05 de julho de 2013

Nos dias 30 de junho e 1º de julho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Adis Abeba, na Etiópia, e participou do encontro de alto nível para discutir a erradicação da fome na África, organizando pela União Africana, pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pelo Instituto Lula. O jornal Valor Econômico publicou uma matéria resumindo os desafios e as conquistas já alcançadas pelos africanos. Leia abaixo a íntegra da matéria de Cristiane Agostine.

Para saber mais sobre o evento, acesse o hotsite: http://africa.institutolula.org

Países avançam, mas problemas ainda são graves

Por Cristiane Agostine| De Adis Abeba, Etiópia

Com o pior IDH do mundo, o Níger, no norte da Africa, tem seis em cada dez habitantes vivendo com um dólar (pouco mais de R$ 2) por dia. Do total da população, 85% ganham até US$ 2. Metade das crianças estão subnutridas. Apesar desse cenário desolador, o país é tido como exemplo na África de combate à fome e à desnutrição.

Desde a democratização em 2011, o Níger mais que dobrou seu sistema de irrigação e ampliou em 49% sua produção agrícola. Ao melhorar a irrigação, o país conseguiu preservar parte da área plantada e salvar o rebanho bovino da seca do ano passado. O cenário foi diferente do de 2010, quando uma forte seca colocou em risco a vida de quase metade dos 16, 2 milhões de habitantes, restringindo o acesso a alimentos. Além de investir na produção agrícola, o país tenta implementar um programa semelhante ao brasileiro Fome Zero.

As transformações no Niger, ainda que pontuais, foram exibidas ao lado de programas da Etiópia, Malaui e Angola durante o encontro “Novas abordagens unificadas para erradicar a fome na África até 2025”, promovido pela União Africana, pela FAO e pelo Instituto Lula em Adis Abeba, capital etíope, no domingo e ontem. Além de programas externos, os países africanos buscaram exemplos do que já foi feito no próprio continente. “Ao apresentar esses quatro casos, nossa ideia foi fazer com que eles se olhem no espelho”, disse o diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva.

Em Angola, depois de conseguir a paz no território, em 2002, o governo desenvolveu um programa de extensão e desenvolvimento rural, voltado para cerca de 1,5 milhão de famílias, e distribuiu sementes e fertilizantes. O Estado ofereceu crédito agrícola, ampliou o sistema de irrigação e levou água potável para a zona rural – apesar de apenas 43% da população rural ter acesso a água. Ao mesmo tempo, ampliou a participação do agronegócio na produção local. Com essas medidas, a parcela da população subnutrida caiu 57%.

Com um PIB per capita de US$ 900, o Malaui subsidiou parcialmente a venda de fertilizante, sementes e pesticidas para pequenos agricultores. Com isso, a produção do milho cresceu e elevou a renda familiar e o PIB, e o país conseguiu sair de duas décadas de batalha contra a fome crônica.

A Etiópia investiu US$ 2 bilhões num dos maiores projetos de proteção social da África. Assim como o Brasil, fez um programa de transferência de renda condicionada e incentivou a produção agrícola. A proporção de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza caiu de 45,5% em 1995/1996 a 29,6% em 2010/11, segundo estudo do Instituto Lula. Há sérios problemas, porém: quase 4 milhões de pessoas dependiam de ajuda humanitária e doação de alimentos, e outros 7,7 milhões enfrentavam alimentação inadequada entre 2011 e 2012.

Fora da África, foram exibidos três modelos de combate à fome, de China, Vietnã e Brasil, que podem servir de referência. “A China tirou 300 milhões de pessoas [da pobreza], então é um bom exemplo. O Vietnã não tinha produção agrícola e, ao resolver isso, resolveu também o problema de fome e hoje exporta alimentos. E o Brasil é tido como exemplo pela rapidez com que implementou programas sociais”, disse Graziano, da FAO.

O programa brasileiro Bolsa Família, apesar de despertar a curiosidade dos africanos, enfrenta dificuldades para ser implementado. Entre os problemas estão a falta de recursos, de cadastro único, de bancarização e do acompanhamento da frequência escolar.

A repórter viajou a convite da FAO