Aos olhos do DF, as muitas razões para estar com Lula
Em ato de campanha na capital federal, histórias de diferentes idades e origens revelam o que apoiadores enxergam em Lula e o Brasil que esperam encontrar pela frente
O que faz os olhos de alguém brilharem aos 16 anos não é necessariamente o mesmo que os faz brilhar aos 74. Nesta quarta-feira (16/09), na Praça do Trabalhador, em Ceilândia (DF), havia os dois, e todas as idades no meio. Havia também bandeiras nas mãos, celulares apontados para o palco e uma emoção difícil de esconder no rosto de quem acompanhava Lula.
Para alguns, aquele brilho vinha de uma história que começou muitas eleições atrás. Para outros, da expectativa de votar pela primeira vez. Entre os apoiadores estavam pessoas que escolheram Lula nas urnas em 1989 e adolescentes que nunca apertaram o botão verde. Gente nascida em Brasília, gente que chegou quando a capital ainda era nova e até quem nasceu em outro país e hoje escolhe pelo voto os rumos do Brasil.
As razões também mudavam. Educação. Direitos. Mulheres. Periferia. Desigualdade. Família. As histórias acabavam falando, cada uma à sua maneira, de cuidado. Para aquelas pessoas, apoiar Lula estava ligado, de formas diferentes, à sensação de que alguém no poder consegue enxergar quem tantas vezes é invisibilizado e passa despercebido.
COMEÇOS – Maitê tem 16 anos, mora em Ceilândia e ainda não sabe como é sair de uma seção eleitoral depois de escolher um presidente. Vai descobrir neste ano. “Estou animada para votar e fazer a diferença.” Quando fala do país que gostaria de encontrar nos próximos quatro anos, cita educação, redução da desigualdade e direitos das mulheres. E, quando pensa em quem gostaria que recebesse mais atenção de quem governa, a lista cresce. “Acho que é preciso focar nas minorias, porque realmente precisam: os pobres, os LGBTs, as pessoas com deficiência, as mulheres.”
Léo Paiva também está chegando agora às urnas. Aos 17 anos, foi ao ato acompanhado da mãe e da irmã mais nova, que circulava entre a família coberta de adesivos. Morador da Asa Norte e adolescente trans, ele coloca o combate à homofobia entre as questões que pesam em suas escolhas políticas. Ainda está conhecendo candidatos e propostas, mas já sabe quais direitos não quer ver deixados de lado.
A poucos metros dos dois estava uma mulher cuja história eleitoral começou muito antes deles nascerem. Neuza Salles tem 74 anos e vota em Lula desde 1989. Professora aposentada, ajudou a montar o Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho (DF), ensinou francês, coordenou a área e dirigiu a unidade. Nem a artrose a manteve em casa. “Tomei um comprimido e vim para cá”, contou.
Neuza diz não precisar pessoalmente dos programas sociais que defende. “Eu não sou beneficiária de nenhum dos programas, mas voto pensando em quem precisa. Porque, quando um ganha, todos ganham. Se melhora para quem precisa, melhora o país.”
CUIDADO – Luciana Holanda, 56 anos, nasceu em Brasília e mora no Paranoá (DF). “Eu nasci na periferia, sou cria da periferia.” É também a partir desse lugar que ela mede algumas das mudanças que acompanhou. “Se a gente olhasse para a Universidade de Brasília há 30 anos, não conseguiria enxergar, por exemplo, as pessoas negras dentro da universidade. Se eu tivesse que falar de uma política que transforma a vida das pessoas, falaria das políticas de educação.”
Mas, quando a pergunta muda para quem ainda precisa da atenção de quem governa, Luciana não fala do passado. Fala das mulheres de Brasília. “Olhem para as mulheres e para a segurança das mulheres. Esse seria o meu recado aos governantes.”
O tema chegaria também ao palco. Ao falar sobre violência contra as mulheres, Lula defendeu a responsabilidade dos homens no enfrentamento ao problema. “Vamos cuidar das nossas mulheres com respeito, com carinho”, afirmou.
Era uma das vezes em que Lula usava naquela noite um verbo que ajudava a costurar histórias tão diferentes. Cuidar, naquela praça, não tinha uma única tradução. Podia ser abrir a porta de uma universidade, proteger uma mulher, respeitar a identidade de um adolescente ou garantir que uma política chegue a quem precisa dela.
ESCOLHAS – Shawin Morris, 51 anos, atravessou uma fronteira antes de chegar às urnas brasileiras. O produtor cultural nasceu na República da Guiana, tornou-se cidadão brasileiro e hoje participa pelo voto das decisões do país que escolheu para viver. Ao explicar o que o aproxima de Lula, Shawin voltou justamente ao olhar. “É alguém que realmente olha para o povo.” Já o recado para quem ocupa o poder independe de lado político. “Utilize o poder com sabedoria. Seja do nosso lado ou do outro lado, o poder tem que ser usado com sabedoria.”
Lula também falou sobre escolha. Em vez de pensar apenas nos nomes impressos na urna, pediu que os eleitores imaginassem “o Brasil que vocês querem para os filhos de vocês e para as filhas de vocês”. Na Praça do Trabalhador, havia muitas respostas para essa pergunta.
Maitê quer começar a participar. Léo quer direitos respeitados. Luciana quer mulheres protegidas. Neuza pensa em quem precisa mesmo quando ela própria não precisa. Shawin quer responsabilidade de quem recebe poder.
E, no meio de tudo isso, um trompete começou a tocar. O instrumento não estava no palco. Estava na plateia, nas mãos de um homem que puxou a melodia conhecida pelo público. A primeira dama, Janja, ouviu e chamou a multidão para acompanhar. As vozes vieram atrás. ”Olê, Olê, Olê, Olá, Lula, Lula.” As bandeiras subiram mais uma vez. No discurso, Lula escolheu o mesmo verbo que aparecia, de diferentes maneiras, entre os apoiadores. “Nós sabemos cuidar do povo.”
Talvez o brilho nos olhos não dissesse exatamente a mesma coisa aos 16 e aos 74 anos. As histórias ouvidas em Ceilândia mostravam justamente o contrário. Cada um tinha sua razão para estar ali. O ponto de encontro estava no olhar. Para aqueles apoiadores, Lula enxerga com olhos brilhantes toda gente que não quer voltar a ser invisível.