Lula fala de hip hop, escola e periferia e diz que sem cultura não há nação
No Desce a Letra Show, presidente aborda formação de jovens, direitos dos artistas e políticas de acesso e incentivo ao setor
Um canta, outro dança. Tem batida, tem rima, grafite no muro, palavra no fone. Mais um se junta, a roda se forma. É dessa convivência que Lula fala quando diz que “o ser humano nasceu para viver em comunidade”. Para o presidente, cultura nasce do encontro, da expressão, da comunhão, e precisa ter espaço na escola, na periferia e onde a vida acontece. Na manhã desta quarta-feira (16/09), durante entrevista para o canal do YouTube e podcast Desce a Letra Show, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou da cultura como parte da formação dos jovens, da vida em comunidade e do direito de criar e viver da própria arte.
Ao defender a escola em tempo integral, Lula citou diferentes ritmos para explicar o espaço que a cultura pode ocupar na formação dos estudantes. “A molecada tem que aprender sobre rap, sobre hip hop, sobre funk, sobre samba, sobre bolero, sobre o que ele quiser aprender”, afirmou. Para o presidente, ficar mais tempo na escola significa ter oportunidade de conhecer um mundo que não termina nas disciplinas tradicionais. “Além das aulas normais, você vai ter tempo de abrir a cabeça da meninada para o mundo cultural”, disse.
“Qual é o ser humano que nós queremos criar? É um ser humano raivoso, é um ser humano brigando, ou você quer um ser humano que aprenda a viver em harmonia, a respeitar as pessoas, a conviver democraticamente na diversidade?”
Presidente Lula
HIP HOP – Neste ano, o Ministério da Educação incluiu o hip hop como instrumento didático-pedagógico. O Programa Escola do Hip Hop prevê R$ 50 milhões para apoiar iniciativas em escolas públicas em 2026 e 2027, aproximando da educação linguagens como rap, break, DJ e grafite. Lula quer uma lei para tornar a iniciativa permanente e tratou o investimento inicial como experiência capaz de mostrar o que pode ser feito ao aproximar educação e cultura.
Em junho deste ano, outra iniciativa chegou diretamente às periferias. O Prêmio Nacional Vozes Periféricas beneficiou 100 coletivos culturais que atuam com batalhas de rima, slams e saraus em diferentes regiões do país. Mas a conversa não ficou apenas na música ou dança. Lula relacionou essa formação ao respeito às diferenças, à igualdade entre homens e mulheres e à própria capacidade de conviver. “Qual é o ser humano que queremos criar? É um ser humano raivoso, brigando, ou um ser humano que aprenda a viver em harmonia, a respeitar as pessoas, a conviver democraticamente na diversidade?”, questionou.
CULTURA MAIS PERTO – Um dos apresentadores contou que cresceu frequentando um Centro Educacional Unificado (CEU), onde teve acesso a teatro, pintura, piscina e pista de skate. Lula lembrou uma visita a um desses centros em São Paulo, durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura. “Você está colocando o pobre numa escola que tem piscina, que tem teatro, que tem quadra, que tem computador para todas as crianças”, recordou, como referência de qualidade. O presidente também relembrou um encontro com o movimento hip hop em Belo Horizonte, quando defendeu que jovens das periferias ocupassem espaços de decisão.
Essa presença da cultura nos territórios ganhou escala durante a gestão de Lula. Os Pontos de Cultura passaram de cerca de 4,3 mil em 2022 para 16,8 mil em 2025. Em agosto deste ano, a Rede Cultura Viva somava 16.817 Pontos e 892 Pontões de Cultura. Entre as áreas de atuação declaradas, são 4.957 registros em Cultura e Educação, 2.617 em Cultura e Juventude, 3.308 em culturas populares, 3.060 em conhecimentos tradicionais e 1.862 em culturas de matriz africana. Uma mesma iniciativa pode atuar em mais de uma frente.
RECURSOS – Também cresceram os recursos. A Política Nacional Aldir Blanc, permanente desde 2025, já repassou quase R$ 6 bilhões a estados e municípios. O Fundo Nacional da Cultura e o Fundo Setorial do Audiovisual somam R$ 18 bilhões em investimentos, enquanto a Lei Rouanet captou R$ 10 bilhões desde 2023. Rouanet Norte, Nordeste, nas Favelas e Juventude destinaram ainda R$ 85 milhões a 309 projetos voltados a regiões e públicos historicamente menos atendidos. Pelo Novo PAC, estão em implantação 225 novos CEUs da Cultura e 121 MovCEUs, ampliando os espaços culturais nos territórios. É cultura acontecendo onde a vida acontece. “Sem cultura não tem nação. Uma das caras de uma nação é a cultura do povo”, resumiu Lula.
SUSTENTO – Ao ser questionado sobre inteligência artificial, plataformas digitais, royalties e os impactos das novas tecnologias sobre músicos, ilustradores e outros criadores, Lula defendeu a proteção dos direitos dos artistas. “Os artistas vão ser respeitados no seu direito. Não pode fazer com que o artista fique pobre porque a internet toma conta das músicas dele e das plataformas”. A discussão colocou trabalho e renda no mesmo fio que começou na escola. Fazer a cultura chegar a mais gente é uma parte do caminho. Garantir condições para que quem cria possa viver da própria arte é outra. O acesso também avançou pela tela. O Tela Brasil, plataforma pública e gratuita de streaming, oferece mais de 500 obras nacionais e reúne 269 mil usuários.
PRÓXIMOS 4 ANOS – Além dos temas abordados no Desce a Letra Show, as propostas apresentadas por Lula para um próximo mandato incluem novas ações de acesso, formação, financiamento e geração de renda na cultura. Uma delas é o Programa Brasil Criativo, com linhas de crédito subsidiado para fortalecer o setor cultural. Na formação profissional, a proposta é criar a maior plataforma de cursos profissionalizantes na área de Cultura da América Latina.
Para ampliar o acesso ao cinema nacional, o plano prevê consolidar a plataforma Tela Brasil e apoiar cineclubes e salas de exibição nas escolas públicas. Já a Fábrica de Bibliotecas prevê bibliotecas nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida e pelo menos uma biblioteca pública em cada município brasileiro. Também está prevista a implementação dos CRIAs, novos equipamentos voltados a ampliar oportunidades e contribuir para a geração de renda digna na cultura.