Lula desconstrói fala negacionista de candidato sobre aquecimento global
Um dia depois de Flávio Bolsonaro evitar reconhecer a origem humana da crise climática e reduzir o tema a saneamento básico em sabatina da TV Globo, presidente reage com números e mostra a complexidade de gestão que o tema demanda
A crise climática entrou no debate eleitoral pela porta do negacionismo. Na sabatina realizada pela TV Globo na noite de sexta (28), o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro evitou reconhecer a ação humana como causa do aquecimento global e afirmou que a melhor forma de proteger o país das mudanças do clima seria o saneamento básico. A posição reforça um posicionamento do senador em 2019, quando classificou o debate sobre aquecimento global como “discurso apocalíptico”.
Em suas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a postura como “amadorismo irresponsável” e afirmou que reduzir a crise climática ao saneamento “dá a dimensão” de um projeto que, segundo ele, “vende soluções simples para problemas complexos”. Lula aproveitou o episódio para ampliar o enquadramento do tema. Em sua manifestação, associou a relativização da ciência a outras posições presentes em figuras que orbitam o campo político de Flávio, como a rejeição às vacinas e o fim do voto feminino.
Lula apresentou números para sustentar a atuação de seu governo nesse campo. Ao responder à afirmação sobre saneamento, citou R$ 23 bilhões destinados, desde 2023, a obras de abastecimento de água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos. Também mencionou R$ 3,5 bilhões destinados à retomada de obras de saneamento que estavam paralisadas.
Mas, para o governo, saneamento é apenas uma das frentes de uma política transversal. Lula citou a Sala de Situação para o El Niño, que reúne 24 ministérios e especialistas para acompanhar possíveis impactos do fenômeno em áreas como recursos hídricos, agricultura, saúde e abastecimento de alimentos. O pacote prevê R$ 1,3 bilhão em investimentos.
Negar o aquecimento global em pleno século XXI e reduzir o combate às mudanças climáticas a saneamento básico dá a dimensão do amadorismo irresponsável de quem se propõe a governar um país. É retrato de gente que vende soluções simples para problemas complexos. É da lavra do povo…
— Lula (@LulaOficial) August 29, 2026
Essa transversalidade aparece também nos investimentos em prevenção de desastres. Dentro do Novo PAC, o governo prevê recursos para obras de drenagem urbana e contenção de encostas. Do total de R$ 18,6 bilhões citado por Lula para esse conjunto de ações, R$ 11,7 bilhões já foram destinados a obras em 235 municípios de 26 estados.
A estrutura de resposta a desastres foi ampliada. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aumentou o alcance dos alertas, enquanto o Defesa Civil Alerta passou a enviar diretamente aos celulares da população avisos sobre situações de risco.
Na saúde, o governo apresentou nesta sexta-feira (28) um plano para preparar o Sistema Único de Saúde para impactos associados ao El Niño. A estratégia inclui a atuação da Força Nacional do SUS e a criação dos Centros de Informação em Saúde e Clima, cujo primeiro modelo foi inaugurado na Bahia em junho. A estratégia se estende ainda ao setor energético, com a expansão da geração renovável e das linhas de transmissão, e à segurança hídrica, especialmente no Nordeste.
DESMATAMENTO – Dados oficiais mostram uma trajetória de queda nos índices de desmatamento da Amazônia e do Cerrado desde o início do atual governo. O desmatamento foi reduzido em 50% na Amazônia, 32,5% no Cerrado e 63% no Pantanal.
A atuação no combate aos incêndios também ganhou escala. Ibama e ICMBio foram fortalecidos, e o governo chegou a 4,4 mil brigadistas federais mobilizados em 2026 nos cinco biomas, um aumento de 40% em relação a 2022.
Diferentes operações do Fundo Amazônia, paralisado durante a gestão de Jair Bolsonaro, destinaram recursos para prevenção e combate a incêndios, fiscalização e reaparelhamento de órgãos ambientais, além de investimentos em equipamentos, veículos e bases.
No plano internacional, finalizou Lula, a retomada da política ambiental também recolocou o Brasil no centro das negociações climáticas. O país sediou a COP30, em Belém, em novembro de 2025, e assumiu papel de liderança nas discussões sobre financiamento para a proteção das florestas e implementação das metas climáticas. “Governar o Brasil não é para aventureiros”, concluiu o presidente.