Brasil se antecipa ao El Niño e prepara resposta à crise climática
Em entrevista à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte, presidente destaca preparação para eventos extremos, redução do desmatamento e protagonismo do Brasil na agenda climática
Que o “bicho” venha leve e manso é o desejo. Estar preparado para enfrentá-lo, venha como vier, é o trabalho. Foi nesses termos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre o El Niño durante entrevista à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte (CE). Segundo Lula, o país vem se preparando há mais de um ano para os possíveis efeitos do fenômeno climático.
“Nunca estivemos tão preparados para enfrentar o El Niño. Eu não sei o tamanho que ele vem, mas pode saber que, desta vez, o Brasil está preparado”, afirmou Lula na conversa com o radialista João Hilário.
O presidente contou que reuniu, há cerca de 20 dias, ministros de diferentes áreas para discutir as previsões e os possíveis efeitos do fenômeno. Segundo Lula, o governo vem reforçando equipes e estruturas necessárias para responder a situações extremas, com aquisição de veículos e aviões e planejamento para garantir alimentos em regiões que eventualmente enfrentem dificuldades.
“Se a gente vai dar conta de tudo, eu não sei, mas contratamos as pessoas que têm que contratar, compramos os carros que têm que comprar, compramos os aviões que temos que comprar”, disse. “Nós estamos nos preparando há mais de um ano.”
Essa preparação envolve diferentes áreas do Governo Federal. Uma Sala de Situação reúne 24 ministérios e dezenas de especialistas para acompanhar os possíveis impactos do El Niño em 2026, com ações que abrangem saúde, energia, assistência social, segurança alimentar, monitoramento de rios, integração de dados e sistemas de alerta. R$ 1,3 bilhão está destinado às medidas de prevenção e resposta.
A atuação preventiva também inclui obras para reduzir os efeitos de eventos extremos. O Novo PAC prevê R$ 18,6 bilhões para drenagem urbana e contenção de encostas. Os sistemas de alerta foram modernizados, com monitoramento do Cemaden em 1.427 municípios e avisos enviados diretamente aos celulares pela Defesa Civil.
MAIS ESTRUTURA- Outra frente é o combate ao fogo nos biomas. Cerca de R$ 500 milhões do Fundo Amazônia foram direcionados à modernização de equipamentos, veículos e bases e ao mapeamento de regiões críticas. O país chegou, em 2026, a 4,4 mil brigadistas federais atuando nos cinco biomas, 40% a mais do que em 2022.
Na entrevista, Lula relacionou a preparação para eventos climáticos extremos a uma política mais ampla de preservação ambiental e destacou os resultados obtidos no combate ao desmatamento. “Todo mundo sabe os efeitos da nossa política de diminuir em pouco tempo 50% o desmatamento na Amazônia”, afirmou.
Desde 2023, a queda do desmatamento também alcançou outros biomas: 50% na Amazônia, 32,5% no Cerrado e 63% no Pantanal. No mesmo período, o Governo Federal reforçou a atuação do Ibama e do ICMBio.
Lula atribuiu parte dos avanços à parceria com estados e municípios. Na entrevista, defendeu que prefeitos das regiões mais pressionadas pelo fogo e pelo desmatamento sejam incorporados à estratégia de preservação, em vez de tratados como adversários.
“O prefeito é a pessoa que está mais perto do fogo, ele está mais perto do desmatamento. Então eu não posso ficar de Brasília xingando ele”, afirmou.
O presidente também defendeu a criação de incentivos para municípios que conseguirem preservar mais e reduzir o desmatamento. “Por que ele recebe um xingamento quando não dá certo e, quando dá certo, não recebe um prêmio?”, questionou.
RESPEITO INTERNACIONAL- Lula também relacionou os resultados ambientais à retomada do protagonismo brasileiro no debate climático mundial. Na entrevista, lembrou a realização da COP30, em Belém, e afirmou que a política ambiental ajudou o país a recuperar credibilidade internacional.
“Não tem nenhum momento na história do Brasil que o Brasil estivesse tão respeitado como o Brasil está hoje”, disse. “Respeitado na política, na geopolítica, na economia, na política de inclusão social e muito respeitado na questão climática.”
Além de sediar a COP30, o Brasil voltou a ocupar espaço central nas discussões internacionais sobre financiamento climático e conservação das florestas, defendendo que a proteção ambiental caminhe junto com melhores condições de vida para as populações que vivem nesses territórios.
No caso do El Niño, a aposta é antecipar os riscos em vez de agir apenas depois dos danos. “Deus queira que o bicho venha leve, manso, que venha devagarinho para não causar tanto prejuízo a nós. Mas estamos preparados para isso.”