05 de abril de 2022

O desprezo de Jair Bolsonaro pela democracia é uma de suas mais fortes características, assim como o desprezo pela verdade, pela vida da população, pelo meio ambiente e pela economia, entre outros temas. Acuado pelos resultados de sua péssima gestão Um dos principais sinais de reação reforça uma receita de ataques que já é antiga e segue o padrão adotado por um grupo que nunca se furtou em ameaçar a democracia e as instituições para se manter no poder a qualquer custo: plantar fake news – já desmentidas – sobre as urnas eletrônicas; tentar esvaziar a imagem do Judiciário e atacar pessoalmente ministros e servidores.

Nos últimos meses, a tática dos apoiadores de Jair Bolsonaro tem sido a de imitar seu discurso antidemocrático levantando dúvidas sobre o processo eleitoral com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e seus ministros.

Com um legado de sucessivas crises políticas, econômicas, sociais e sanitárias, Jair gosta de se referir verbalmente aos integrantes dos demais Poderes como “inimigos”. Não é de se estranhar, então, que o bolsonarismo se valha, em ano eleitoral, de ameaças e truculência contra o STF e o TSE em grandes plataformas de redes sociais, como YouTube, Instagram e Twitter. Nas duas primeiras, os ataques às instituições superam as conta Lula e a outros pré-candidatos.

O volume dos ataques

Apenas no último mês, 999 vídeos foram publicados no YouTube com ataques diretos ao STF, ao TSE e aos ministros das Cortes. O número é mais de cinco vezes maior do que o que se viu em setembro do ano passado (185), quando ocorreram manifestações antidemocráticas que pediam de intervenção militar ao fechamento dos Tribunais e do Congresso – com o apoio e a presença de Jair e ministros.

Os dados são de dois estudos publicados por O Globo: um coordenado pela pesquisadora em comunicação política Leticia Capone, do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Política da PUC-Rio, que analisou 240 canais do YouTube e mais de 900 perfis do Instagram, todas de apoio ao atual presidente; e outro, da consultoria em monitoramento de redes sociais Arquimedes, que identificou um pico de menções ao STF no Twitter em março. 

A estratégia reflete os discursos golpistas da carreira política de Jair Bolsonaro, e ganhou mais fôlego a partir das falas do último 31 de março, quando o atual presidente mandou um “cala a boca” aos magistrados. Foram 3.578 vídeos com citações aos tribunais em canais bolsonaristas no YouTube entre setembro e março, visualizados mais de 196 milhões de vezes. Índice maior do que o de menções ao próprio Lula (3.555 postagens com 171,1 mi visualizações) e outros virtuais presidenciáveis e ex-aliados, como o ex- juiz da Lava Jato Sergio Moro (1.819). O padrão se repete no Instagram.

Alexandre de Moraes, Barroso e Fachin são alvos preferenciais

Alvo-favorito do bolsonarismo após uma série de decisões desfavoráveis ao presidente, Alexandre de Moraes é um dos nomes mais frequentes no levantamento. Foram 902 vídeos no YouTube contra o relator do inquérito que apura as manifestações antidemocráticas. Depois dele, aparecem o ex-presidente do TSE, Luis Roberto Barroso (554), e Edson Fachin, que comanda atualmente a Corte Eleitoral (151). Entre os Tribunais, têm-se mirado mais no STF (1.504 vídeos) que no TSE (467).

Ainda na esteira das desastrosas falas do presidente enaltecendo a ditadura, o Twitter registrou o maior volume de ataques ao STF desde o início do ano segundo a Arquimedes: foram quase 700 mil entre 29 e 31 de março. 

Impulsionados pela defesa do deputado federal Daniel Silveira, preso em fevereiro justamente por atacar ministros da Corte, a base do governo protagonizou os debates na rede, com 75% dos conteúdos publicados. O fato de a ordem de prisão ser encabeçada por Moraes e de Barroso ter se pronunciado em relação aos ataques de 31 de março serviram de combustível para um grupo que acredita que a política se constrói a partir de ódio e mentiras

Juristas, analistas políticos e os próprios ministros das Cortes têm alertado há tempos sobre um “circo de narrativas conspiratórias das redes sociais”, como define Barroso. Na tentativa de conter a propagação das mensagens mentirosas e odiosas, o próprio YouTube anunciou novas regras na semana passada, que proíbem especificamente falas sobre votos adulterados ou sobre fraudes nas últimas eleições.