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Fotógrafo: Ricardo Stuckert

Economia • Setembro de 2026 • 6 min de leitura

Bets: Lula questiona lucro em cima da geração de dívidas e vício em famílias brasileiras

Em Florianópolis, presidente critica expansão das apostas, os interesses que se beneficiam do setor e impactos sobre o orçamento de brasileiros e brasileiras

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar as bets no centro do debate neste sábado (19), durante agenda de campanha em Florianópolis (SC), e ampliou uma discussão que vem fazendo nos últimos dias: quem ganha dinheiro com a expansão das apostas online e quem fica com o custo social.

Ao tratar do tema, Lula deixou claro que sua preocupação não está apenas na existência das plataformas, mas na dimensão que elas alcançaram na vida cotidiana dos brasileiros e na rede de interesses econômicos construída em torno delas. O setor bilionário passou a movimentar clubes de futebol, empresas de comunicação, influenciadores e publicidade, enquanto o endividamento e a dependência recaem sobre os apostadores e suas famílias.

“Faz uns dois meses que estou discutindo o papel dessa jogatina eletrônica através das redes digitais, que está levando muita gente a se endividar. Tenho certeza que aqui nesse público tem gente endividada que já não pode pagar a dívida, e quando a pessoa está endividada, mente. Mulher mente para o marido, marido mente para a mulher, filho e filha mentem para a mãe e o pai”, disse. 

A discussão ganhou novo peso depois que clubes de futebol e entidades ligadas à comunicação passaram a reagir às sinalizações do governo sobre novas restrições ao setor. Em manifesto divulgado nesta semana, clubes defenderam a continuidade da publicidade e dos patrocínios de empresas de apostas reguladas e alertaram para os efeitos econômicos de eventual proibição. 

Durante o ato, o presidente questionou a ideia de que o futebol brasileiro ou outros setores dependam das apostas para sobreviver. “Disseram que se eu acabar com as bets, vou acabar com o futebol. Essa gente está mentindo, porque o São Paulo foi três vezes campeão do mundo sem ter bet, o Flamengo foi campeão do mundo sem ter bet, o Santos foi campeão do mundo sem ter bet, o Corinthians foi campeão do mundo sem ter bet”, elencou. 

O presidente recorreu à própria história da Seleção para contestar a associação entre apostas e o sucesso do futebol. “A Seleção foi campeã em 58 sem bet. Foi campeã do mundo em 62 sem bet. Foi campeã do mundo em 70 sem bet. Foi tetra em 94 sem bet. E foi penta em 2002 sem bet. Depois que começou a bet, nós não ganhamos mais nenhuma Copa do Mundo”. 

REGULAMENTAÇÃO – A fala ocorre em um momento em que o governo discute novas medidas para restringir o mercado, depois de uma primeira etapa de regulamentação iniciada na atual gestão governo. As apostas esportivas foram legalizadas pela Lei 13.756, de 2018, durante o governo Michel Temer, mas a regulamentação prevista não foi concluída. Na gestão Bolsonaro, não houve avanços e o setor correu solto. Em 2023, já no governo Lula, foi editada a MP 1.182 e, posteriormente, aprovada a Lei 14.790, que estabeleceu o marco regulatório das apostas de quota fixa e incluiu os jogos on-line na regulamentação.

Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente. A regulamentação estabeleceu regras para autorização, fiscalização, tributação, publicidade e proteção de apostadores. Em julho, o governo ampliou as exigências para a publicidade do setor: novas regras passaram a exigir, nas peças publicitárias, advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. As medidas entraram em vigor em julho.

A regulamentação também deixou explícita a dimensão econômica da cadeia formada em torno das bets. Segundo o Ministério da Fazenda, as empresas devem pagar 12% sobre a receita bruta para destinações previstas em lei, entre elas contrapartidas relacionadas ao uso de denominações, imagens, marcas, emblemas e símbolos de organizações esportivas, clubes e atletas. O próprio governo esclarece que esses recursos têm natureza privada e decorrem do uso desses direitos pelas operadoras.

Na publicidade, os valores também mostram a dimensão dos negócios que se formaram em torno das apostas. Segundo levantamento da Folha a partir do balanço da Blaze, a empresa destinou R$ 330 milhões à publicidade externa entre janeiro e novembro de 2025. 

É essa engrenagem que Lula passou a colocar em xeque. Para o presidente, não basta olhar para o dinheiro que circula. É preciso olhar para o dinheiro que sai do bolso de quem aposta e para as consequências quando a aposta deixa de ser entretenimento e passa a ocupar o lugar da renda familiar.

“A única dívida que nos dá orgulho é quando a gente faz uma dívida para aumentar o patrimônio da gente, para melhorar a vida da gente, mas dívida de jogo não é uma coisa que a gente possa aceitar”, afirmou.

A preocupação também foi expressa neste sábado pelo ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad. Em entrevista, ele defendeu o fim das bets e argumentou que a arrecadação não seria suficiente para compensar os efeitos provocados pela atividade. “Eu vou defender o fim disso, porque não há arrecadação que justifique o mal que está fazendo para o brasileiro”, afirmou. Haddad classificou o cenário como uma “epidemia de bet” e disse que as apostas representam “um grande perigo”. O ministro também dimensionou o tamanho econômico do setor, que movimenta muito dinheiro mas quase não gera empregos. “Nós podemos estar falando alguma coisa entre 0,5% e 1% do PIB, é muito dinheiro para uma coisa que não está gerando bem-estar algum”, declarou.

ENFRENTAMENTO –  Lula afirmou que já discutiu o assunto em reuniões com integrantes do governo e que pretende avançar nas medidas. “O que o futebol não pode é querer sobreviver às custas do pobre, que já torce para o time, já vai no estádio, e ainda tem que gastar apostando para o time ter dinheiro. Não é correto.”

O presidente afirmou que pretende avançar para interromper a expansão das apostas no país e que vai ouvir todos os lados, mas não negou sua disposição. “Eu estou determinado. Se depender da minha vontade, eu vou acabar com as bets nesse país. Não vou permitir que as pessoas continuem se endividando, se matando. Não é possível a gente permitir que a sociedade brasileira se autodestrua”, concluiu. 

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