07 de outubro de 2015

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), José Graziano, foi o convidado especial da 10ª edição do Conversas sobre África, série de debates organizados pela Iniciativa África, do Instituto Lula. A um conjunto de gestores públicos e representantes de organizações e movimentos sociais, ele apresentou um panorama do trabalho da entidade junto à África e a posição central que o Brasil hoje ocupa no debate mundial sobre o combate à fome.

“Antes do governo Lula, o Brasil era um demandante de ajuda internacional. Ou seja, solicitava apoio para erradicar a fome. Hoje, é o décimo maior doador da FAO. E não se trata apenas de doação financeira, mas técnica e política”, afirmou Graziano, que elogiou o esforço do país pela cooperação Sul-Sul, modelo de desenvolvimento em que países em condições análogas se apoiam mutuamente para superar problemas, ao contrário da parceria desigual que ocorre entre países em desenvolvimento e países já desenvolvidos.

De acordo com Graziano, a FAO tem até dificuldades para atender à demanda que recebe para ajudar a aplicar programas nos moldes do Fome Zero, por exemplo. “Aprendemos, nos últimos anos, que há um conjunto de políticas relativamente eficiente para combater a fome. E, no topo delas, está o Fome Zero. Hoje, não conseguimos dar conta de atender a demanda de países da África, da Ásia e até da Europa para implantar o Fome Zero”, contou.

O diretor-geral da FAO citou o caso da Nigéria como exemplo da aplicação do programa. Lá, o conjunto de programas se chama 3N –Nigerianos Nutrem Nigerianos. “Na África subsaariana, 20% da população já é atendida por programas de transferência de renda, a maioria intermediados pela FAO. A grande dificuldade ainda é que esses programas sejam tornados permanentes. É difícil colocar o pobre no orçamento, como diz Lula. Ainda mais onde não há uma CUT, um MST, um movimento organizado da sociedade civil para pressionar por mudanças”, ponderou.

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) é outra agente importante de modernização dos sistemas alimentares da África, ajudando a agricultura familiar a se estruturar e profissionalizar. Graziano destacou que, enquanto o Brasil tem cerca de 4 milhões de propriedades rurais familiares, em Angola são 10 milhões de propriedades de agricultura familiar, quase todas sob a responsabilidade das mulheres.

A agricultura familiar é essencial para qualificar a alimentação e beneficia principalmente as crianças, por meio dos programas de alimentação natural nas merendas escolares. As complexas estruturas sociais da África permitem a coexistência, até entre pessoas da mesma família, da subnutrição e da obesidade. “A alimentação africana, de forma geral, tem muita mandioca e frituras, e eles praticamente não comem peixe”, explicou.

O contraste no continente africano é sintoma de um desequilíbrio mundial. Graziano afirma que a FAO atestou que produzimos alimentos para todos no planeta, mas o desperdício ainda é muito grande. “Hoje nossos números mostram que o mundo produz mais do que suficiente para alimentar o mundo inteiro. Sobra alimento. E vai continuar sobrando até 2030, mas nós seguimos desperdiçando ou jogando fora mais de um terço dos alimentos. Só o desperdício da OCDE daria para acabar com a fome no mundo. São quase 2 bilhões de toneladas de alimentos em condição de consumo que são perdidos anualmente”, lamentou.