No Dia da Amazônia, Lula protege mais 676 mil hectares
Presidente anuncia criação de quatro reservas no Amazonas e amplia parque no Piauí. Medidas combinam preservação, desenvolvimento e geração de renda
“Hoje é o dia do possível.” A frase de Lula resumiu a cerimônia realizada nesta terça-feira (8/9), no Palácio do Planalto, em alusão ao Dia da Amazônia. Uma agenda que ganhou novos hectares de floresta protegida e deu forma a uma ideia defendida pelo presidente para a região, que é crescer sem destruir.
Lula assinou decretos que criam quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no Amazonas e ampliam o Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí. Juntas, as medidas acrescentam cerca de 676 mil hectares de áreas protegidas.
“A palavra impossível só prevalece se nós, seres humanos, formos incapazes de encontrar outro jeito de fazer as coisas”
Luiz Inácio Lula da Silva
A agenda incluiu ainda concessões para manejo sustentável na Floresta Nacional de Humaitá, a ativação dos primeiros Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia e investimentos em conservação e restauração.
Para Lula, a cerimônia mostrou que soluções consideradas incompatíveis podem caber no mesmo projeto de país. “Vocês sabem que eu não acredito na palavra impossível”, afirmou. “A palavra impossível só prevalece se nós, seres humanos, formos incapazes de encontrar outro jeito de fazer as coisas.”
DESENVOLVIMENTO E PRESERVAÇÃO – A BR-319 ajuda a mostrar, na prática, qual é esse “outro jeito”. As quatro novas reservas ficam na área de influência da rodovia, no sul do Amazonas, e somam cerca de 669 mil hectares. São elas Tupana Igapó-Açu I, Tupana Igapó-Açu II, Canaã e Mirari. Além da biodiversidade, as unidades protegem os modos de vida das populações agroextrativistas e permitem o uso sustentável dos recursos naturais pelos moradores.
Lula lembrou que a BR-319 esteve durante anos no centro de uma disputa entre quem defendia a intocabilidade da região e quem queria a obra “de qualquer jeito”. Segundo o presidente, a saída foi encontrar um caminho capaz de conciliar a obra com a proteção ambiental, com presença do Estado, demarcação das áreas que precisam ser preservadas e responsabilidade dos diferentes entes públicos.
“Nós vamos construir uma estrada moderna que vai poder escoar a produção de dois estados brasileiros, mas será uma estrada que será exemplo para o mundo de como é possível combinar o desenvolvimento com a preservação ambiental”, disse.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, destacou que essa estratégia já apresenta resultados. Segundo ele, o desmatamento no entorno da BR-319 caiu 73,31% entre 2022 e 2025 e recuou mais 43% entre agosto de 2025 e julho de 2026. “Esses resultados mostram que é possível integrar a proteção ambiental ao desenvolvimento econômico”, afirmou.
OPORTUNIDADE – Para Lula, preservar também é transformar a biodiversidade em oportunidade para quem vive na Amazônia. “A questão ambiental virou questão econômica”, afirmou, ao destacar que a bioeconomia não nasceu nos livros, mas da experiência de indígenas, ribeirinhos, pescadores e povos da floresta. “Coube a nós, governantes, dar densidade a isso para que ela possa se transformar em uma economia alternativa”, disse.
A cerimônia levou essa ideia para o território. Foram ativados os seis primeiros Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia, com R$ 70,2 milhões em recursos da cooperação entre Brasil e Alemanha. Os núcleos vão funcionar no Pará, Amazonas, Amapá e Acre, reunindo organizações locais, negócios comunitários e instituições públicas.
Também foram assinados contratos de concessão para manejo sustentável de 162,7 mil hectares da Floresta Nacional de Humaitá. Os contratos preveem R$ 240 milhões em investimentos e a geração de mais de mil empregos diretos e indiretos ao longo da concessão. Lula disse acreditar que o Brasil está perto de provar que manter a floresta pode gerar mais riqueza do que destruí-la. “A floresta em pé é mais rentável do que uma floresta derrubada ou queimada”, afirmou.
E colocou nessa conta também o turismo. O presidente disse sonhar com o dia em que aviões estarão lotados de estudantes de outras regiões do país viajando para conhecer a Amazônia, seus rios, sua biodiversidade e seus povos.

PIAUÍ – A proteção avançou também para fora da Amazônia. Lula assinou a ampliação em 7.192 hectares do Parque Nacional de Sete Cidades, entre Brasileira e Piracuruca, no Piauí. O parque passa a ter 13.502 hectares, protegendo áreas de transição entre biomas e espécies ameaçadas.
Segundo Capobianco, com as medidas anunciadas nesta terça-feira, o Brasil já acrescentou, desde 2023, mais de 2,5 milhões de hectares ao território protegido, por meio da criação ou ampliação de 26 unidades de conservação federais. Para o ministro, Amazônia e Independência, celebradas com apenas dois dias de diferença no calendário, carregam uma ligação que vai além das datas. “Nosso destino, como nação soberana, está ligado à conservação da floresta, à dignidade de seus povos e à prosperidade de toda a sociedade brasileira.”
SOBREVIVÊNCIA – Lula também relacionou a proteção da Amazônia à preparação do país para os eventos climáticos extremos. Ao citar o trabalho de 24 ministérios para enfrentar os efeitos do El Niño, afirmou que a política ambiental não pode se limitar a compromissos no papel.
“Para nós, a questão do clima não é uma questão de discurso eleitoral, é uma questão de sobrevivência da espécie humana no planeta Terra”, disse. No encerramento, o presidente ampliou a responsabilidade pela Amazônia para além de quem vive dentro dela. Para Lula, indígenas, pescadores e ribeirinhos cumprem um papel fundamental, mas a defesa da floresta pertence ao conjunto da sociedade brasileira. “Vocês, povo brasileiro, que não moram lá, têm a responsabilidade de defender aquilo como defender o patrimônio mais importante que a humanidade tem, que é a nossa Amazônia e a nossa água doce.”