Lula projeta Brasil com inclusão, educação e tecnologia para o futuro
Em entrevista à Record, presidente defende Gás do Povo, Luz do Povo, Pé-de-Meia e aponta Ciência sem Fronteiras, Redata e inteligência artificial como apostas para os próximos anos
Invisível não é quem não existe. É quem trabalha, cria os filhos, paga conta, mas ainda passa longe das oportunidades que poderiam mudar sua vida. Lula partiu desse Brasil para falar daquele que quer construir nos próximos anos: um país que deixe de ser apenas o que observa para ser a referência. “A gente vai falar: olha como o Brasil está fazendo!”
Em entrevista ao Jornal da Record nesta terça-feira (15/09), conduzida por Mariana Godoy e Eduardo Ribeiro no Palácio da Alvorada, o presidente Lula conectou políticas de inclusão social aos investimentos que considera necessários para preparar o país para as próximas décadas.
Na conversa, Gás do Povo, Luz do Povo e Pé-de-Meia apareceram ao lado da retomada do Ciência sem Fronteiras, de novos cursos, do Redata e da formação em inteligência artificial. “O maior futuro desse país é você pegar a parte de baixo, que era tratada como invisível, e dar para ela perspectiva de vida”, afirmou Lula.
“O maior futuro desse país é você pegar a parte de baixo, que era tratada como invisível, e dar para ela perspectiva de vida”
Luiz Inácio Lula da Silva
INCLUSÃO – Essa perspectiva começa nas despesas que apertam o orçamento das famílias. Lula citou o Gás do Povo, que garante a recarga gratuita do botijão de cozinha para famílias de baixa renda, e o Luz do Povo, que assegura gratuidade ou descontos na tarifa de energia elétrica para quem atende aos critérios. Mas, ao explicar o que entende por inclusão, Lula foi além do acesso ao básico. “Não é só comida, não, emprego, não, é educação”, afirmou.
O presidente lembrou a expansão das universidades e dos institutos federais durante seus governos e o de Dilma Rousseff para defender que oportunidades antes restritas a uma parcela da população cheguem aos mais pobres. “Esse é o meu papel, dar oportunidade para as pessoas crescerem na vida.”
PERMANÊNCIA – Para chegar à universidade, primeiro é preciso conseguir terminar a escola. E foi nesse ponto que Lula falou do Pé-de-Meia. Segundo o presidente, cerca de 500 mil jovens abandonavam o ensino médio todos os anos para ajudar no orçamento familiar. “Eu tive que optar: ou crio dinheiro, tiro dinheiro de algum lugar para investir nessa meninada ou depois eu vou investir em cadeia para cuidar do futuro dessa molecada”, afirmou.
O programa oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público, condicionado a critérios como matrícula, frequência, conclusão do ano letivo e participação no Enem. Mais de 7 milhões foram contemplados. Para um próximo mandato, Lula afirmou que pretende universalizar o Pé-de-Meia para os alunos do ensino médio da rede pública.
A proposta vem acompanhada da ampliação da educação em tempo integral e do esforço de alfabetização na idade certa. “A escola de tempo integral é para ele ter oportunidade de estudar outras coisas (como artes, esporte, cultura e direitos humanos) e dar tranquilidade para a mãe, dar tranquilidade para o pai, que pode ir trabalhar e a criança vai estar numa escola sendo cuidada pelos educadores brasileiros”, disse.
FORMAÇÃO – A pergunta seguinte foi justamente o que acontece depois. Se o Pé-de-Meia ajuda o jovem a permanecer na escola, como prepará-lo para a universidade e para o mercado de trabalho que encontrará pela frente? Lula respondeu olhando para áreas como engenharia, matemática, mundo digital e inteligência artificial. Entre as propostas apresentadas está a retomada do Ciência sem Fronteiras, programa de intercâmbio e formação internacional criado em seus governos anteriores.
“Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia e vamos voltar a fazer o Ciência sem Fronteiras, para formar engenheiro, para formar matemático, para formar tudo que é especialidade na questão do mundo digital e na inteligência artificial”, afirmou.
Para Lula, o investimento nessa formação será necessário para que o Brasil desenvolva conhecimento próprio e dispute espaço nas áreas que devem concentrar parte dos empregos mais qualificados dos próximos anos. “Nós não vamos ficar devendo nada aos chineses, aos americanos”, disse.
TECNOLOGIA – Formar esses profissionais é parte da estratégia. A outra é criar espaço para que tecnologia, investimentos e empregos também fiquem no Brasil. No mesmo dia da entrevista, Lula sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que concede incentivos à instalação de centros de processamento de dados no país.
A medida busca ampliar a capacidade nacional de processamento e armazenamento de dados e atrair investimentos em áreas como computação em nuvem e inteligência artificial. “Hoje, a maioria dos dados e serviços digitais usados no Brasil é processada fora. Com o Redata, queremos ampliar essa capacidade aqui dentro, sob as nossas leis e com mais soberania sobre os nossos dados”, afirmou Lula nas redes sociais.
Na entrevista, o presidente disse que o programa abre a perspectiva de atrair investimentos bilionários nos próximos anos. Em contrapartida aos benefícios tributários, as empresas deverão destinar 10% da capacidade utilizada ao mercado interno, usar energia de fontes limpas ou renováveis, cumprir critérios de eficiência no uso da água e investir no país o equivalente a 2% das aquisições beneficiadas pelo programa.
A estratégia também alcança minerais críticos e terras raras. Lula defendeu que o país deixe de apenas extrair esses recursos e avance na transformação e industrialização dentro do próprio território. Para isso, afirmou, serão necessários “formação de qualidade, novos cursos nas universidades e profissionais muito qualificados”.
CONHECIMENTO – No projeto descrito por Lula, o destino dessa sequência é também mudar o tipo de riqueza que o Brasil produz e vende ao mundo. “O Brasil não pode continuar sendo um país exportador de soja, de milho ou de minério de ferro. Nós queremos ser exportador de inteligência, de conhecimento”, afirmou. Para chegar lá, Lula disse que pretende fazer um forte investimento em educação nos próximos dez anos, com o objetivo de colocar o país “num padrão internacional de altíssima qualidade”.
A ideia, segundo Lula, é fazer essas duas pontas se encontrarem: ampliar as oportunidades para quem ficou à margem e preparar o Brasil para ocupar mais espaço no mundo. “Ao invés de falar ‘olha o chinês como fez, olha os americanos como fizeram’, a gente vai falar ‘olha o Brasil como está fazendo, o Brasil melhorou, o Brasil está respeitado, o Brasil está competitivo’. É isso que eu quero.” Ao fim da entrevista, Lula fez um chamado à confiança no país. “Não perca a esperança. Não tenha medo que o futuro vai acontecer.”