Do “nunca tive contato” ao “pergunta para a produtora”: as oito versões de Flávio sobre Vorcaro
Desde março, candidato da extrema direita negou ter contato com o banqueiro, rejeitou ter negociado o financiamento de Dark Horse e afirmou que os pagamentos haviam terminado em maio. Novos documentos contradizem todas as afirmações
“Tem que perguntar para a produtora!”, esse é o mantra repetido por Flávio Bolsonaro a cada pergunta feita sobre a sua relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. A cada nova revelação sobre o caso Dark Horse, a versão apresentada pelo candidato da extrema direita muda de forma, e a conta já ficou difícil de acompanhar.
A mais recente veio nesta terça-feira (1º/09), com um relatório inédito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtido pela revista Piauí. O documento mostra que Vorcaro transferiu mais US$ 1,6 milhão, em 16 de setembro de 2025, para o Havengate Development Fund, fundo que administra os recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro.
O problema é a data. Flávio disse que maio de 2025 foi o último mês de repasse de Vorcaro para a produção do filme. No entanto, o Coaf identificou nova transferência em setembro, ou seja, quatro meses depois. Questionado pela imprensa sobre a revelação, hoje, no Senado Federal, o candidato da extrema direita resumiu em dizer: “Pergunta para a produtora!”. Ele repetiu a mensagem seis vezes em 1 minuto e 30 segundos de questionamento.
O repasse ocorreu apenas oito dias depois de o próprio Flávio cobrar do banqueiro parcelas atrasadas do filme. Com a nova transferência, o total comprovadamente enviado por Vorcaro para a produção sobe de US$ 10, 6 milhões para US$ 12,3 milhões, mais de R$ 65 milhões na cotação da época.
E pode haver mais. Mensagens obtidas pela Piauí mostram que, em 22 de outubro de 2025, o publicitário Thiago Miranda perguntou a Vorcaro sobre novas liberações para o filme. A resposta foi: “Liberei mais uma hoje”. Se a operação for confirmada, os repasses chegam a cerca de US$ 14 milhões, ou R$ 72 milhões.
A nova informação desmonta mais uma parte da narrativa apresentada por Flávio. Procurado para explicar por que os registros financeiros contradizem sua declaração sobre o fim dos pagamentos, o senador respondeu que a questão deveria ser tratada com a produtora. “Isso não é com a gente”, disse o candidato.
A explicação, porém, contrasta novamente com o próprio histórico do caso. Foi Flávio quem negociou o financiamento com Vorcaro, cobrou parcelas atrasadas e acompanhou a liberação dos recursos.
A reportagem também contradiz outras duas afirmações feitas por Flávio. O candidato disse que o Havengate Development Fund era fiscalizado pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, e que o fundo havia sido encerrado depois que vieram a público as suspeitas envolvendo o Banco Master. Registros do estado do Texas mostram que as duas informações são falsas. O fundo não era regulado pela SEC e permanece ativo.
Não é, portanto, a primeira vez que uma declaração de Flávio sobre Vorcaro perde sustentação diante de documentos, mensagens ou fatos posteriores. Desde março, o candidato vem apresentando versões diferentes sobre o banqueiro, o financiamento de Dark Horse, a proximidade entre os dois e até o destino dos recursos.
A conta, até aqui, chega a pelo menos oito versões contraditórias.
O placar das versões de Flávio sobre Vorcaro
- “Nunca tive contato com Vorcaro”
Em 16 de março, Flávio disse à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que nunca havia tido contato com Daniel Vorcaro, depois que o número de telefone do senador apareceu na agenda do banqueiro.
Dois meses depois, a própria versão mudou. Após a divulgação das mensagens entre os dois, Flávio admitiu que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024.
- “É mentira, de onde você tirou isso?”
Em 13 de maio, horas antes de o Intercept Brasil publicar mensagens e áudios que mostravam Flávio negociando o financiamento de Dark Horse com Vorcaro, o senador negou que o banqueiro tivesse financiado o filme.
“É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus”, disse ao ser questionado.
Com a publicação das conversas, a versão mudou. Flávio reconheceu que havia procurado Vorcaro para conseguir “patrocínio privado” para o filme sobre o pai. O acordo previa R$ 134 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões haviam sido efetivamente repassados.
- “Não tinha contato”, mas cobrava milhões e tratava Vorcaro como “irmão”
Depois de admitir a negociação, Flávio tentou reduzir a proximidade com o banqueiro. Em entrevista à GloboNews, afirmou que expressões como “irmão” e “irmãozinho” faziam parte de seu jeito de falar e não indicavam intimidade.
As mensagens, porém, mostram Flávio cobrando pessoalmente parcelas atrasadas do financiamento e dizendo a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”. Em outra conversa, o senador chegou a convidar o banqueiro para um jantar com integrantes do elenco do filme.
- “Ninguém imaginava” que Vorcaro pudesse estar envolvido em irregularidades
Ao justificar sua relação com o banqueiro, Flávio afirmou que, quando o conheceu, não havia acusações contra ele e que “ninguém” poderia imaginar que o caso do Banco Master fosse vir à tona.
A afirmação passou a ser questionada à medida que foram revelados registros de que já havia desconfiança no mercado e reportagens sobre operações consideradas atípicas envolvendo o banco antes de o escândalo atingir a dimensão atual.
- Fugindo do caso Master
Antes de admitir sua própria relação financeira com Vorcaro, Flávio passou a usar o escândalo do Banco Master como munição política contra o governo Lula. Em maio, chegou a aparecer em público com uma camiseta com a frase “O Pix é do Bolsonaro e o Master é do Lula”. Também afirmou que o caso estava ligado ao PT e a integrantes do governo.
A estratégia de tentar colocar o banco no campo adversário ganhou outro contorno quando vieram a público os próprios áudios e mensagens em que Flávio negociava milhões de reais com Vorcaro para financiar o filme do pai.
- “Não promovi encontros privados”
Na primeira versão apresentada depois da revelação das mensagens, Flávio afirmou que não havia promovido encontros privados fora da agenda e que sua relação com Vorcaro havia sido estritamente ligada ao financiamento do filme.
Em maio, porém, ele precisou admitir, somente depois da prisão do banqueiro, que havia se encontrado pessoalmente com Vorcaro, que no dia da visita já estava sob monitoramento eletrônico. A justificativa apresentada foi que o encontro serviria para “botar um ponto final nessa história”.
- “O dinheiro é privado”
Flávio também sustentou repetidamente que os recursos envolvidos no filme eram exclusivamente privados e que não havia dinheiro público na operação. A afirmação passou a ser confrontada pelas investigações que apuram a origem e o destino dos recursos. O rombo causado pelo banco Master ao sistema financeiro inclui desvio de dinheiro de fundos de previdência estaduais e do Banco de Brasília, um banco público.
A Polícia Federal investiga, entre outras hipóteses, se parte do dinheiro enviado ao fundo nos Estados Unidos teve outra destinação além da produção cinematográfica. A produtora, por sua vez, não apresentou até agora uma prestação de contas completa que permita esclarecer integralmente o caminho dos milhões recebidos.
- “O último pagamento foi em maio”
A mais recente versão desmentida pelos documentos é justamente a que deu origem à nova rodada de revelações. Na GloboNews, Flávio afirmou que o último pagamento de Vorcaro para Dark Horse havia ocorrido em maio de 2025, meses antes de as suspeitas sobre o Banco Master ganharem o atual alcance.
O relatório do Coaf mostra, porém, uma transferência de US$ 1,6 milhão em setembro, oito dias depois de Flávio cobrar Vorcaro por parcelas atrasadas. E mensagens de outubro indicam que pode ter havido ainda outro repasse. Ou seja, a cada novo documento, a data do “último pagamento” fica mais distante da versão contada por Flávio.
O que falta explicar
O caso Dark Horse agora está sob investigação do Supremo Tribunal Federal. A Corte autorizou a Polícia Federal a apurar o destino dos recursos relacionados ao filme e o compartilhamento de provas reunidas em outras investigações.
A partir daqui, a questão deixa de ser apenas qual foi a versão apresentada por Flávio Bolsonaro em cada momento. É preciso esclarecer de onde vieram os milhões, por onde passaram e qual foi a destinação do dinheiro negociado com Daniel Vorcaro.
Flávio chegou a prometer transparência sobre o financiamento, mas ainda não apresentou publicamente todos os documentos capazes de responder a essas perguntas. Enquanto os investigadores tentam reconstruir o caminho do dinheiro, as versões de Flávio continuam mudando. E, a cada novo documento, uma nova contradição aparece. A falta de respostas virou um: “Pergunta para a produtora!”.