“Eu não tenho duas pátrias”: Lula defende soberania sobre riquezas brasileiras em Santa Catarina
Em Florianópolis, presidente fala em preservar recursos naturais, transformar terras raras em tecnologia, atrair data centers e ampliar mercados para produtos brasileiros em meio ao debate sobre interferência externa
O que está debaixo da terra faz parte do país que se vê na superfície. Minerais, petróleo, água, florestas e biodiversidade formam um patrimônio que, para Lula, precisa ser preservado e servir aos brasileiros. Em Florianópolis, neste sábado (19/09), o presidente levou essa ideia ao centro de uma defesa da soberania nacional. “Eu não tenho duas pátrias”, disse o presidente, numa referência ao fato de que a candidatura da oposição tem alinhamento aos interesses dos Estados Unidos na região.
Preservar, no discurso de Lula, também significa decidir. Decidir como explorar, quanto transformar, onde produzir e o que deixar como legado. Foi a partir dessa lógica que o presidente falou das terras raras e dos minerais críticos, riquezas cada vez mais estratégicas para um mundo movido por chips, baterias, inteligência artificial, veículos elétricos e energia limpa.
“A gente quer explorar a terra rara aqui no Brasil. A gente quer extraí-la. A gente quer separá-la. A gente quer industrializá-la”, afirmou. A ambição, disse, é deixar de vender apenas a riqueza retirada do solo. “A gente quer vender chip. A gente quer vender bateria. A gente quer vender celular.”
Lula participou do ato O Brasil Pronto para Mais, na Praça Tancredo Neves, ao lado da chapa que apoia em Santa Catarina, formada por Gelson Merísio (PSB), candidato ao governo, e Angela Albino (PDT), candidata a vice-governadora, além dos candidatos ao Senado Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL). Também participaram o líder da bancada do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT), candidatos aos legislativos estadual e federal e outras lideranças políticas.
RIQUEZAS – O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás da China, segundo dados oficiais. Esses elementos são utilizados em produtos de alta tecnologia, de smartphones e veículos elétricos a turbinas eólicas. O desafio brasileiro está justamente em avançar nas etapas de maior valor da cadeia, como separação, refino e fabricação de componentes.
É aí que preservação, soberania e desenvolvimento se encontram no discurso do presidente. A proposta apresentada por Lula é combinar exploração responsável dos recursos com pesquisa, formação profissional e industrialização dentro do país. “A gente não quer exportar só carne de porco, de frango, milho. A gente quer exportar inteligência, conhecimento”, afirmou. Para isso, Lula defendeu a formação de profissionais especializados nos institutos federais e universidades. O objetivo é preparar engenheiros, matemáticos, físicos e pesquisadores para que o Brasil domine tecnologias que hoje estão concentradas em poucas nações.
A concentração é significativa. A China responde por cerca de 85% a 90% do refino global de terras raras e por aproximadamente 90% da produção dos ímãs permanentes utilizados em diferentes tecnologias, segundo a Agência Nacional de Mineração. “Não somos menores do que ninguém. O que faltou para nós é oportunidade”, disse Lula.
SOBERANIA – A defesa da soberania ganhou pano de fundo especialmente atual neste sábado. Um relatório confidencial da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça, alerta para uma escalada considerada “crítica” da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil no contexto das eleições de 2026.
No documento, a Abin aponta riscos de influência e interferência externa e avalia possíveis impactos políticos, econômicos e institucionais para o país. Lula não mencionou o relatório durante o ato em Florianópolis, mas levou ao palanque uma defesa da autonomia brasileira sobre suas decisões e seus recursos estratégicos. Para ele, o Brasil deve manter relações com diferentes países sem abrir mão de decidir sobre suas riquezas, sua produção e seu desenvolvimento. “A nossa guerra é formar as nossas meninas e os nossos meninos para construir um futuro decente para esse país.”
MERCADOS – Se as terras raras serviram para falar do Brasil que precisa agregar valor ao que retira do solo, o agronegócio catarinense permitiu a Lula mostrar outra dimensão da relação do país com o mundo: encontrar compradores para aquilo que já produz. Diante de uma plateia em um dos principais estados produtores de aves e suínos, Lula questionou a resistência de setores do agronegócio ao seu governo e citou a política de abertura de mercados internacionais para produtos brasileiros.
No discurso, afirmou que foram abertos 34 novos mercados para carne de aves e derivados, 25 para carne suína e derivados, 37 para bovinos e derivados e 22 para pescado. Segundo Lula, considerados esses quatro grupos de proteínas relevantes para Santa Catarina, são 118 novas possibilidades de acesso a mercados internacionais durante seu mandato. Ao todo, o presidente afirmou que o Brasil chegou a 693 novas aberturas de mercado para produtos do agronegócio no período, em mais de 90 destinos mundo afora. A estratégia apresentada por Lula combina duas frentes. De um lado, vender mais carne, grãos e outros produtos brasileiros a diferentes destinos. De outro, fazer o país subir degraus na cadeia de valor e colocar no comércio internacional produtos desenvolvidos com ciência e tecnologia nacionais.
CONHECIMENTO – Foi por isso que, no discurso, o caminho entre o subsolo e o mercado internacional passou pela sala de aula e chegou também aos centros que vão armazenar e processar os dados de uma economia cada vez mais digital. Lula citou o Redata, Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, sancionado nesta semana para estimular a instalação e a ampliação de centros de dados no Brasil. A política prevê incentivos tributários, mas exige contrapartidas em pesquisa, sustentabilidade e atendimento ao mercado brasileiro. Hoje, cerca de 60% das cargas digitais brasileiras estão fora do país, segundo diagnóstico do Ministério da Fazenda.
“Acabou de ser aprovada a lei do Redata”, afirmou Lula. Para o presidente, a capacidade brasileira de produzir energia renovável pode ajudar o país a atrair esses investimentos, mas a chegada dos empreendimentos precisa ocorrer sem disputar com a população a energia necessária às casas e às atividades produtivas. A legislação segue essa direção. Para receber os benefícios, os data centers deverão atender toda a demanda contratada de eletricidade com energia renovável ou de baixa emissão, além de cumprir critérios de eficiência hídrica. Também terão de destinar pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados ao mercado interno e investir em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
Para Lula, a aposta nos data centers se conecta à mesma estratégia defendida para os minerais críticos. Não basta ter energia ou matéria-prima. É preciso transformar essas vantagens em pesquisa, processamento de dados, inteligência artificial, indústria e conhecimento produzidos no Brasil. O presidente voltou a citar a expansão dos institutos e universidades federais e defendeu que o país forme os profissionais necessários para disputar setores tecnológicos de ponta. Também falou em desenvolver inteligência artificial em português e investir em pesquisa para diminuir a dependência de tecnologias estrangeiras.
Em Santa Catarina, Lula também destacou investimentos federais em educação no estado e voltou a defender o Pé-de-Meia como instrumento para impedir que jovens abandonem a escola por necessidade de trabalhar e complementar a renda familiar. Para ele, soberania não se mede apenas pela extensão do território ou pelo tamanho das reservas naturais. Depende também de quem possui conhecimento para transformá-las.