Lula cobra reforma da ONU e questiona eficácia do Conselho de Segurança
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, presidente Lula voltou a defender uma ONU mais representativa e capaz de responder aos conflitos e desafios geopolíticos atuais
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender uma ampla reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) e questionou a concentração de poder no Conselho de Segurança. A declaração ocorre no momento em que a organização conduz o processo de escolha do sucessor de António Guterres, cujo segundo mandato termina em dezembro deste ano. Pela regra atual, o secretário-geral é nomeado pela Assembleia Geral após recomendação do Conselho de Segurança, órgão em que cinco países têm assento permanente e direito de veto.
Para Lula, o processo evidencia a necessidade de mudar a estrutura de governança da organização. “Agora vai ser votado um novo secretário-geral da ONU. Vai ser eleito. Quem é que vota? Somos 190 países. Mas, no fundo, quem escolhe são os cinco membros permanentes. Os que têm direito de veto. Se eles vetarem, ninguém passa”, explicou o presidente, que nesta terça discursa na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Na entrevista, o presidente relacionou a reforma da ONU à capacidade da comunidade internacional de enfrentar problemas como a fome, o analfabetismo e doenças já passíveis de tratamento. “É preciso mudar a forma de organização da ONU. É preciso voltar a dar representatividade à ONU, legitimidade, porque hoje ela está desacreditada”, argumentou.
CONSELHO DE SEGURANÇA – Lula criticou em especial a ineficiência do Conselho de Segurança e a perda de poder de instituições multilaterais. “Hoje o Conselho de Segurança não funciona, a OMC não funciona, a ONU não tem força para brecar e evitar nenhum conflito”, afirmou. A alternativa, de acordo com o presidente, não é desmontar a organização criada após a Segunda Guerra Mundial, mas recuperar sua capacidade de atuação. “O que é que vamos fazer com a ONU? Desmontar? Uma coisa que foi criada com uma importância extraordinária depois da Segunda Guerra Mundial?”, questionou.
A defesa de uma reforma da governança global é uma posição reiterada por Lula ao longo de toda a sua trajetória, e enfatizada neste terceiro mandato. Na abertura da Assembleia Geral da ONU em 2024, o presidente afirmou que a organização estava “cada vez mais esvaziada e paralisada” e defendeu ampla revisão da Carta da ONU, incluindo a reforma do Conselho de Segurança, de sua composição, de seus métodos de trabalho e do direito de veto. Na ocasião, também apontou a ausência de representação permanente da América Latina e da África como incompatível com as realidades contemporâneas.
A reforma da governança global também foi uma das prioridades da presidência brasileira do G20 em 2024. O grupo defendeu a ampliação da representação de países da África, Ásia-Pacífico, América Latina e Caribe no Conselho de Segurança e mudanças para tornar suas decisões mais transparentes.
Na entrevista desta segunda, Lula voltou a associar a fragilidade das instituições multilaterais à dificuldade de construir uma ordem internacional baseada na paz e no respeito à soberania dos países. “Nós não podemos viver sob mentira. Seria muito mais fácil a gente criar um mundo de paz, de tranquilidade, e isso pode ser através da ONU”.