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Fotógrafo: Ricardo Stuckert

Economia • Setembro de 2026 • 5 min de leitura

Nos EUA, Lula defende relações soberanas entre países e livre comércio

Em entrevista à CNN, líder brasileiro reforçou que tarifaço dos EUA ao Brasil foi baseado em equívocos e reforça importância do multilateralismo como forma de harmonia mundial

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O multilateralismo foi defendido pelo presidente Lula como o modelo que melhor manteve o mundo numa harmonia comercial. Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da TV CNN dos Estados Unidos, nesta segunda-feira (21/09), o líder brasileiro afirmou que a posição do presidente Donald Trump tem sido pela negociação unilateral e que, nesta perspectiva, quem é mais forte tende a prevalecer.

“Ele tem um viés muito forte de aprovar o unilateralismo, ou seja, o relacionamento individual, sem levar em conta a Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso é muito perigoso, porque sempre há a possibilidade da predominância do mais forte”, alertou Lula, que defende um comércio equilibrado. “Tem que ter um certo equilíbrio para que não haja distorção e um país não tenha muito déficit com os outros”, completou.

TARIFAÇO – Mesmo apresentando documentos e informações que derrubam os argumentos do governo Trump, em uma negociação com 30 reuniões envolvendo os presidentes, ministros e técnicos dos dois países, os EUA decidiram aplicar tarifas comerciais de forma unilateral aos produtos brasileiros. “A taxação ao Brasil foi inverídica porque ela foi com base numa mentira. O Brasil é deficitário em relação aos Estados Unidos em muitos bilhões de dólares”, apontou Lula. 

O presidente brasileiro reforçou que não vai ficar se lamentando com as tarifas e está buscando outros mercados pelo mundo para os produtos nacionais. Desde 2023, o governo federal abriu 678 mercados em 93 países, 179% mais que em 2022. E depois do tarifaço, houve crescimento nas relações com diversas nações. 

“Só para você ter ideia, depois do tarifaço, a relação comercial com os Estados Unidos, esse ano, caiu 9% nas exportações e caiu também 8,5% nas importações. Entretanto, fizemos uma média de crescimento de 10,5% com 57 países. Com a China crescemos 20%, com o Japão crescemos 18%, com a Alemanha crescemos 16%, com a Indonésia crescemos 11%, com o Vietnã crescemos 14%, com a União Europeia, 23%”, enumerou.

Lula afirmou que se trata de uma postura autoritária do governo Trump, mas que está disposto a seguir negociando antes de acionar a lei de reciprocidade, ou seja, aplicar tarifas semelhantes aos produtos dos Estados Unidos que entram no Brasil. “É um jeito de governar que eu não concordo. É um jeito de governar que você diz ‘eu sou forte’, ‘eu sou maior’, ‘eu sou mais rico’, ‘eu posso tudo e o restante tem que obedecer’. É a chamada lei do mais forte, eu não concordo com esse tipo de lei”, frisou o presidente brasileiro na entrevista à CNN.

Após uma conversa por telefone entre Lula e Trump, em 21 de agosto, as negociações sobre o tarifaço foram retomadas. “Então, enquanto estiver na mesa de negociação, eu não preciso fazer a lei da reciprocidade. Eu posso aguardar”, disse o líder brasileiro. “Eu não pretendo entrar em guerra tarifária, nem com os Estados Unidos nem com ninguém. Eu quero negociar, sou de negociação”, completou.  

ARTIGO – A defesa do multilateralismo foi reforçada por Lula, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e pelo presidente do Quênia, William Ruto, que divulgaram um artigo conjunto, no domingo (20/09) no jornal estadunidense Financial Times.O presidente brasileiro está em Nova Iorque para a 81ª Assembléia Geral da ONU. 

No artigo, eles alertam que o mundo registrou em 2025, o maior número de conflitos armados desde 1946, pós 2ª Guerra Mundial, e os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões no ano passado. O texto faz a ressalva sobre o uso do poder econômico como instrumento de pressão e coerção e outros desafios nos quais a humanidade se depara: mudanças climáticas, inteligência artificial, pandemia, choques financeiros, cadeias de abastecimento.         

“Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação não é ato de idealismo; é uma necessidade prática”, escrevem. Para defender essa cooperação, a proposta é a criação da iniciativa: “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M, na sigla em inglês).   

“A P4M apoiará a reforma das Nações Unidas e de outras instituições multilaterais, para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios contemporâneos, da inteligência artificial e das mudanças do clima à segurança sanitária e à transformação digital”, propõem os líderes. 

O artigo ressalta a necessidade de renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não o substituir. A ideia é construir pontes e aproximar países que mesmo que discordem em algumas posições, defendem os princípios básicos na Carta da ONU. “São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais”, conclui o texto.

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