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Economia • Setembro de 2026 • 5 min de leitura

Relatos de endividados dão rosto ao problema das bets 

Narrativas de apostadores, dados do SUS, pesquisas e manifestações de Lula e especialistas expõem os impactos sociais e econômicos da expansão das plataformas de apostas online

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Os números sobre endividamento provocado pelas bets ganham dimensão concreta quando contados por quem vive. Em vídeos publicados nas redes sociais do presidente Lula, brasileiros relatam perdas financeiras, empréstimos, dívidas com bancos, amigos e familiares e a dificuldade de interromper um ciclo em que novas apostas são feitas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido. 

Um dos relatos chama atenção pelo volume. O rapaz conta que realizou 26 mil apostas em três meses e meio e fez cerca de 1,1 mil transferências bancárias no período. Perdeu cerca de R$ 1,5 milhão. Outra pessoa acabou apostando R$ 30 mil em um único dia e chegou a acumular R$ 700 mil em dívidas com agiotas, bancos e pessoas próximas. “Quanto mais eu perdia, mais tentava recuperar e quanto mais tentava recuperar, mais perdia”. 

Uma senhora carrega um porta-retrato com a foto do filho que tirou a própria vida por dívidas de jogo e lamenta não ter sido capaz de antecipar o tamanho do problema. Uma delas alerta. “Se você nunca jogou, não jogue, não entre. E se joga, pare, porque isso acaba com a vida de qualquer pessoa”. 

Os relatos ajudam a dar dimensão humana ao tema que Lula vem levando em seus discursos e reuniões. Na sexta-feira (18), durante ato de campanha em Guarulhos (SP), o presidente voltou a relacionar as apostas ao endividamento e ao comportamento compulsivo. No dia seguinte, em Florianópolis (SC), Lula retomou o assunto e foi além ao falar sobre o impacto das dívidas de jogo dentro das famílias. “Quando a pessoa está endividada com dívida de jogo, as pessoas mentem, mulher mente para o marido, marido mente para a mulher, filho e filha mentem para a mãe e para o pai”, disse.

IMPACTOS – A discussão, contudo, não se restringe aos atos de campanha. Em 1º de setembro, Lula reuniu no Palácio do Planalto representantes de diferentes setores para ouvir os impactos das apostas sobre saúde, famílias, economia e cultura. Na ocasião, afirmou que queria avaliar todos os efeitos antes de definir os próximos passos do governo. 

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, detalhou a pressão crescente sobre o SUS para atender pessoas com dependência em apostas. Segundo ele, o governo havia projetado inicialmente 600 atendimentos mensais, mas a demanda já chegou a 100 mil por mês. Embora os homens sejam maioria entre os apostadores, 55% das pessoas que procuram atendimento são mulheres.

Padilha afirmou ainda que uma proposta de resolução sobre os impactos das apostas está em discussão na Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma iniciativa liderada por Brasil, Espanha e Canadá. O ministro também explicou que o SUS Digital pode ser utilizado para solicitar atendimento e iniciar um plano terapêutico para dependência em apostas. “A gente tentou regular, tentou proibir. Proibir 60 mil bets clandestinas não é fácil. Envolve muita gente, artistas famosos fazendo propaganda. Na Copa do Mundo não estavam transmitindo jogo, estavam fazendo apelo para o cara jogar”, argumentou.

DRENO – Entre os participantes estava o rapper Emicida, que levou ao encontro outra dimensão do problema: o impacto das apostas sobre setores que dependem do consumo popular. “Esse setor é um dreno de dinheiro”, disse. De acordo com ele, recursos que antes eram usados para comprar ingressos, camisetas e discos agora estão sendo redirecionados para as plataformas de apostas.

Emicida também chamou atenção para efeitos que podem aparecer para além das estatísticas. “A gente vai descobrir que as pessoas não estão conseguindo dormir. A gente vai descobrir que as famílias estão se endividando por outras frentes para tapar um buraco”, disse. O rapper defendeu uma atuação conjunta do Estado e da sociedade para enfrentar o problema e afirmou que seria necessário caminhar em uma direção mais restritiva.

JOVENS MAIS VULNERÁVEIS – Uma reportagem da Carta Capital neste domingo mostra que a discussão é particularmente importante entre o público mais jovem. Especialistas afirmam que a facilidade de acesso às plataformas pelo celular amplia a exposição de jovens às bets. 

Dados Unicef indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade. O número chega a 78% a partir de 12 anos. Os dados, de 2021, continuam atuais. Uma pesquisa deste ano feita no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação mostra que, entre 1.912 estudantes dos ensinos médio e fundamental, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos entrevistados no 3º ano do ensino médio fizeram apostas. 

REGULAMENTAÇÃO – O governo já adotou medidas para regulamentar o setor e ampliar a fiscalização. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar. A regulamentação estabeleceu regras para autorização, fiscalização, tributação, publicidade e proteção dos apostadores. Em julho deste ano, o governo ampliou as exigências para a publicidade das apostas, com advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”.

O avanço da regulamentação, porém, não encerrou a discussão sobre os efeitos. Ao contrário, o governo passou a discutir medidas adicionais diante do impacto das apostas sobre o endividamento e a saúde da população. A pressão também envolve a ampla presença das bets na publicidade, no futebol, na comunicação e nas redes sociais.

Em Florianópolis, Lula voltou a afirmar que pretende avançar contra esse modelo. “Eu estou determinado. Não vou permitir que as pessoas continuem se endividando, que as pessoas continuem se matando. Não é possível a gente permitir que a sociedade brasileira se autodestrua”, afirmou.

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