Dark Horse e Vorcaro: a página que Flávio Bolsonaro quer virar sem mostrar as contas
Candidato diz que o caso está encerrado, mas não apresenta a prestação de contas que prometeu há quase 100 dias. PF avança na investigação e cobra informações da Ancine sobre origem e destino dos recursos do filme
Para Flávio Bolsonaro, Dark Horse é “página virada”. Para a Polícia Federal, aparentemente, ainda há páginas a serem abertas na relação entre o filme e os recursos do banqueiro Daniel Vorcaro. Para o eleitor brasileiro permanece a pergunta: onde está a prestação de contas prometida pelo próprio candidato há quase cem dias?
Mais de três meses depois de dizer que tornaria públicos os detalhes financeiros da produção cinematográfica sobre seu pai, Jair Bolsonaro, Flávio não apresentou o relatório prometido. Na última quinta-feira (20/08), ao ser novamente questionado sobre o assunto durante agenda em São Paulo, preferiu declarar o episódio encerrado e afirmou que “estava tudo certinho”. Mas dizer que as contas estão certas não é o mesmo que mostrá-las.
As dúvidas ganharam nova dimensão nos últimos dias. A Polícia Federal solicitou dia 18 de agosto, à Agência Nacional do Cinema (Ancine), informações sobre Dark Horse e deu prazo de dez dias para o envio de dados sobre o registro do longa, os responsáveis pela produção, eventuais processos administrativos e a existência de incentivos fiscais, recursos públicos federais ou outros benefícios relacionados ao financiamento. A investigação também alcança a origem e a destinação dos recursos ligados ao Banco Master.
A movimentação da PF ocorre depois de uma sequência de revelações jornalísticas sobre os bastidores financeiros do filme. Reportagens do Intercept Brasil revelaram mensagens, documentos bancários e planilhas relacionados à negociação de recursos para a produção.
Segundo o veículo, Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, um financiamento de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões à época, para o projeto. Desse montante, ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.
Documentos analisados pelo Intercept indicaram ainda que parte dos valores negociados foi transferida para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal apura se recursos relacionados ao projeto teriam sido usados para custear despesas de Eduardo nos Estados Unidos. Eduardo nega ter recebido dinheiro negociado para o filme.
Outro documento apresentado pela produtora brasileira declarou gastos de aproximadamente R$ 75 milhões na produção. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, porém, o laudo privado apresentado no âmbito da investigação não detalhava financiadores nem trazia as notas fiscais emitidas pelos fornecedores. É justamente aí que a história deixa de ser apenas sobre cinema.
PROMESSA SEM RESPOSTA – Em 19 de maio, diante da repercussão das primeiras revelações, Flávio Bolsonaro anunciou que havia solicitado à produtora responsável pelo longa uma prestação de contas transparente. Também afirmou estar disposto a tornar público o contrato relacionado ao financiamento. O prazo passou. Maio virou junho, julho, agosto… O documento detalhado prometido pelo candidato não apareceu publicamente.
Agora, Flávio afirma que a prestação de contas já foi feita e que o caso é “página virada”. Mas permanecem sem resposta pública questões básicas sobre uma operação que movimentou dezenas de milhões e envolveu diretamente o candidato à Presidência.
SE ESTÁ CERTO, POR QUE NÃO MOSTRAR – A pergunta ganha ainda mais peso porque as reportagens do Intercept apontam que o financiamento não teria sido uma operação periférica. Mensagens obtidas pelo veículo mostram que, em janeiro de 2025, mesmo diante de outros compromissos financeiros milionários, Vorcaro tratava os pagamentos relacionados ao projeto como prioridade.
Também foram revelados comprovantes e uma planilha com previsão de transferências. Entre os documentos está uma ordem de pagamento de US$ 2 milhões para o fundo Havengate, nos Estados Unidos.
PERGUNTAS SOBRE A MESA – O caso Dark Horse não precisa de versões. Precisa de documentos. Quanto custou efetivamente o filme? Quem colocou cada parcela do dinheiro? Quanto Daniel Vorcaro transferiu? Qual foi o caminho percorrido pelos recursos entre o Brasil e os Estados Unidos? Por que parte deles chegou a um fundo administrado por pessoas ligadas a Eduardo Bolsonaro? Qual foi a participação de Flávio Bolsonaro na negociação? Houveuso dos recursos fora da produção cinematográfica? E onde estão os contratos, notas, comprovantes e demais documentos da prestação de contas prometida?
São perguntas que não desapareceram porque um candidato decidiu declarar o assunto encerrado. Ao contrário. Enquanto Flávio tenta virar a página, a Polícia Federal continua lendo. E, em uma disputa pela Presidência da República, a transparência não pode ser opcional. Quem pede o voto dos brasileiros precisa estar disposto a responder às perguntas dos brasileiros, principalmente quando foi o próprio candidato quem prometeu apresentar as respostas. Dark Horse pode até ser o título de um filme. Mas R$ 61 milhões não podem virar ficção.