático, de como Bolsonaro desrespeita a história e incita à violência, além de fragilizar a democracia: “Outro dia chegou ao meu conhecimento um discurso dele chamando Dom Paulo Evaristo Arns, ex-cardeal de São Paulo, uma das pessoas mais respeitáveis da história deste país, de ‘vagabundo’ e ‘picareta’”.

Passado e futuro
Questionado sobre erros e acertos do PT na presidência, Haddad reiterou: “Eu mesmo, em toda entrevista, sempre reconheço que houve erros, que vamos corrigir”.

Sobre a geração de empregos e a retomada do crescimento econômico, o candidato à presidência explicou que, para isso, será fundamental o Congresso Nacional aprovar alguns projetos de mudança legislativa previstos no Plano de Governo de Haddad e Manuela d’Ávila, candidata à vice-presidência. Por exemplo, a Reforma Bancária, a Reforma Tributária e a revogação da Emenda do Teto dos Gastos, que congela por vinte anos os investimentos do governo federal.

O presidenciável contou que, aos 26 anos, em 1989, escreveu um livro sobre a União Soviética, “contra todos os regimes autoritários de esquerda”, e que, “até por pertencer ao campo progressista, achei que devia, pela paixão que tenho pela política, deixar claro no começo da minha vida pública que eu não compactuo com nenhum regime de arbítrio, nenhum regime autoritário de direita e de esquerda”.

Haddad foi categórico nesse ponto: “Para mim, falta de liberdade é o caminho do inferno. A liberdade é que constrói as soluções duradouras para a humanidade. Não acredito em regime de força”.

Sobre o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, Haddad afirmou que o caminho que defende é o de “buscar uma solução pactuada e democrática, que envolva a oposição e a situação”.

A perspectiva defendida por ele “é não deixar um conflito armado chegar à região”, bem como “não promover instalação de base militar americana em território nacional”. E acrescentou: “Nada de bater continência para bandeira americana – isso não é papel de alguém que almeja a presidência da República”. Haddad ressaltou ser contrário à perspectiva de “criar conflito armado com o vizinho depois de 140 anos de paz”.

Por fim, o candidato afirmou que vai colocar a Polícia Federal para combater o crime organizado nacionalmente. Haddad criticou a proposta de Bolsonaro de facilitar o acesso às armas: ”Você vai ter muita morte no trânsito, a tiros, vai ter muita morte entre vizinhos, a tiros, vai ter muita morte dentro de casa”.

O jornalista Leonardo Sakamoto destacou, por fim, que solicitou uma entrevista com o candidato Jair Bolsonaro, mas que ainda não obteve resposta ao pedido.