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Fotógrafo: Pxhere

Economia • Setembro de 2026 • 4 min de leitura

Flávio critica “dúzia de dez”, mas redução de embalagens ganhou força e virou problema com Bolsonaro

Na gestão anterior, inflação trafegou em dois dígitos, renda domiciliar caiu ao menor nível da série histórica e a mudança de tamanho de produtos levou o próprio governo a criar regras para informar consumidores

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A dúzia de dez, a caixa que antes trazia mais unidades, o pacote de biscoito que encolheu e o produto que perdeu alguns gramas sem que o preço diminuísse na mesma proporção. A chamada “reduflação” entrou no discurso de Flávio Bolsonaro na abertura do horário eleitoral gratuito como símbolo da perda do poder de compra do brasileiro. 

O que ele esqueceu de incluir na narrativa é que o fenômeno ganhou força e materialidade nas prateleiras brasileiras durante o governo de Jair Bolsonaro, em meio à escalada da inflação de alimentos (56% na gestão anterior) e à queda da renda das famílias.

Os dados oficiais ajudam a reconstruir essa história. Em 2020, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou em 4,52%, Alimentação e bebidas disparou 14,09%. Produtos básicos tiveram aumentos ainda maiores: o óleo de soja subiu 103,79%; o arroz, 76,01%; o leite longa vida, 26,93%; e as carnes, 17,97%.

No ano seguinte, a inflação chegou a 10,06%, maior resultado anual desde 2015 e quase o dobro do teto da meta, de 5,25%. A gasolina encerrou 2021 com alta de 47,49% e o gás de botijão, de 36,99%. Na alimentação, o café moído subiu 50,24%, a mandioca, 48,08%, e o açúcar refinado, 47,87%.

Mas não era apenas o produto que rendia menos. A renda do brasileiro encolheu. Em 2021, o rendimento médio mensal real domiciliar por pessoa caiu 6,9%, de R$ 1.454 para R$ 1.353, menor valor de toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012.

A perda foi maior entre os mais pobres. A metade da população de menor renda recebeu, em média, R$ 415 naquele ano, queda de 15%. Entre os 5% de menor renda, a retração chegou a 33,9%. No mesmo período, 62,5 milhões de brasileiros estavam abaixo da linha da pobreza, maior contingente desde o início da série, em 2012.

Foi nesse ambiente de inflação alta e perda de poder de compra que a redução das embalagens ganhou dimensão para provocar uma resposta oficial do próprio governo Bolsonaro. Em setembro de 2021, o Ministério da Justiça e Segurança Pública editou a Portaria nº 392, obrigando fornecedores a informar quando alterassem a quantidade de produtos embalados.

A regra determinou que rótulos informassem a quantidade existente antes e depois da mudança e o percentual de redução ou aumento. O aviso deveria aparecer no painel principal da embalagem, em local de fácil visualização.

A pressão sobre os alimentos continuou no último ano do governo Bolsonaro. Em 2022, embora o IPCA tenha desacelerado para 5,79%, Alimentação e bebidas subiu 11,64% e foi o grupo de maior impacto sobre a inflação. Os alimentos consumidos dentro de casa ficaram 13,23% mais caros.

A cronologia coloca uma contradição no discurso atual de Flávio Bolsonaro. A embalagem menor usada agora como símbolo da perda de poder de compra já era parte do cotidiano dos brasileiros durante o governo de seu pai  e se tornou problema relevante a ponto de exigir regulamentação específica do Ministério da Justiça.

OUTRO PATAMAR – Nos anos seguintes, já sob gestão do presidente Lula, os indicadores de renda e mercado de trabalho passaram a registrar avanços significativos. Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita cresceu 11,6% em 2023, 5% em 2024 e 6,9% em 2025, quando chegou a R$ 2.264, maior da série histórica da PNAD Contínua.

O mercado de trabalho também alcançou marcas inéditas. Em 2025, a taxa média anual de desemprego caiu para 5,6%, a menor desde o início da série, em 2012, e o país chegou a 103 milhões de pessoas ocupadas, outro recorde.

Também foi retomada, em 2023, a política permanente de valorização do salário mínimo, com reajustes que consideram a inflação e o crescimento da economia, dentro das regras fiscais vigentes. O piso passou de R$ 1.320 em maio de 2023 para R$ 1.621 em 2026, com ganho real de 2,5% em 2025 e novamente em 2026. Um ganho real de quase 12% ao longo do período. 

A inflação de alimentos ao longo de todo o governo Lula ficou em 13%, bem abaixo da inflação geral dos quatro anos, em torno de 18% (menor média para um período de quatro anos desde a redemocratização, em 1989, em torno de 4,5% ao ano).

Os números acrescentam outra dimensão ao debate sobre poder de compra. Se a reduflação ganhou força em um período marcado por inflação de dois dígitos e queda da renda, os anos recentes registram renda domiciliar em nível recorde, desemprego na mínima histórica e valorização real do salário mínimo. 

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