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Fotógrafo: Ricardo Stuckert

Internacional • Setembro de 2026 • 6 min de leitura

Na ONU, Brasil vai levar a soberania ao centro do debate

Em sua 11ª participação na Assembleia Geral como presidente, Lula chega a Nova York com defesa da autonomia dos países e uma agenda que retrata a retomada da presença brasileira no mundo

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O Brasil terá a primeira palavra na ONU. E vai usá-la para defender o direito de ter a última palavra sobre o próprio destino. Na terça-feira (22/09), quando Lula ocupar a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, a tradição de o Brasil abrir o Debate Geral desde 1955 ganhará um sentido especialmente atual. Em meio a guerras, disputas comerciais, rivalidades entre potências e ao debate sobre pressões externas no processo eleitoral brasileiro, o presidente levará a posição de um país que voltou a ocupar fóruns internacionais, dialoga com governos de diferentes orientações e busca transformar diplomacia em mercados, investimentos, cooperação e tecnologia. Um país disposto a negociar e construir pontes, sem escolher uma potência para seguir nem aceitar que outros decidam seu caminho.

“Somos um país soberano, de economia forte, e que cuida da sua população e das suas riquezas. Que respeita todo mundo e exige respeito. E que defende a paz e o diálogo entre as nações. É este o Brasil que estará presente, terça-feira, na abertura na ONU”, resumiu o presidente, em postagem nas redes sociais neste domingo.

A viagem ocorre em um momento em que a soberania ganhou ainda mais espaço no debate nacional. Reportagens recentes revelaram uma avaliação reservada da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhada à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça, que alerta para uma escalada da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil no contexto das eleições de 2026. Trata-se de uma avaliação da agência em meio a uma disputa de influência entre grandes potências na América Latina.

É nesse cenário que um dos pontos previstos para o discurso ganha peso. Lula deverá defender a não interferência nos assuntos internos dos países, além do multilateralismo, da negociação como caminho para solucionar conflitos e do respeito ao direito internacional humanitário. Também deverá voltar a cobrar uma reforma das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, cuja composição o Brasil considera distante da realidade geopolítica atual.

SOBERANIA — Antes de chegar a Nova York, em ato de campanha em Florianópolis, neste sábado (19/09), ao falar de riquezas naturais, minerais estratégicos e da relação com outras potências, Lula afirmou: “Eu não tenho duas pátrias”. A frase mostra uma política externa que mantém abertas diferentes portas. Estados Unidos, China, Europa, África, América Latina e Ásia são parceiros para comércio, investimentos e tecnologia, sem que a aproximação se transforme em alinhamento automático. Na ONU, Lula deve ampliar essa defesa. Em um mundo de guerras e disputas por mercados, energia e recursos estratégicos, nenhum país deve ter suas escolhas determinadas pelo poder de outro.

VOLTA  – O Brasil que chega a Nova York é diferente daquele que Lula encontrou ao assumir o terceiro mandato, em 2023, após um período de afastamento de importantes espaços de articulação internacional. Poucas semanas depois da posse, sua primeira viagem ao exterior marcou o retorno do país à Celac, que reúne 33 nações da América Latina e do Caribe.

Vieram depois a retomada da aproximação com a África, o retorno às reuniões do G7, a presidência do G20 em 2024 e do BRICS em 2025 e uma maior aproximação com o Sudeste Asiático. Nesse período, Lula recebeu 86 chefes de Estado e de governo de 68 países, manteve 257 reuniões com líderes de 77 nações e 130 conversas telefônicas com representantes de 44 países. Até agosto de 2026, foram 59 participações em cúpulas internacionais e 551 instrumentos de cooperação assinados.

A movimentação chegou ao comércio. Foram abertos 678 novos mercados em 93 destinos para produtos do agro e o superávit comercial acumulado em três anos e meio superou US$ 300 bilhões. O Brasil também sediou as cúpulas do G20 e do BRICS e a COP30 e viu avançarem acordos do Mercosul com União Europeia, Singapura e EFTA. 

AGENDA – Lula chega a Nova York neste domingo (20/09). Na segunda-feira (21/09), terá encontros bilaterais. Na terça, abre o Debate Geral e se reúne com o secretário-geral da ONU, António Guterres, em sua última Semana de Alto Nível à frente da organização. O presidente retorna ao Brasil no mesmo dia. Será sua 11ª participação na Assembleia Geral como presidente, em seus três mandatos, só não compareceu em 2010.

COMPROMISSOS – A passagem de Lula será curta. A presença brasileira em Nova York, não. O chanceler Mauro Vieira ficará durante toda a semana para reuniões do BRICS, IBAS, G77, G4, L69, CPLP, Celac e Consenso de Brasília. Na quarta-feira (23/09), Vieira presidirá a reunião ministerial da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada pelo Brasil durante a presidência do G20. No dia seguinte, comandará o encontro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), atualmente presidida pelo país.

INFLUÊNCIA – A Aliança Global é um exemplo de como o Brasil buscou transformar presença internacional em capacidade de pautar discussões. À frente do G20, em 2024, colocou o combate à fome na agenda econômica mundial, defendeu a tributação dos super-ricos e criou uma força-tarefa sobre mudança do clima. No ano seguinte, presidiu um BRICS ampliado, com 11 membros, levando ao bloco discussões sobre desenvolvimento, saúde e reforma da governança internacional.

ÁFRICA – A articulação chegou também à África e à Ásia. Em 2024, Lula participou da Cúpula da União Africana e buscou apoio para a Aliança Global. Em 2025, tornou-se o primeiro presidente brasileiro a visitar a sede da ASEAN e participar de uma reunião de líderes do bloco. Em Nova York, o combate à fome continuará entre as prioridades. O ministro Wellington Dias, copresidente da Aliança Global, terá agendas entre os dias 21 e 23 sobre segurança alimentar, proteção social, financiamento ao desenvolvimento e cooperação internacional.

DOIS ESTADOS – O Brasil também estará nas discussões sobre alguns dos principais conflitos internacionais. A delegação participará de reuniões do Conselho de Segurança e de encontros sobre Palestina e a solução de dois Estados, desigualdade, consolidação da paz e direito internacional humanitário. Em 2023, quando presidia o Conselho de Segurança durante a eclosão do conflito no Oriente Médio, o Brasil apresentou uma resolução que obteve maioria dos votos, mas foi vetada pelos Estados Unidos. Desde então, o governo mantém a defesa de um cessar-fogo e da solução de dois Estados, Israel e Palestina. Também participarão da programação representantes brasileiros das áreas de gestão e inovação, povos indígenas e igualdade racial.

VOZ – A 81ª Assembleia Geral reúne os 193 Estados-membros da ONU sob o tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. O Debate Geral acontece entre os dias 22 e 26 e novamente no dia 28.

PROTAGONISMO – Lula chega a Nova York com um Brasil novamente presente nas grandes mesas internacionais, novos mercados abertos e relações ampliadas com diferentes polos. Mas agora, o debate é ainda mais sensível. Diante das discussões sobre pressões externas no processo eleitoral, o presidente levará à ONU a defesa de que protagonismo internacional e soberania caminhem juntos: ampliar parceiros sem criar novas dependências e dialogar com diferentes governos sem entregar a nenhum deles o poder de escolher os rumos do país. Na terça-feira, essa trajetória estará concentrada por alguns minutos em uma única tribuna. O Brasil conversa com o mundo, mas seu futuro é escolha dos brasileiros.

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