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Encontro com pastores dos EUA e com pastores brasileiros da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito
Fotógrafo: Ricardo Stuckert

Desenvolvimento Social • Setembro de 2026 • 6 min de leitura

Lula fala de fé que vira cuidado e chega a quem mais precisa

Em encontro com pastores brasileiros, dos Estados Unidos e de Cuba, presidente fala de dignidade, combate à fome, racismo e cuidado e destaca o papel social das igrejas

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Tem a fé que cabe no templo e tem a que aparece no prato de quem tem fome, na escola que alfabetiza, no hospital que recebe sem perguntar de onde alguém veio, na periferia onde uma família pede ajuda e na companhia de quem envelheceu sozinho. Foi dessa fé que encontra gente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou nesta quarta-feira (16/09), durante encontro com pastores dos Estados Unidos e lideranças brasileiras da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Ao lado da primeira-dama Janja Lula da Silva, Lula ouviu histórias separadas por décadas, países e denominações religiosas, mas ligadas pela ideia de que a fé se manifesta também quando vira cuidado. “Governar não é atender o de sempre. Governar é atender aquela parte da sociedade que durante séculos foi tida como invisível”, afirmou o presidente. “Chegar àquelas pessoas que são tratadas como números e não como seres humanos.”

Foi a partir delas que Lula falou sobre fome, desigualdade, racismo, guerras e solidão. E foi também a partir delas que pastores brasileiros, norte-americanos e cubanos contaram como igrejas transformaram fé em escola, hospital, comida, acolhimento e organização comunitária.

FÉ – A coordenadora-executiva da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Nilza Valeria Oliveira, lembrou que essa atuação atravessa quase dois séculos, desde a criação de escolas e hospitais evangélicos. Contou que sua bisavó, uma mulher negra de uma região remanescente de quilombo, converteu-se em 1889 e que foi pela igreja que seus avós tiveram acesso à alfabetização.

Essa presença, disse, continua nas periferias e no interior. Durante a pandemia, pequenas e médias igrejas distribuíram alimentos, ofereceram apoio psicológico e participaram de campanhas de vacinação. “A nossa força está na comunidade”, afirmou. Nilza destacou políticas do governo voltadas ao combate à fome, aos cuidados e às periferias como exemplos de como o Estado pode chegar mais perto das pessoas e defendeu maior diálogo com igrejas e outras religiões que já atuam nesses territórios.

16.09.26 - Encontro com pastores dos EUA e com pastores brasileiros da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito

DIGNIDADE- A pastora Adriane Maia mostrou como esse trabalho pode começar pequeno. Há 18 anos, ela chegou a Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, então marcado pelo enorme lixão que funcionava na região. Viu crianças em meio aos resíduos e famílias vivendo em condições que, segundo relatou, feriam a dignidade humana. “Eu sabia que Deus amava aquelas pessoas do mesmo jeito que me amava.” Adriane contou que a cena mudou sua vida. Inspirada na parábola bíblica do grão de mostarda, reuniu-se a outras pessoas, sobretudo mulheres, para criar uma organização dedicada a levar comida, educação e oportunidades à comunidade. “Nós nos unimos a qualquer projeto que trabalhe pela dignidade da pessoa humana”, afirmou.

DE ATLANTA AO BRASIL – O pastor Bronson Woods veio de Atlanta, da histórica Igreja Batista Ebenezer, ligada à trajetória de Martin Luther King Jr. Segundo ele, a delegação norte-americana chegou ao Brasil não apenas para recordar King, mas para continuar uma obra que permanece inacabada. “Não viemos ao Brasil apenas para uma visita. Viemos para aprofundar um relacionamento.” Woods falou da construção de parcerias entre igrejas dos dois países para enfrentar problemas comuns, como violência, racismo, discriminação, pobreza, encarceramento em massa e exclusão. “Viemos para ouvir. Viemos para aprender. Viemos para servir. E viemos para construir juntos.”

A pastora Chelsea Waite também recuperou o legado internacional de King e sua ideia de “Comunidade Amada”. Segundo ela, racismo, pobreza, violência e desigualdade não são problemas isolados, mas ameaças conectadas à dignidade humana. “O Dr. King deixou para o mundo mais do que apenas uma memória. Ele deixou uma obra inacabada.” Lula lembrou a luta de King pelos direitos civis e aproximou a discussão da realidade brasileira. Para o presidente, séculos de escravidão deixaram marcas que não desaparecem apenas com a existência de leis. “Não é por falta de lei”, afirmou. Para Lula, existe um preconceito construído historicamente que ainda precisa ser enfrentado.

DESIGUALDADES – A fome levou Lula de volta à própria história. O presidente recordou o compromisso assumido em seu primeiro governo, de garantir que cada criança, mulher e homem pudesse tomar café, almoçar e jantar todos os dias. Mas afirmou que, com o tempo, percebeu que tirar alguém da fome não encerra a tarefa. “A desigualdade é uma cesta cheia de desigualdade.”

Nela, Lula colocou renda, educação, saúde, assistência, religião e raça. “Há dezenas e dezenas de motivações da desigualdade”, disse. O presidente lembrou que saiu de Pernambuco aos sete anos e contou que experimentou pão pela primeira vez nessa idade. A memória serviu também para explicar sua relação pessoal com a fé. “Se Deus pegou o menino que nasceu no Nordeste brasileiro com possibilidade de morrer de fome até cinco anos de idade, fez ele sobreviver e fez chegar à Presidência da República três vezes, não pode ter maior abraço que Deus deu no ser humano do que deu em mim.”

FÉ NÃO TEM DONO – Ao falar da presença evangélica no país, o pastor Ariovaldo Ramos rejeitou a ideia de que milhões de brasileiros possam ser representados por uma única voz. “Os evangélicos não podem ser encabrestados por ninguém. Nós somos um campo enorme e ninguém fala por nós.” Segundo ele, a fé deve ser vivida não como “embate político ou ideológico”, mas como esperança e construção de comunidade. “Os evangélicos são mais complexos do que estão tentando descrever”, afirmou.

Lula também estabeleceu o limite que considera necessário entre religião e campanha eleitoral. Disse que evita convites para entrar em igrejas, católicas ou evangélicas, com objetivo político. “Eu respeito muito a fé das pessoas. Eu respeito muito o compromisso individual que cada pessoa tem com Deus. Se eu quiser fazer política e comitê, faço na rua. Mas na igreja não faço.”

CUIDADO – No fim do encontro, a fé que saiu do templo chegou a uma sala silenciosa, com uma televisão ligada e alguém sozinho no sofá. Foi assim que Lula descreveu a realidade de parte da população idosa ao anunciar que pretende criar uma política de cuidado voltada não apenas a quem está doente, mas também a homens e mulheres que perderam espaços de convivência. “Nós vamos precisar muito das igrejas no ano que vem”, afirmou.

A proposta, segundo Lula, é criar condições para que essas pessoas saiam do isolamento. Falou em passear, assistir a filmes, nadar, dançar e até namorar. “Porque hoje, com 70, com 80, se namora.” Depois de histórias sobre escolas abertas por missionários, hospitais que acolheram pobres, mulheres que entraram em Jardim Gramacho, igrejas que distribuíram comida e pastores que atravessaram continentes, Lula colocou diante deles uma nova tarefa: fazer a fé atravessar mais uma porta e encontrar quem está do outro lado.

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