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Lula em palanque cumprimentando o público no gramado do estádio Primeiro de Maio.
Fotógrafo: Ricardo Stuckert

Desenvolvimento Social • Agosto de 2026 • 6 min de leitura

Na Vila Euclides, as histórias que dão impulso ao futuro

Lula abre oficialmente a campanha cercado por eleitores de ontem e de hoje e aponta educação, segurança e soberania como caminhos para o Brasil avançar

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Às 10h47 deste domingo (16), Luiz Inácio Lula da Silva entrou no palco montado no Estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Caminhou pelo palanque, apertou as mãos de quem se espremia nas bordas e foi recebido pelo coro emocionado que o acompanha há décadas: “Olê, olê, olá, Lula, Lula”. Nas arquibancadas, os lugares já estavam tomados. No gramado, a multidão se espalhava. Cerca de 40 mil pessoas participaram do ato que marcou oficialmente o início da campanha eleitoral.

O endereço escolhido para a largada ajuda a contar a história. Foi ali, no fim dos anos 1970, que milhares de trabalhadores se reuniram em assembleias que atravessaram os limites do ABC paulista e entraram para a história política brasileira. Quase meio século depois, Lula voltou à Vila Euclides para um retorno às origens. Mas não para ficar nelas.

Ao longo do discurso, Lula usou o passado como ponto de partida para falar do que pretende fazer daqui para a frente. Defendeu que o Brasil precisa dar um novo salto de qualidade na educação e na segurança pública e tratou da soberania nacional sobre minerais críticos e terras raras, recursos estratégicos para o futuro. Em outro momento, convocou a militância a colocar governos e resultados lado a lado, comparar indicadores e levar esse debate para as ruas.

Na Vila Euclides, passado, presente e futuro estavam misturados também fora do palco. Bastava caminhar pelo estádio. Karina Gonçalves, filha de metalúrgico ativo no sindicato na década de 1970, está prestes a se casar com outro metalúrgico, também ligado ao sindicato.

Ela integrou, em 2004, a primeira turma de beneficiários do Programa Universidade para Todos, o ProUni. “Graças a isso eu consegui fazer faculdade de publicidade. Se não fosse essa bolsa, eu não teria condições naquele momento. Sempre que alguém me pergunta, eu falo com muito orgulho da minha bolsa, apesar de já fazer muito tempo”, contou. “Eu apoio as iniciativas do Lula. Acho que ele governa para o povo.”

Para Manoel Inácio da Silva, a linha do tempo é ainda mais longa. Metalúrgico aposentado e antigo operador de máquinas, ele olha para o estádio e não precisa imaginar como eram as grandes assembleias. “Em 79 eu estava aqui. E todas as vezes que o Lula estava aqui, eu estava junto”, recordou.

Naquele tempo, Manoel ia acompanhado da filha, de apenas três anos. Décadas depois, voltou ao mesmo lugar para assistir a Lula iniciar outra campanha presidencial. Para ele, a continuidade do atual governo significa preservar conquistas e proteger a democracia. “É continuar e fazer o melhor para o país e para o povo. Eu acho significativo.”

Isabel Pérez também estava na Vila Euclides quando o local estava se transformando em símbolo de luta. Com quase 90 anos, ela lembra das mobilizações que antecederam as grandes assembleias e que desencadearam o ciclo de greves do ABC. “Eu tinha um grupo de base no Parque Bristol e nós estávamos aqui junto com o Lula desde os 34,1%”, disse, fazendo referência à recomposição salarial pedida pelos trabalhadores, diante da inflação.

Professora e aposentada após uma trajetória ligada aos Direitos Humanos na Região Episcopal Ipiranga, Isabel diz conhecer Lula desde os tempos da Vila Carioca e ter acompanhado sua trajetória. “Para mim é fundamental estar aqui. Eu não sei se vou ter outros atos pela frente com a minha idade, já chegando aos 90. É uma emoção muito grande. Não paro de chorar desde que cheguei.”

Para parte do público, o ato era a abertura de uma campanha. Para Isabel, era também a oportunidade de reencontrar uma história da qual ela participou. “Eu sempre admirei a capacidade do Lula de entender e traduzir as pessoas. Ele fez muito pelos trabalhadores naquela época e até hoje pelo Brasil.”

Karina, Manoel e Isabel reencontram o passado na Vila Euclides com esperança no futuro. Fotos: Paula Carvalho
Karina, Manoel e Isabel: histórias interligadas pela luta sindical e as políticas públicas do Lula metalúrgico ao presidente. Fotos: Paula Carvalho

Carregar nos braços – Edilene Arjoni, presidenta do Sinpro ABC, chegou ao ato acompanhada por uma memória que não era exatamente sua, mas que cresceu ouvindo. Em 1979, o pai metalúrgico estava naquele mesmo estádio. “Meu pai estava nesse lugar, levantando a mão e tentando pegar Lula nos braços”, lembrou.

Quase cinco décadas depois, ela voltou. Desta vez, como professora e dirigente sindical. “Hoje o legado do meu pai também está aqui, porque nós estamos todos aqui para carregar Lula nos braços.” Para Edilene, a escolha da Vila Euclides ganha ainda outro significado quando o tema é educação. “Lula foi o presidente que percebeu que a educação é a base para um país mais sólido. Agora ele fará ainda mais nesse sentido.”

Do petróleo às terras raras – Sandra veio de mais longe. Representante sindical ligada aos petroleiros do Paraná e de Santa Catarina, chegou à Vila Euclides levando uma bandeira que também atravessou o discurso de Lula: soberania. “Hoje a gente está na luta porque o nosso petróleo tem que permanecer nosso”, afirmou.

No palco, Lula levou a discussão para os desafios deste século. Ao falar de minerais críticos e terras raras, defendeu que o Brasil não pode simplesmente abrir mão de riquezas estratégicas do subsolo e precisa transformar esses recursos em conhecimento, indústria, tecnologia, empregos e desenvolvimento dentro do próprio país.

A luta dos trabalhadores que atravessa estados e o tempo. Fotos: Paula Carvalho
A luta dos trabalhadores que atravessa o tempo e fronteiras com Edilene (à esq.) e Sandra. Fotos: Paula Carvalho

Comparar para escolher o caminho – Em vídeo transmitido no evento e divulgado nas redes, o presidente de hoje conversa simbolicamente com versões de si mesmo em outros momentos da própria trajetória. O recurso coloca no centro a pergunta: o que mudou desde aquele metalúrgico que discursava para trabalhadores no ABC e o que ainda falta mudar?  É também a pergunta que ajuda a entender a escolha do cenário para a largada.

Voltar à Vila Euclides não significa repetir 1979. O Brasil de 2026 é outro. O metalúrgico virou presidente três vezes. Mas algumas pessoas que estavam no começo da caminhada, permanecem. Manoel voltou. Isabel voltou. A filha de um metalúrgico chegou à universidade e voltou. A filha de outro metalúrgico tornou-se professora e voltou. Sandra atravessou estados para chegar. E, às 10h47, Lula também voltou.

Essa é a força simbólica da Vila Euclides. Antes de seguir adiante, Lula retorna ao lugar onde tudo começou. Não para transformar o passado em destino, mas para usá-lo como impulso.

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