20 de novembro de 2021

Neste domingo (21) começa a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para universidades de todo o país. Os ataques do governo Bolsonaro e de seus apoiadores visam destruir o programa e dificultar o acesso ao ensino superior. Mas o ódio jamais será maior do que a educação: não desistam do Enem! Vocês, estudantes inscritos na prova, não deixem de fazer o exame. É isso o que o bolsonarismo quer: que a gente desista. Mas a vitória de vocês é a melhor resposta para o autoritarismo e os desmandos do atual governo.

Este é o Enem com recorde de queda de inscritos: são menos 3 milhões de inscritos entre 2020 e 2021. Apenas 3,3 milhões de alunos estão cadastrados para fazer as provas nos próximos dias 21 e 28. Isso é resultado direto do boicote de Bolsonaro ao ensino – nas palavras do ministro da educação, a universidade deveria ser para poucos.

Os escândalos relacionados ao Enem incluem censura direta, invasão da Polícia Federal à sala segura de elaboração das provas, assédio moral e pedidos de demissão em massa de coordenadores técnicos especializados.

A crise deflagrada no último mês, a partir do pedido de demissão de 37 coordenadores técnicos especializados do Inep, órgão federal responsável pela formulação do Enem, expôs os intensos ataques que o exame vem recebendo desde 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Reportagem da Piauí traz uma série de questões censuradas por uma comissão montada por Bolsonaro para “analisar ideologicamente” o exame. As perguntas traziam desde tirinhas da personagem argentina Mafalda até citações de Ferreira Gullar, passando por Laerte, Chico Buarque e Madonna.

De modo inédito, desde 2019 nenhuma questão sobre a ditadura cai no Enem. E o presidente pediu diretamente que o exame se referisse ao golpe militar como “revolução de 1964”, segundo denúncia de servidores. Em 8 de novembro, 12 dias antes da aplicação das provas, 37 servidores técnicos especializados pediram demissão do Inep devido a assédio moral, interferências ilegais e outras ingerências de Bolsonaro e seus asseclas. Uma das denúncias envolve a invasão, pela Polícia Federal, da sala segura, local onde as provas são elaboradas pela equipe técnica, em tentativa de acosso.

Em mais uma cartada do Capitão Censura, o Inep impôs sigilo a processo que trata do assunto. Alega-se que se tratou de visita para conferência de segurança do local, mas a completa falta de transparência ao redor do assunto (e o apagamento de arquivos pela direção do órgão) tornam a hipótese de difícil comprovação.

Denúncias de diretora de escola, publicadas pelo Globo, afirmam que houve exigência de troca de professoras por policiais como aplicadores de provas.

Não desistam

É muito importante que, apesar de tudo, os estudantes não desistam. Ao desistir do Enem, estariam desistindo de um exame que distribui vagas em universidades públicas de qualidade e que possibilita o acesso a bolsas parciais e totais em universidades privadas pelo Prouni. Os estudantes de escolas públicas e os estudantes negros desistiriam da política de cotas, todos esses programas implementados pelos governos de Luis Inácio Lula da Silva e do PT, que ainda não foram completamente desmanchados pela destruição de Bolsonaro.

Uma etapa crucial da ampliação do ensino superior no Brasil, durante os governos de Lula, foi a reformulação do Enem, que passou a servir, além de mecanismo de acompanhamento da qualidade do ensino médio, como porta principal de entrada para as universidades federa. Aliado ao SISU, sistema informatizado pelo qual instituições públicas de educação superior oferecem vagas aos candidatos, o Enem padronizou e permitiu o acesso de milhões de estudantes ao ensino universitário. Em 2014, o Enem teve o número recorde de 8,7 milhões de inscritos.

Com Lula e Dilma, o número de matrículas universitárias aumentou 130%, o que significa mais de 4,5 milhões de vagas a mais em faculdades públicas e privadas em todo o país. Em 2002, eram 3,4 milhões de vagas, enquanto em 2015 o Brasil contava com 8,02 milhões de universitários. Programas como o Reuni (com a criação de 18 novas unidades federais e 184 novos campi ao redor do país) e o Prouni (que concedeu, até 2015, 2 milhões de bolsas em instituições privadas de ensino) promoveram uma verdadeira revolução na educação.

Entre 2001 e 2015, a porcentagem de alunos negros nas universidades dobrou, passando de 22% para 44%. Em 2018, pela primeira vez, estudantes negros tornaram-se maioria nas universidades públicas do país, sendo 50,3% do total. Atualmente, mulheres negras são a maior população universitária (27% das universidades públicas e 29,3% no universo total).

Por todos esses avanços, é crucial defender o Enem. Façam a prova e mostrem que livros sempre valerão mais do que fuzis.