No início do terceiro mandato, o presidente Lula teve de lidar com uma herança complexa no setor de meio ambiente. As taxas de desmatamento estavam em patamares recordes, os órgãos de fiscalização esvaziados, as políticas ambientais desmontadas e o país isolado no debate climático internacional. Reverter o quadro exigiu a articulação de dezenas de políticas que, em conjunto, transformaram a estratégia em resultados mundialmente reconhecidos. Uma lógica de apostar no fortalecimento de órgãos ambientais, recuperar o poder de investimento, acolher e atender demandas de povos tradicionais e ribeirinhos, e se apoiar em ciência e tecnologia para determinar os nós mais difíceis de desatar, ao lado de estados e municípios.
Entenda melhor essa articulação:
Reconstrução do MMA, Ibama e ICMBio: a base
A prioridade inicial foi recompor orçamento e força de trabalho dos órgãos ambientais. Com recursos restaurados, o governo realizou a maior contratação de brigadistas florestais da história em 2025. Paralelamente, reativou bases em regiões críticas e recuperou o poder de fiscalização do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
Planos de ação e monitoramento: onde agir
Pela primeira vez, todos os seis biomas brasileiros passaram a ter Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento. A partir disso, o governo identifica os locais que mais desmatam e os inclui no programa União com Municípios. A estratégia é simples: o governo oferece apoio financeiro e técnico nesses locais onde o problema é crítico. A contrapartida exigida é que o município cumpra metas de redução do desmatamento.
Planos de ação e monitoramento: como agir
Em dois anos, o programa investiu R$ 815 milhões do Fundo Amazônia (BNDES), do Fundo Verde para o Clima (parceria com o PNUD) e outros fundos ambientais. Na prática, isso significou remunerar quatro mil pequenos agricultores por serviços ambientais, comprar mais de 2 mil veículos, barcos, drones e computadores para fiscalização, capacitar mais de 500 técnicos municipais e contratar 16 entidades para regularização fundiária e ambiental.
Planos de ação e monitoramento: os resultados
Com isso, entre 2022 e 2025 o desmatamento caiu 65,5% justamente nesses municípios prioritários, queda 31% maior do que a média de toda a Amazônia Legal no mesmo período. A fiscalização se intensificou: em 2025, o Ibama aumentou em 19% os embargos e em 15% os autos de infração sobre flora frente a 2024, levando o desmatamento em Unidades de Conservação federais na Amazônia ao menor nível já registrado.
Menos incêndios, menos desmatamentos
Com a Lei 14.944/2024 e uma ação integrada de 19 ministérios, o país registrou queda de 39,5% na área queimada entre janeiro e novembro de 2025, com 75,8% a menos na Amazônia e 93,3% a menos no Pantanal. Pelo Prodes, sistema oficial de taxa anual do INPE, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32,3% no Cerrado entre 2022 e 2025.
O mesmo rigor se estende aos biomas menores. No período de agosto de 2024 a julho de 2025, a Caatinga registrou queda de 34,3% no desmatamento, a Mata Atlântica de 15,32% e o Pampa de 41,7%.
Dados do Deter, sistema de alertas em tempo real do INPE, confirmam que a tendência se sustentou no ciclo mais recente: entre agosto de 2025 e julho de 2026, os alertas de desmatamento na Amazônia tiveram queda de 36% frente ao ciclo anterior, o menor valor já registrado pelo sistema e 55,6% abaixo da média dos últimos dez anos. No Cerrado, a queda foi de 7,8% e atingiu o menor valor em cinco anos.
Povos indígenas: guardiões históricos
A criação da pasta dos Povos Indígenas reconheceu formalmente o que os dados já mostravam: os povos originários são os guardiões mais eficazes da floresta. Entre 2023 e 2025, 51 Terras Indígenas voltaram a receber atenção do governo: 21 com Portaria Declaratória, 20 homologadas e 10 reservas constituídas. A reversão clara de um período em que nenhuma Terra Indígena havia sido declarada, homologada ou reservada.
Emergência Yanomami: reversão de uma tragédia
Diante de um cenário de fome, desnutrição e mortes do Povo Yanomami diagnosticado no início de 2023, o Governo Federal mobilizou recursos, estrutura, pessoal e uma operação em dezenas de frentes humanitárias. Criada em fevereiro de 2024, a Casa de Governo ampliou o trabalho e centralizou dezenas de órgãos federais numa operação permanente contra o garimpo ilegal na Terra Yanomami, que poluía rios, contaminava peixes, aumentava os índices de doenças e causava mortes. Em dois anos, mais de 9 mil operações resultaram em prejuízo superior a R$ 642 milhões à rede criminosa, redução de 98% do garimpo dentro do território e queda de 96% na abertura de novos garimpos frente a 2022. Os rios Uraricoera e Mucajaí, antes contaminados por mercúrio, já mostram sinais de recuperação. No campo humanitário, o número de profissionais de saúde na TIY cresceu 169%, com impacto de redução de 33% no número de óbitos entre 2023 e 2025.
Concessão Florestal: receita para quem produz sem derrubar
Cerca de 1,6 milhão de hectares de florestas públicas federais foram concedidos para manejo sustentável de janeiro de 2023 a dezembro de 2025. O resultado: R$ 284 milhões em arrecadação e a demonstração de que produção florestal legal e conservação podem caminhar juntas.
Bolsa Verde: renda direta para manter a floresta em pé
O programa remunera famílias que preservam em vez de derrubar. Dados de junho de 2026 revelam que o programa atende 87 mil famílias, com pagamento trimestral de R$ 600. Do total de beneficiários, 65% das famílias são chefiadas por mulheres, 90% por pessoas negras (quilombolas e comunidades tradicionais) e 2,3% por indígenas, prova concreta de que preservar também é fonte de renda.
Nova Indústria Brasil (Indústria Mais Verde): a ponte com a reindustrialização
A Nova Indústria Brasil é organizada em 6 Missões, e o BNDES já destinou R$ 370 bilhões ao programa desde 2023. Desse total, R$ 27 bilhões foram para a Missão 5 (bioeconomia, descarbonização e segurança energética), o eixo ligado à agenda ambiental. Um investimento que se reverte em cerca de 95 milhões de toneladas de CO2-equivalente retiradas da atmosfera. Na ponta da produção, a fabricante chinesa BYD inaugurou fábrica de veículos elétricos e híbridos em Camaçari (BA), citando a Nova Indústria Brasil como parte da decisão de investir no país, sinal de que a política começa a puxar investimento privado real para a transição verde.
TFFF e financiamento climático: floresta em pé como modelo de negócio
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês) é a aposta mais ambiciosa do Brasil no campo ambiental. Um fundo permanente que paga por resultado, e que remunera países que mantêm floresta em pé, em vez de apenas financiar projetos. A meta é capitalizar US$ 125 bilhões. O Brasil deu exemplo e foi o primeiro investidor, com aporte de US$ 1 bilhão. Já no dia do lançamento, como parte dos eventos conectados à COP30 no Brasil, o fundo reuniu mais de US$ 5,5 bilhões em compromissos e o apoio de 53 países e da União Europeia, representando mais de 90% das florestas tropicais do mundo. O TFFF se soma a outros instrumentos que, juntos, já mobilizaram R$ 138 bilhões desde 2023 para desenvolvimento sustentável, incluindo Eco Invest, Fundo Clima, Fundo Amazônia e FNMA. O próprio Fundo Amazônia atingiu, em 2025, o maior volume anual desde sua criação em 2008 (R$ 2 bi em projetos aprovados), somando R$ 3,7 bi contratados entre 2023 e 2025.
EUDR e certificação ambiental: a chave de acesso a mercados
O novo regulamento antidesmatamento da União Europeia passará a exigir, a partir de 30 de dezembro de 2026, comprovação de que produtos como soja, carne bovina, café, cacau, madeira e borracha não têm vínculo com desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020. Sob risco de multa de 4% do faturamento na UE e confisco da carga, cerca de um terço das exportações brasileiras ao bloco europeu vão precisar se adaptar. Nesse cenário, ferramentas retomadas na reconstrução da fiscalização, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e os dados abertos do MapBiomas, deixam de ser apenas instrumento de controle interno e viram chave de acesso ao maior mercado consumidor do mundo, em especial com a aprovação do Acordo entre Mercosul e União Europeia, após 25 anos de tratativas.
Plano de Transformação Ecológica: a economia no ritmo da transição
Coordenado pelo Ministério da Fazenda, o Plano de Transformação Ecológica (PTE) colocou a sustentabilidade no centro da política econômica e já mobilizou mais de R$ 500 bilhões em recursos públicos e privados. Entre as iniciativas estão a emissão de US$ 5,5 bilhões em títulos soberanos sustentáveis no exterior e a ampliação do Fundo Clima, que terá R$ 27,5 bilhões disponíveis em 2026, volume 316 vezes superior ao de 2020. Para ampliar a participação do capital privado, o Eco Invest Brasil disponibilizou R$ 140 bilhões para reduzir riscos cambiais de projetos sustentáveis. O país também avançou na criação do mercado regulado de carbono, com a aprovação, pelo Congresso do marco do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).
Combustível do Futuro e Hidrogênio Verde: a nova fronteira da matriz limpa
Sancionada em de outubro de 2024, a Lei do Combustível do Futuro consolidou o Brasil entre os líderes globais da mobilidade sustentável e já destravou R$ 260 bilhões em investimentos. A legislação criou programas para ampliar o uso de combustíveis de baixo carbono, como o SAF na aviação, o Diesel Verde e o biometano, além de autorizar o aumento da mistura de etanol na gasolina para até 35% e do biodiesel no diesel para 20% até março de 2030. O marco também estabelece metas progressivas para o uso de SAF em voos domésticos, a partir de 2027, chegando a 10% em 2037.
A agenda de descarbonização avançou ainda com a Lei nº 14.948/2024, que criou o Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono e o regime de incentivos Rehidro. A iniciativa prevê R$ 18 bilhões em incentivos fiscais ao longo de cinco anos e fortalece um setor que já reúne mais de US$ 30 bilhões em investimentos anunciados no Brasil.
Conversão de Pastagens Degradadas: produzir mais sem desmatar
Instituído pelo Decreto 11.815/2023, o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas definiu a meta de recuperar até 40 milhões de hectares de solos de baixa produtividade ao longo de dez anos. A estratégia usa tecnologias de integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroflorestais para aumentar a capacidade de produção agrícola do país sem derrubar um único hectare de vegetação nativa. Ao ampliar a produção sobre terras já abertas e antropizadas, o Brasil reduz a pressão por novos desmatamentos e fortalece a posição diante de exigências internacionais de rastreabilidade.
Plano Safra Verde: incentivo financeiro para quem produz com sustentabilidade
A reformulação do Plano Safra 2026/2027 passou a condicionar parte do crédito rural à responsabilidade ambiental. Produtores com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado contam com redução de até 0,5 ponto percentual nas taxas de juros de custeio, benefício que pode chegar a 1 ponto percentual para quem também comprovar práticas agropecuárias sustentáveis ou certificações ambientais reconhecidas. A medida faz parte de um plano recorde de R$ 525 bilhões para a agricultura empresarial (R$ 9 bilhões a mais que o ciclo anterior), somados a cerca de R$ 85 bilhões para a agricultura familiar.
COP30 e Diplomacia Climática: a Amazônia no centro das decisões globais
A escolha de Belém (PA) para sediar a 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30) representou o auge da recuperação do protagonismo internacional do Brasil na agenda ambiental. O investimento federal na preparação da cidade somou R$ 4,7 bilhões, com recursos do Novo PAC, BNDES, Itaipu Binacional e estado em obras permanentes de saneamento, mobilidade, hotelaria e restauro urbano na capital paraense. Foi a primeira COP na própria Floresta Amazônica. A cúpula reuniu líderes mundiais e consolidou o Brasil como o grande mediador dos países florestais e do Sul Global na busca por financiamento climático justo e transição energética inclusiva.
Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia: inteligência compartilhada entre nove países
Inaugurado pelo presidente Lula em setembro de 2025, em Manaus, o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia reúne forças de segurança dos nove países amazônicos e dos nove estados da Amazônia Legal para ampliar o compartilhamento de inteligência e a atuação conjunta contra o crime organizado na região. A estrutura integra Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e forças estaduais e atua no combate a crimes ambientais, tráfico de drogas, armas e pessoas, além de ações contra grilagem, lavagem de dinheiro e rastreamento da origem do ouro. Com R$ 36,7 milhões do Fundo Amazônia, o centro faz parte do Plano Amazônia: Segurança e Soberania, que já conta com mais de R$ 318 milhões do fundo para fortalecer a inteligência, a fiscalização e a repressão na região. Os investimentos ampliam a estrutura operacional, com a aquisição de helicópteros, lanchas blindadas, viaturas e drones, e fortalecem a cooperação internacional por meio da articulação com as forças de segurança dos países amazônicos e organismos como Interpol e Europol.