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João Paulo aponta para o centro do estádio da Vila Euclides, lembrando dos tempos das grandes assembleias nos anos 1970
Fotógrafo: Paula Carvalho

Notícias • Agosto de 2026 • 5 min de leitura

Onde tudo começou: a história retorna à Vila Euclides

O presidente Lula lança oficialmente neste domingo (16) a campanha pela reeleição no estádio da Vila Euclides, palco das grandes mobilizações dos anos 1970

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João Paulo Oliveira olha para a arquibancada e, por alguns segundos, o Estádio Primeiro de Maio deixa de estar em 2026. Ele está novamente no meio de milhares de operários. O estádio está tomado. Há braços levantados, vozes, palavras de ordem. Gente sentada onde dá, em pé, ouvindo atentamente aquele metalúrgico que aprendeu a falar a língua do chão de fábrica. João Paulo se vê mais jovem, inquieto, andando de um lado para o outro, conversando com os companheiros.

A lembrança é tão viva que chega primeiro ao corpo. “Você sabe aquele negócio quando leva um susto e arrepia? Eu estou sentindo isso aqui”, conta.

Neste domingo, 16 de agosto, décadas depois das assembleias históricas que fizeram da Vila Euclides um dos símbolos da luta dos trabalhadores e da redemocratização brasileira, João Paulo está outra vez no mesmo estádio. E não está sozinho. O presidente Lula retorna ao lugar onde sua trajetória política ganhou dimensão nacional para o evento “Onde Tudo Começou”, que marca o início de sua última campanha presidencial.

“Você sabe aquele negócio quando leva um susto e arrepia? Eu estou sentindo isso aqui”

João Paulo Oliveira

Antes mesmo do ato principal, em meio aos últimos preparativos para o evento, o presidente Lula apareceu de surpresa no estádio. Circulou, acompanhou de perto a montagem da estrutura e posou para foto com trabalhadores e equipes que atravessaram a noite preparando a Vila Euclides. Um aperitivo para o reencontro antecipado com um lugar que atravessa sua própria história.

O presidente Lula foi conferir os preparativos na véspera do evento e conversou com trabalhadores. Foto: Ricardo Stuckert

João Paulo também estava ali nesta véspera. Militante do PT e integrante da diretoria da Associação dos Metalúrgicos Anistiados e Anistiandos do ABC (AMA-A ABC), ele foi segundo-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos em 1981 e acompanhou de dentro das fábricas e das assembleias a construção do movimento que transformou o ABC.

Voltar mexe com uma memória que ele tenta, sem sucesso, manter sob controle. “É uma emoção grande. Quem estava aqui naquele momento e voltar, vai chorar. Eu estou me segurando”, diz. E brinca: “Eu não sou chorão. Lula é chorão, eu não. Não sei explicar o que se passa.”

“Foi aqui que tudo começou. Quase 50 anos se passaram, muita coisa mudou, mas a classe trabalhadora continua sendo combustível e inspiração para construir um Brasil que está pronto para mais”

presidente Lula

O INÍCIO – Para João, contar a história da Vila Euclides exige voltar anos antes das imagens que ficaram conhecidas em todo o país. Antes de o estádio ficar pequeno para tantos trabalhadores, a indignação já percorria as linhas de produção. Ele aponta 1977 como momento decisivo. Foi quando os trabalhadores descobriram perdas salariais provocadas pela manipulação dos índices de inflação e passaram a reivindicar a reposição de 34,1%.

“Para mim, essa história tem início ali. Começou a discussão, começou a reunir a categoria, fazer assembleias nas fábricas, conversar com os trabalhadores, mostrar essa diferença. Isso começou a ferver, começou a esquentar.”

A mobilização cresceu. Em 1978, uma delegação de metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema seguiu em ônibus para o Rio de Janeiro para participar de um congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI). É de lá que João Paulo guarda uma das lembranças que ajudam a explicar como a liderança de Lula começava a ultrapassar as fronteiras do ABC.

João Paulo não tem dúvidas de que o evento deste domingo terá grande carga emocional e histórica. Foto: Paula Carvalho

MINUTOS MULTIPLICADOS – Cada delegado tinha direito a três minutos de fala. Lula se inscreveu. Os outros metalúrgicos perceberam a oportunidade e fizeram uma articulação rápida. “Eu cedo meus três minutos ao companheiro Lula”, disse um. O seguinte repetiu. Depois outro. E outro. Os três minutos se multiplicaram.

“Quando o Lula estava falando havia aproximadamente uma hora, já estava toda a imprensa, inclusive internacional, fotografando. A gente aproveitou o momento para fazer a denúncia e apresentar as reivindicações dos trabalhadores”, recorda. Quando houve uma tentativa de encerrar a fala, os trabalhadores ocuparam o palco. “O Lula continuou falando pelo tempo que foi necessário. E pronto: demos o nosso recado.”

CUIDADO – Era um período em que organização sindical e política exigia cuidado. “Qualquer respiração que tínhamos dentro da fábrica tinha alguém atrás da gente”, lembra. Foi naquele ambiente que ele viu Lula construir uma forma diferente de fazer sindicalismo. Em vez de esperar o trabalhador chegar à sede, era preciso levar o sindicato a ele. E, no chão de fábrica, havia algo que diferenciava Lula. “Ele era uma pessoa fora do padrão.”

João Paulo lembra de reuniões em que Lula apresentava uma proposta, perdia a votação dentro da diretoria e, ainda assim, assumia imediatamente a decisão coletiva. Depois, quando chegava a hora de conversar com os trabalhadores, conseguia explicar aquela decisão melhor do que quem havia originalmente defendido a ideia.

“Ele conseguia captar. Entender a linguagem do peão. Falava a linguagem do peão. Lula fala a língua do povo. Entende as necessidades do povo”, diz. “É o dom dele, gente. É o dom dele, não tem jeito.” João Paulo faz questão de lembrar que nenhuma liderança se constrói sozinha. “Ele tinha naquele momento 140 mil trabalhadores atrás dele.” Muitos estiveram neste mesmo estádio. É essa longa estrada que desemboca na Vila Euclides neste domingo.

CAMPANHA – João Paulo diz que, anos atrás, não imaginava a possibilidade de Lula disputar um quarto mandato. Hoje, vê a nova candidatura também pela lente de quem viveu uma ditadura e considera fundamental preservar a democracia e os direitos conquistados desde então.

“Os trabalhadores brasileiros, em especial aqui do ABC, confiam muito nele. E ele sabe que aqui tem respaldo, apoio. Vai continuar com o meu apoio.” E completa com a cobrança legítima de quem tem raiz sindical: “Que não traia os nossos interesses. Que não traia os interesses da classe trabalhadora.”

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